LP / Digital

Vince Staples

Vince Staples

Blacksmith / Motown / UMG

Texto de Vasco Completo

Publicado a: 10/09/2021

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Até este momento, Vince Staples dava a sensação de conceber toda a sua música com um punho cerrado, a braços dados com o afrofuturismo que informou esses espaços sónicos e poemas (e, com o devido distanciamento dos primeiros trabalhos, perguntamo-nos: será que foi ele o grande pintor dos contornos mais desenvoltos do afrofuturismo no hip hop contemporâneo?). No seu álbum homónimo, o rapper compõe, finalmente, temas que aparentam, apenas numa primeira instância, ter uma personalidade menos vincada, mais leve e impessoal. Vince Staples pinta o Verão de cores já conhecidas à estação através das batidas adocicadas de Kenny Beats e com um recostar técnico evidente — ainda que o rap mais melódico esteja cada vez mais presente e isso traga por si só novos desafios para o artista californiano.

Tudo isto, como é evidente, não retira o prazer que é ouvir um dos músicos mais fascinantes dos últimos anos num novo e mais ligeiro registo — e certamente mais interessante que o esforço mal conseguido de FM!, com um alinhamento de temas com pouco sumo para espremer, tendo em conta aquilo a que Staples nos habituou. A toada veraniça fica bem na pele de Vince Staples e é uma camada inesperada para um artista que sempre cantou em instrumentais metálicos, ásperos, soturnos, “cavernísticos”, texturas desenhadas por produtorxs como SOPHIE, Flume, Clams Casino, DJ Dahi ou No I.D.. 

Nesta nova maneira de fazer as coisas, Vince Staples não se esconde do background que o trouxe até aqui e fala dele até com uma nostalgia agridoce, e fá-lo logo desde a primeira “ARE YOU WITH THAT”:

“Are you with that? I want get-back
I’m gon’ hop out and crack
Are you with that? (Yeah) I want big racks (Yeah)
I’m gon’ flock, I’m gon’ stack (Huh?)
Are you with that? (Ayy) Won’t forget that (Ayy)
Shit I saw in my past (Yeah)
Are you with that (Yeah) like I’m with that?
Hope you watchin’ your back”



Talvez seja devido a essa melancolia que escolhe instrumentais despreocupadamente soalheiros, com mais vozes cantadas e melodias no centro de boa parte do álbum. Em “THE SHINING” e “SUNDOWN TOWN” o cantar lento e mais descontraído destoa, por um lado, do peso temático das faixas. Por outro lado, é uma expressividade que sintoniza com a aceitação do artista por ter conseguido sair das zonas complicadas de Long Beach sem que a sua forma de pensar tenha mudado substancialmente: desde a expressão do sentimento de pressão social de “TAKING TRIPS”, até à ânsia de não saber se algum fã terá uma arma consigo — toldada pelas infelizes experiências em que cresceu —, e ainda observando a falsidade no modo de vida menos humilde que o rodeia actualmente. “Only abide by my rules”, canta Fousheé em “TAKE ME HOME”, elevando o sentimento de eterno desfasamento com a realidade do MC.

O final do curto Vince Staples acelera os instrumentais e os versos em “MHM” e “LIL FADE”, mas também abre espaço para emoções à flor da pele na última mencionada, em “TAKE ME HOME” ou no curto interlúdio (ou skit) que antecede a faixa quase crooner em que Vince aterra — depois de “Yo Love”, não queremos outra coisa, sejamos sinceros.

Enquanto Summertime ‘06 e Big Fish Theory continuam a competir para o título de magnum opus da discografia do rapper americano, Vince Staples habita numa categoria à parte, que, verdade seja dita, nem quer saber onde é encaixotado. Está mais preocupado em continuar a ser expressão emocional e psicologia biográfica através da exactidão e sinceridade inata a Staples. Um retrato necessário para dialogarmos e percebermos cada vez melhor de onde vem e para onde quer ir. Olhos nos olhos, sem fillers e rodeios. Isto é Vince Staples por Vince Staples — não é preciso acrescentar mais.


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