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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/01/2023

Transparência nas rimas.

Vidro: “hoje em dia há muita música que em vez de ser uma flor é mais uma erva-daninha”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/01/2023

Um mês depois do sucesso de “Espelho”, que adivinhámos aqui, Vidro floresce num primeiro EP. Florae é um pequeno ramo de estrelícias, rosas e amaranto, três músicas gravadas “no guarda-fato com a porta aberta e uma manta na porta para minimizar os reverbs”, deixa bem claro o artista na descrição do upload no YouTube. Sabemos que nem gosta muito de flores, “os títulos das letras vieram só no fim mesmo”, contou ao Rimas e Batidas, explicando a ligação das flores que escolheu com estas músicas que já tinha na gaveta e que agora achou por bem lançar com o selo da Element4r.

“Hoje em dia há muita música que em vez de ser uma flor é mais uma erva-daninha, é mais uma como outra qualquer, e a música que eu quero ouvir e que eu quero fazer não tem de ser só mais uma erva-daninha”, diz o rapper sobre “Strelitzia”. Já “Amaranth” fala “do tempo, da morte, do medo de morrer e ser esquecido”, tema que tem levado Vidro a escrever muitas letras. “Eu sei que não dá para fugir, mas acho que toda a gente chega a uma altura da vida em que pensa um pouco mais nisso”, conta.

Com a nova quadra, Element4r, – “um conjunto de 4 rappers e produtores, o Enigma, o Chef Spina, o Pecini, e eu”, como explica Vidro – o rapper vai lançar “proximamente” o projeto Rimas de Bolso e mais alguns lost files de armário, mas depois disso quer “fazer coisas com mais regularidade” e passar a gravar no estúdio de um dos elementos.



Este é o teu primeiro EP, tendo passado mais de uma década desde que começaste a rimar. Como é que te sentes?

Sinto-me igual, basicamente, porque não era uma coisa que tinha grande expectativa em fazer nesta altura, nesta fase, e surgiu um bocadinho por acaso. Eu tinha algumas músicas feitas durante a pandemia já. Estas músicas têm para aí um ano, e pronto. Eu juntei-me agora com mais três pessoas, formámos um colectivo, e eu já tinha essas músicas gravadas que eles ouviram e acharam por bem juntar, estas três, e fazer o EP. Por mim, nesta fase, eu não teria lançado ainda.

Quando dizes “nesta fase” é nesta fase da tua vida ou nesta fase como rapper?

Mais nesta fase como rapper, porque eu acho que ainda não tenho uma plataforma criada e nem tenho assim tantas pessoas que ouvem a minha música, que me fizesse achar que era altura certa para lançar, para me fazer conhecer mais ainda. Acho que as pessoas que me ouvem ainda são muito poucas para eu ambicionar nesta altura fazer um EP. Se bem que o EP também tem essa função, de divulgar um pouco mais a nossa música, mas acho que não tenho a quantidade de ouvintes suficientes para ambicionar assim tanto fazer um EP nesta altura.

Este é o EP que o Bruno de 15 ou 16 anos — não sei ao certo que idade tinhas quando começaste a rimar — sonhou ou ainda está longe?

É o que eu quero agora porque a música que eu fazia naquele tempo não é a mesma que eu faço agora. Não me vês a falar de problemas da sociedade e essas coisas, falo um bocadinho mais do que está cá dentro. Do tempo, da morte, do medo de morrer e ser esquecido. Isso são coisas que me afligem e que eu quero passar para a minha música. São coisas que se calhar nem toda a gente vai perceber e nem toda a gente vai gostar, mas é o que eu agora acho que faz sentido escrever. Agora com dois filhos eu penso muito nisso, no legado que vou deixar, o que vou deixar cá pra eles. Daqui a três gerações, se calhar, os meus bisnetos já não vão saber quem eu sou, percebes? Nós estamos aqui, mas vamos acabar por ser esquecidos, não dá para fugir a isso. A não ser que sejamos pessoas famosas. Mas a pessoa normal, daqui a cem anos já ninguém sabe quem nós fomos, então isso é algo em que ando a pensar muito e apetece-me escrever sobre isso. É a base de muita coisa que eu escrevo, apesar de no EP só uma das músicas falar sobre isso. A outra é mais geral, fala sobre o rap.

Ia exatamente pedir-te para me falares um pouco sobre o EP que tem três faixas com três nomes de flores. Gostas de flores? É algo que te inspira a escrever?

Nem gosto muito de flores, os títulos das letras vieram só no fim mesmo. Eu fui a casa da minha avó, no Alentejo, e ela tem lá um canteiro com estrelícias e a flor é muito bonita. Achei estranho o nome e fui pesquisar, descobri que a história do nome fazia sentido naquela letra. Estrelícia, Strelitzia, vem do nome de uma rainha, da rainha Carlota Strelitzia (Sofia Carlota de Mecklenburg-Strelitz) que era a mulher do Jorge III de Inglaterra, e o nome da flor foi dado em homenagem a ela. E eu, na primeira música, digo “agora já só crescem daninhas, já não se oferecem rainhas” porque a flor se chama Strelitzia Reginae, e reginae significa rainha. Hoje em dia há muita música que em vez de ser uma flor é mais uma erva-daninha, é mais uma como outra qualquer, e a música que eu quero ouvir e que eu quero fazer não tem de ser só mais uma erva-daninha, tem de ter alguma coisa por trás, uma história por trás, não pode ser tão superficial como uma erva-daninha que cresce em qualquer sítio. Uma estrelícia não cresce em qualquer sítio, tem que ter alguns cuidados, e a música tem que passar por aí também. Temos de fazer música com cuidados para ela crescer saudável.



Depois tens a “Rosa”, que é uma música mais curta.

A “Rosa” funciona como um interlúdio para a música a seguir. Nessa música já faço mais referências a rosas, a Rosa Mota, que corria maratonas, e também faço referência à rosa dos ventos, então achei que fazia sentido. Além de que a rosa simboliza amor e — mesmo que te chateies com alguém e mesmo que estejas numa fase da vida em que aches que determinada paixão não vai te vai levar a algum sítio — o amor acaba sempre por se sobrepor. Acabamos sempre por fazer as pazes com as pessoas que amamos, continuamos a fazer por amor mesmo que às vezes não seja o que idealizamos, continuamos a fazer música porque é o amor que nos faz mover.

E a terceira música, “Amaranth”.

“Amaranth” simboliza a imortalidade e eu, nessa música, falo, como disse, do medo que tenho de morrer, de ser esquecido. Eu sei que não dá para fugir, mas acho que toda a gente chega a uma altura da vida em que pensa um pouco mais nisso. Falo disso nessa música, digo que quero ter tempo para fazer coisas, que a vida me dê mais tempo para poder alcançar objetivos.

Este EP tem o selo da Element4r, como já disseste. Fala-me da Element4r. E porque é que lançaram as tuas músicas só no YouTube?

A Element4r é um conjunto de 4 rappers e produtores — eu não produzo, mas há dois que produzem — o Enigma, o Chef Spina, o Pecini, e eu. É um grupo, antes de mais, que não é só de rap, apesar de sermos praticantes de rap, mas a questão é que queremos também, de alguma, forma ajudar a divulgar as outras vertentes da cultura, o DJing, o breakdance e o grafitti. Isso está muito perdido hoje em dia, mas são tão importantes como o rap.

Porque é que só colocámos no YouTube? Porque o que nós lançarmos sob o selo da Element4r queremos que seja só com instrumentais feitos por nós ou exclusivamente para nós. E estes beats, apesar de estar a usá-los, adquiri-os na net e, por mais que pagues aqueles leasings, nunca serão totalmente exclusivos. Queremos começar a lançar música para essas plataformas — Spotify, Bandcamp, etc. — a partir do momento em que passem a ser totalmente exclusivas. Não seria agradável eu fazer agora uma música — apesar de ser improvável — com determinado instrumental e daqui a uns tempos surgir uma de outra pessoa com o mesmo instrumental. Não gostamos muito dessa ideia. Então, para já, lançamos o que tenho no YouTube. Tenho muitas coisas em beats da net, muita coisa mesmo, que ainda vamos lançar. Este EP lancei na minha conta e na conta da Element4r, mas o objetivo a médio e longo prazo é lançar tudo na da Element4r. Muito como noutras plataformas. Em Inglaterra, por exemplo, há a High Focus Records — lançam todos os trabalhos sob o mesmo selo e na mesma conta. E [em Portugal há] a Paga-lhe o Quarto, do Keso.

Voltando ao EP, são três beats e todos do mesmo produtor?

Sim, o produtor chama-se B Noize.

Gravaste o EP em casa ainda, de forma mais rudimentar, não foi?

Sim, até coloquei na descrição. Estamos sempre a aprender e com o material que tinha na altura (estas músicas foram gravadas em 2021 e 2022) saiu a melhor qualidade possível, e eu acho que até ficou com uma qualidade fixe para o tipo de computador e para o tipo de microfone que tinha. Claro, tenho de ter o cuidado de ter os putos na escola, não dá para tê-los em casa. Tenho de gravar numa divisão mais apetrechada de móveis e coisas para não ter tantos ecos e reverbs. E foi assim, no guarda-fato com a porta aberta e uma manta na porta para minimizar os reverbs. Depois aprendi no YouTube a tratar o som para sair da melhor forma possível.

A ideia é que a Element4r comece a dar um apoio a esse nível, para que possas gravar num estúdio?

Sim, até porque um deles tem um estúdio. A partir de agora o objetivo é começar a gravar lá, porque oferece mesmo as condições ideais. Eles também produzem, por isso a cena dos beats, a partir de agora, também está salvaguardada e é tentar agora fazer coisas com mais regularidade.

Já tens algo planeado? Falaste em gravar os sons que tens aí na gaveta, se calhar também gravados desta forma.

Há sons que queríamos regravar, mas já nem vai ser possível porque tinha tudo no computador que foi à vida. Proximamente vamos lançar Rimas de Bolso, em que o conceito são músicas muito curtas, não sei quantas faixas vai ter. Algumas poderão não estar com a qualidade de som que estas têm, mas eles acham, e eu também acho, que devem estar cá fora. Vamos também lançar um lost files, digamos assim, que são músicas que também gravei e que estavam ali encalhadas. Porém, são tudo músicas de que também não tenho acesso a instrumentais.

A música “Espelho” parece-me que foi uma música que te empurrou pra frente. Como é que recebeste todo o feedback? De repente a Antena 3 a querer passar o teu som…

Disso não estava mesmo à espera. Estava a bater no YouTube, estava no Rimas e Batidas e as pessoas ouvem, mas alguém chegar-se à frente e pedir para passar a música na Antena 3, disso não estava mesmo nada à espera. Agradeço imenso ao Bruno Martins, o facto dele ter tomado essa iniciativa. É difícil as pessoas ouvirem a música na Antena 3 e irem ao YouTube procurar por “Vidro” e “Espelho”, não aparece nada. Não sei como posso ultrapassar isso. Acho que a Element4r vai melhorar isso também.


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