O lugar da mulher é, realmente, onde ela quiser e esta mulher em específico cabe em vários lugares. E naqueles onde arriscam tentar dizer-lhe que não cabe, vira as costas e cria o seu. Da música ao empreendedorismo, passando pela escrita e criação de conteúdo, Sandra Baldé — mais conhecida como UMAFRICANA — foi moldada e moldou o panorama do mundo digital em Portugal no que diz respeito a questões sobre racismo. Usou a negritude como ponto de partida e de chegada — começa e acaba sempre tudo em nós. Fez batota ao jogar ao “Quantos Queres?” para se libertar de imposições que a queriam como unidimensional. Tudo isto enquanto puxava a corda que traria tantas outras mulheres iguais a si ao patamar em que se reconhecem como humanas – mesmo que tudo ao seu redor as tente fazer esquecer disso.
No dia 17 de Novembro, a propósito do evento Labanta Braço, a DJ junta-se a um conjunto de artistas como BR!SA, Wake Up Sleep e rkeat no Lux Frágil, em Lisboa, para agitar corpos na pista de dança que com tudo o que nos ensinou, certamente, já agitou fora dela.
Surgiste no digital numa altura em que os blogues ainda eram a forma de expressão por excelência. Porquê o digital?
Na verdade não foi uma decisão minha, aliás, pelo menos não o queria usar com os mesmos objectivos que uso hoje. Entre 2013 e 2015, comecei de forma bastante despretensiosa com o meu blogue. Tinha 15/16 anos. Gostava de escrever e comecei a escrever sobre assuntos mais poéticos e aleatórios. O meu blogue teve dois pontos de viragem que acabaram por decidir o que seria a UMAFRICANA dali pra frente: o primeiro foi quando escrevi um post sobre tranças, sobre mitos e factos sobre usá-las. Sempre usei tranças e ouvi perguntas das mais absurdas às mais inocentes e decidi fazer esse post para desmistificar certas ideias. Acabou por ser um dos posts mais lidos. O segundo ponto de viragem foi quando escrevi um post sobre o cabelo da filha da Beyoncé, a Blue Ivy, que estava a ser muito atacada por causa do cabelo. Inclusive criaram uma petição para “pentear-lhe” o cabelo. A recepção por parte do público foi muito boa e foi aí que descobri que tinha uma voz. A partir daí comecei a mostrar mais o meu lado interventivo, enquanto ia aprendendo muito com os movimentos negros lá fora que eram muito mais activos do que aqui em Portugal. Quis trazer isso cá para dentro. Não havia muitos espaços onde se conversasse sobres estes assuntos e o meu blogue foi um ponto de partida para isso.
O blogue ainda está activo?
Sim. Inactivei-o durante algum tempo, mas voltei a trazê-lo à vida para quem quiser procurar. Ainda tenho lá imenso conteúdo. Chama-se Diário de Uma Africana. Embora agora deva aparecer com outro nome porque perdi o domínio por falta de pagamento.
Porque é que escolheste identificar-te como UMAFRICANA?
Na altura não pensei muito. É engraçado, na altura nem tinha nem metade da consciência racial que tenho hoje. Pensei “um blog é um diário” e eu sou africana embora tenha nascido em Portugal.
O passo seguinte foi então o YouTube, certo?
Foi demorado. Eu publiquei o meu primeiro vídeo no Youtube em finais de 2018 e só em 2019 é que eu comecei a produzir conteúdo a sério. O meu primeiro vídeo foi sobre blackface. Não queria deixar que o meu conteúdo ficasse para trás só por não estar em plataformas como o YouTube. Então, mesmo sendo tímida, eu tentei fazer esse esforço para conseguir que o meu conteúdo chegasse a novos públicos. Nem tinha equipamento de qualidade para gravar mas tento sempre fazer as coisas acontecerem, independentemente das condições. 2019 foi muito significativo para mim, foi o ano em que mais cresci no YouTube, desenvolvi uma capacidade de comunicação para lá do verbal e atingi novos públicos.
E como foi para ti esta passagem da comunicação escrita para a comunicação falada em formato vídeo e áudio do YouTube, principalmente com os temas que tratavas?
Não me posso queixar, fui muito abraçada. Era como se as pessoas estivessem à espera que alguém se chegasse à frente e falasse sobre esses temas. Claro que houve quem tentasse boicotar/diminuir, mas não era uma força expressiva comparativamente com quem me apoiava.
Quando obtiveste mais visibilidade no YouTube, começaste a ser paga?
Não, nunca recebi um cêntimo do YouTube. O YouTube tem um critério chato: tinha de ter um X número de minutos consumidos para além dos subscritores que eu tinha. É uma plataforma difícil de desbravar mas quando ainda hoje me vêm dizer que me seguiam desde esses tempos, só penso no quão valeu a pena todo o tempo investido.
Acompanhaste a migração de rede social em rede social, como sabias qual era a estratégia certa para crescer em cada uma?
Fui testando. Não sabia muito bem o que estava a fazer. Se resultasse, repetia a receita.
No meio disto tudo, onde surge o teu livro?
O processo de escrever e publicar durou quatro meses, mas costumo dizer que foi um trabalho de quase 10 anos. Boa parte das reflexões que fiz no blogue e YouTube acabaram por surgir no meu livro. Sempre quis publicar um livro. Em 2020 fiquei em isolamento profilático e pensei em começar a escrever, achei que naqueles 24 dias iria conseguir escrevê-lo. Já tinha tudo idealizado na altura. Mas só aconteceu quatro meses depois.
O título Para Que Fique Bem Escurecido veio-te logo à cabeça?
Sim, foi a primeira coisa. Eu já usava essa expressão como trocadilho e oposição a expressões como “nota de esclarecimento”. Usava-a de forma engraçada e fez-me sentido aplicá-la ao livro porque significa reconhecer as raízes, saber voltar para casa – neste caso, a mãe África –, reconhecer a negritude e enquanto mulher negra no contexto português, que foi um processo difícil para mim.
Olhando para 2019 e pensando no papel que as redes sociais desempenharam no movimento do Black Lives Matter, isso traduziu-se num novo público para ti?
Sim, mas também sinto que há duas fases: houve o momento do assassinato do George Floyd em que toda a gente queria falar sobre racismo. Havia aquelas pessoas que estavam mesmo interessadas e aquelas que se faziam de interessadas para não serem taxadas de racistas. O medo de serem taxadas como racistas era maior que a vontade de reconhecerem racismo internalizado e tentar desconstruí-lo. E a outra fase deu-se com o passar do tempo, deu para fazer essa triagem de quem permanece a querer aprender e de quem não [quer].
Também sentes essa pressão para falar só sobre racismo, mesmo que te queiras expandir noutros temas?
Sim. Agora tento ressignificar o que seria para as pessoas uma luta anti-racista. Não me considero uma activista, embora possam olhar assim para mim. Há várias formas de activismo e nem sempre tenho de estar em cima de todas as coisas negativas que acontecem connosco. Existem várias formas de reivindicar isso. Uma pessoa preta feliz a fazer coisas das quais gosta também é uma forma de trazer awareness para o tema, de levantar essa bandeira. Nós somos mais do que o racismo. Às vezes há eventos/actividades em que as pessoas quase que me colocam nessa caixinha quando eu tenho tantos outros assuntos sobre os quais gostaria de falar como música. Às vezes é difícil e a própria narrativa por vezes boicota-nos. Não nos dão escolha se não falar porque caso não o façamos nós, quem será?
Falando então em música, já querias ser DJ?
Nunca sonhei ser DJ, sempre gostei muito de música. Recebi um convite do Peter Castro para tocar no Beyoncé Fest em 2020 e eu não sabia tocar e ele voluntariou-se para me ensinar e acreditou no meu potencial, então aceitei. Em 2021, as restrições da pandemia são levantadas e ele volta a entrar em contacto e estreei-me no Beyoncé Fest. Começou ali o meu leque de oportunidades, principalmente a solo e com outras sonoridades como o amapiano, afrobeats e por aí. Toquei no Musicbox, no NOS Alive e tem sido um carrossel.
Qual é o teu sonho enquanto DJ?
Tocar no Afro Nation!
Porque é que escolheste passar música africana?
Para mim foi fácil escolher. Aquilo que realmente amo e me quero focar em é afro music. Acho que às vezes as pessoas nem entendem o meu fascínio por música da Nigéria, do Gana, da África do Sul. É quase como uma droga para mim.
As sonoridades nas quais te focas foram alvo de um crescimento a nível internacional, quer seja em termos de oferta como procura. Alguma vez sentiste que estavas num line–up como um token, para preencher uma “quota de diversidade”?
Houve um único momento em que recusei uma proposta porque o espaço não ia de encontro aos meus valores. Era um espaço onde podia tocar mas depois me deixava a questionar se as pessoas que se parecem comigo poderiam entrar também e a resposta era não. Precisavam de alguém que tocasse X tipo de música, outro alguém que tocasse outro e de uma negra que passasse afro, basicamente. E depois, claro, a questão financeira. O valor oferecido não se alinhava com o que eu peço.
Eventualmente vais ganhar mais exposição e isso vai-te abrir portas, já te questionaste sobre como será quando tiveres de pesar entre um bom cachet e espaços que não se alinhem com os teus valores?
Já pensei sobre isso. Ainda não me consigo posicionar. Por um lado, há contas para pagar, uma pessoa não pode ser full-time revolucionária, mas, por outro lado, tem de haver esse bom senso. O dinheiro pode ser agradável, mas até que ponto isso iria ser benéfico para a minha carreira artística e para mim enquanto pessoa? É muito complicado chegar a um consenso e é algo que pretendo balançar para não me boicotar a mim.
Falando em rendimentos, também tens uma vertente empreendedora. Como surgiu a BoldnDigital?
Surgiu da necessidade de partilhar aquilo que fui aprendendo como empreendedora digital ao longo dos anos. Criei em conjunto com a Helena Baldé, que é o meu braço-direito, partilhávamos muitas ideias semelhantes e ela apresentava-me ideias de projectos muito interessantes, então acabámos por criar a BoldnDigital para ajudar mulheres empreendedoras a posicionarem-se no mercado digital, quer já tenham o seu próprio negócio ou estejam a começar. O nosso público não é restrito a um grupo étnico, mas a verdade é que o maior número de clientes que chega até nós são mulheres negras, então adaptamos a nossa comunicação a este público-alvo que muitas vezes não tem acesso a este tipo de informação.
Como foste ganhando resiliência ao trabalhar sobre temas tão densos? E como descansas?
Não tive muita escolha. Ou não levava a peito as coisas que lia ou tinha de parar de falar sobre o que falava. Não há como falar sobre estes temas sem que apareça alguém a contestar tudo o que dizes. Tive de construir essa resiliência. No início foi difícil, mas hoje é natural.
Para me abstrair tento fazer algo não relacionado com isto desde estar com amigos, ver filmes, ouvir música, acima de tudo sair das redes sociais. Sair um pouco desse ambiente pesado alienando-me é a solução. Se mentalmente eu não estiver bem, também não consigo entregar nada bom.