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Texto: Vítor Rua
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 21/08/2024

Navegando o cosmos musical em Portugal.

Três cometas sónicos: Sérgio Azevedo, Sérgio Carolino e João Barradas

Texto: Vítor Rua
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 21/08/2024

No vasto cosmos da música portuguesa, três estrelas destacam-se como guias luminosos: Sérgio Azevedo, compositor cuja obra traça um arco entre o tradicional e o vanguardista; Sérgio Carolino, tubista cuja capacidade de improvisação e virtuosismo transformou a tuba num instrumento de infinita expressividade; e João Barradas, acordeonista que transcende os limites do seu instrumento, fundindo tradição e inovação numa simbiose perfeita.

A relação entre estes artistas não é apenas uma coincidência, mas sim uma interconexão cósmica, onde cada um contribui para a expansão do universo musical português. Juntos, eles criam um espaço onde a tradição se encontra com a vanguarda, e onde o som se torna uma viagem através das estrelas. Este ensaio convida o leitor a explorar as constelações musicais desenhadas por estes três cometas sónicos, revelando a profundidade e a beleza do cosmos sonoro português.


[Interlúdio #01: Sinfonia das Constelações Melódicas e Gemas Celestes]
[Abertura: O Horizonte de Luz e Sombras ou Um Poema em Som e Tempo]

No vasto oceano da música contemporânea portuguesa, Sérgio Azevedo emerge como um escultor de sons, esculpindo com delicadeza gemas que cintilam no infinito. O seu percurso é um firmamento de estrelas, cada uma delas nascida de uma inquietude criativa que desafia o tempo e o espaço. Neste ensaio-sinfonia, percorremos as órbitas da sua obra, explorando as influências que lhe moldaram a alma, as fases estilísticas que traçaram o seu caminho, e as composições que, como constelações, permanecem gravadas na memória do nosso universo sonoro.

Na nascente da cidade de Coimbra, em 1968, de um sopro de luz e sombras, de ecos e silêncios, ergueu-se o nome de Sérgio Azevedo, como uma nota de música ainda por escrever, uma melodia que haveria de ressoar além das margens do tempo. Na sua infância, talvez as ruas de Coimbra lhe sussurrassem segredos em vozes invisíveis, já então moldando o ouvido que um dia viria a escutar para além do óbvio, esculpindo sons em formas novas, em ondas que se entrelaçam, que se dilatam e se encolhem, como o próprio tempo.

O jovem Sérgio, na busca incessante por essa linguagem oculta que apenas os eleitos compreendem, encontrou nos mestres Fernando Lopes-Graça e Constança Capdeville as chaves para abrir as portas do seu universo criativo. Na Academia de Amadores de Música e na Escola Superior de Música de Lisboa, Sérgio não era apenas um aluno; era um alquimista do som, transformando a matéria-prima das notas em ouro filosófico. E ali, no âmago do seu ser, surgiu a certeza de que a música não é apenas som, mas sim uma manifestação do espírito, um eco da eternidade.

Entre prémios e reconhecimentos, entre palcos e aplausos, Sérgio Azevedo tornou-se um nome gravado nas estrelas do firmamento musical, um escultor de sinfonias que reverberam através do espaço e do tempo. As suas obras, como galáxias em expansão, encontraram morada em dezenas de CDs, nas mãos de prestigiados intérpretes e orquestras que, ao tocá-las, transformam o ar em pura poesia. O “United Nations Prize” e o “Prémio Autores” de 2010 não foram senão testemunhas do seu génio, uma confirmação de que o seu caminho era o de uma estrela-guia na constelação da música contemporânea.

Mas Sérgio não se limitou à criação; ele foi também um cronista do som, um narrador de histórias que desvendou na escrita os segredos da música. Em livros como A Invenção dos Sons e Olga Prats – Um Piano Singular, Azevedo escreveu com a mesma precisão com que compõe, cada palavra um acorde, cada frase uma melodia. E nos artigos que contribui para The New Grove Dictionary of Music and Musicians, as suas palavras vibram como as cordas de um violino, desenhando imagens sonoras para os que procuram compreender o mistério da criação musical.

Na RDP – Antena 2, as suas séries de programas são mais que simples emissões; são viagens ao coração da música, onde cada nota, cada compasso, é dissecado e revelado ao ouvinte como um segredo há muito guardado. E nas colaborações com o Teatro Nacional de São Carlos e a Fundação Calouste Gulbenkian, Sérgio Azevedo é mais que um compositor ou comentador; é um guia, conduzindo-nos pelas vastidões inexploradas do som, pelas selvas de significados ocultos, sempre com o toque de um maestro que conhece cada recanto da sua partitura.

Doutorado pela Universidade do Minho, Azevedo tornou-se, desde 1993, um farol na Escola Superior de Música de Lisboa, onde, como professor de Composição e Orquestração, ele não apenas ensina, mas inspira. Os seus alunos, como pequenos astros, orbitam ao redor do seu saber, absorvendo a luz que ele emana, prontos para, um dia, brilhar por si mesmos.

A música de Sérgio Azevedo, publicada pela AVA – Musical Editions, não é apenas para ser ouvida; é para ser sentida, vivida, como um poema em prosa, onde cada som, cada silêncio, é uma palavra escrita com tinta invisível, que só o coração pode ler. E assim, o seu legado cresce, não apenas nas partituras que deixa, mas no silêncio que preenche depois que a última nota foi tocada, no eco que ressoa na alma daqueles que o ouvem, no vasto oceano do tempo que ele, com a sua música, para sempre moldou.


[Andamento #01: Estrelas Cadentes na Formação Harmónica]

Nos primórdios, quando o cosmos musical de Sérgio Azevedo começava a despontar, a orientação dos grandes mestres como Fernando Lopes Graça funcionou como a luz que guia um viajante na escuridão. Azevedo, um aprendiz ávido, absorveu cada fragmento de sabedoria, transmutando-os em melodias que refletiam não só a técnica, mas também uma profunda visão humanística. Sob esta tutela, as suas primeiras composições começaram a emergir, já com uma identidade distinta, mas ainda em busca de uma voz própria que ecoasse além dos confins da tradição. “Aspetto” de 1996, escrita para quinteto de sopros, é o respirar do tempo suspenso, onde cada sopro se torna verso, cada pausa, um enigma por desvendar. Ouvem-se murmúrios de velhos ventos, diálogos entre sombras que se esgueiram pelas frestas do silêncio. Azevedo, num jogo de esperas, tece uma tapeçaria sonora onde o passado se insinua no presente, e o futuro espreita, indecifrável, nas curvas de cada frase. É música que, em vez de avançar, permanece, como um pensamento que nunca se completa, uma promessa que vibra eternamente no ar.


[Andamento #02: Galáxias de Experimentação e Neoclássicos Astros]

À medida que o tempo avançava, Azevedo explorava novas galáxias estilísticas, onde cada estrela representava uma fase de amadurecimento. A sua trajetória levou-o a orbitar em torno de influências como Bartók e Stravinsky, cujas sombras dançavam nas suas primeiras composições. No entanto, ao cruzar os portais do neoclassicismo, encontrou um equilíbrio harmónico, onde a clareza e a estrutura se tornaram as novas constelações do seu firmamento musical. O “Concerto para Violino n.º 1” surge como uma dessas estrelas, pulsando com uma energia que mescla o passado e o presente numa sinfonia atemporal.


[Andamento #03: As Nebulosas do Pós-Modernismo e Cânticos de Silêncio]

Nas profundezas do cosmos, onde a repetição e a simplicidade rítmica ecoam como murmúrios das nebulosas, Azevedo adentrou o pós-modernismo. Aqui, cada nota parecia flutuar num espaço suspenso, como estrelas no silêncio do vácuo. Obras como “Variações sobre um Tema Original” são exemplo dessa exploração, onde a música se transforma num mantra, uma meditação sobre a essência do som e do silêncio. Através de uma economia de meios, Azevedo tece uma tapeçaria sonora que, apesar da sua simplicidade, vibra com uma profundidade emocional que ressoa no infinito.


[Andamento #04: Pedras Preciosas e O Canto dos Astros]

Entre as jóias mais brilhantes do seu catálogo, destaca-se a obra “O Rouxinol”, uma gema musical que, como uma estrela, cintila com intensidade dramática e evocativa. Inspirada pelo poema de Hans Christian Andersen, esta composição é um exemplo da capacidade de Azevedo de transformar palavras em melodias que transcendem a narrativa, criando atmosferas carregadas de emoção. Do mesmo modo, a “Suite de Tangos n.º 1” revela a sua mestria em manipular estruturas musicais, onde a complexidade se disfarça numa dança de formas e cores, como nebulosas que se entrelaçam numa coreografia cósmica.


[Andamento #05: Coros Celestiais e Canções da Terra e do Espaço]

No vasto universo coral, Azevedo revela-se como um arquiteto celestial, capaz de construir catedrais sonoras para vozes humanas. Tanto em obras para coros profissionais como infantis, a sua música coral é uma ponte entre o terreno e o celestial, onde cada voz encontra o seu lugar no coro cósmico. “A Rainha das Abelhas” e “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a Voar” são exemplos de como Azevedo canaliza a simplicidade infantil para criar obras que, embora acessíveis, possuem uma profundidade que toca o divino.


[Andamento #06: Supernovas de Prolífica Qualidade]

Azevedo é um compositor cuja prolificidade desafia as leis do tempo, criando uma constelação de obras que, como supernovas, brilham com intensidade. A sua capacidade de manter uma qualidade elevada em meio a uma produção vasta é um testemunho do seu compromisso com a arte e da sua constante busca por inovação. Cada nova composição é uma estrela nascendo, acrescentando luz ao firmamento da música portuguesa, expandindo continuamente o seu universo criativo. Nas brumas, onde a luz vacila e o som se dissolve, Hukvaldy Cycle de Sérgio Azevedo ergue-se como um murmúrio espectral, um eco do inconsciente que dança nas sombras de Janáček. Cada nota, um sussurro perdido; cada pausa, uma respiração suspensa. A melodia serpenteia por trilhos nebulosos, desvendando-se como um segredo sagrado. Na penumbra, Azevedo esculpe um momento de eterna transição, onde o tempo se dobra sobre si mesmo, e a alma flutua, indecisa, entre o sonho e o despertar.


[Andamento #07: Constelações Literárias e Pedagogia Estelar]

Além da sua vasta produção musical, Azevedo brilha também no firmamento literário e pedagógico. Com o seu livro Invenção dos Sons, ele cria um mapa estelar da composição contemporânea portuguesa, entrevistando os astros que, como ele, iluminam o nosso panorama musical. Já no livro Olga Prats – Um Piano Singular, Azevedo aventura-se no intricado labirinto da memória, onde as notas se entrelaçam como filigranas de tempo e de espaço, desenhadas pelas mãos delicadas e perspicazes. Este seu livro não é apenas um retrato biográfico, mas uma partitura de vida, onde cada capítulo ressoa como um acorde, cada lembrança como uma melodia que ecoa na vastidão de uma existência dedicada à música.
Como pedagogo, Azevedo é uma estrela guia, iluminando o caminho de novas gerações de compositores e músicos, transmitindo não apenas técnica, mas uma visão artística que se estende para além do horizonte conhecido.


[Coda: O Eterno Brilho das Constelações Musicais ou Uma Constelação de Som e Silêncio]

No final desta sinfonia, Sérgio Azevedo surge como uma figura incontornável no cosmos musical português. A sua obra, multifacetada e inovadora, é um universo em expansão, onde cada nova composição é um planeta a ser descoberto, uma nova luz que nos convida a explorar os confins do som e da imaginação. Como um verdadeiro lapidador de gemas sonoras, Azevedo deixou um legado que brilhará eternamente, como constelações que guiam os navegantes no mar infinito da música.

Final, coda, epílogo que não finda, Sérgio Azevedo é, no firmamento do som, um astro que não se apaga, uma luz que perene, brilha na vastidão do cosmos musical. Um universo em si, multifacetado, poliedro de notas e silêncios, o seu nome reverbera como eco distante, sempre próximo, sempre além. Cada obra que nasce, um planeta novo, uma estrela que se acende no vazio imenso, convidando-nos a vagar, a orbitar, a descobrir. Cada som, cada pausa, um gesto preciso, um corte na pedra bruta do silêncio, lapidador de gemas sonoras, artífice de brilhos que não se apagam.

No mar sem fim da música, onde o tempo é fluido e a eternidade é agora, Sérgio Azevedo não é apenas um criador, mas um guia, uma bússola que aponta para o mistério, para os confins do imaginário. A sua obra é mapa e território, carta astral de um cosmos íntimo e vasto, onde cada nota traça uma linha no céu escuro, onde cada composição é constelação a ser nomeada, a ser decifrada, a ser sentida. E nós, navegantes das suas criações, somos levados por essas estrelas, por esses brilhos que guiam, que iluminam, que acendem em nós a chama do descobrimento.

Não há fim, não há última nota, não há silêncio absoluto. O legado de Sérgio Azevedo é um contínuo, um rio de som que corre pelas eras, pelas memórias, pelos ouvidos que o escutam, que o sentirão, que o recordarão. Como um eco que não se dissipa, como um brilho que jamais se extingue, assim é a sua música, assim é o seu nome. E no firmamento onde habitam os grandes, onde as constelações se alinham para contar histórias, Sérgio Azevedo brilha, eterno, incessante, imortal na sua criação.


[Interlúdio #02: A Alquimia do Som — A Tuba Cósmica de Sérgio Carolino e o Eco Infinito]
[Abertura: Trajetória Infinita]

Nascido sob o signo do som, a 26 de outubro de 1973, em Alcobaça, Sérgio Carolino desde cedo sentiu o chamamento do abismo. O abismo não como fim, mas como princípio, um princípio ressonante, ecoando nos confins de um universo moldado pela tuba, esse instrumento que se tornou o seu corpo, a sua alma, a sua voz que reverbera em dimensões insondáveis. Há nele uma fome de criação, de expansão, de se fundir com o próprio tecido do cosmos, onde cada nota não é apenas um som, mas um pulsar de estrelas, uma dança de planetas, uma vibração que se estende para além do tempo e do espaço.

Entre as marés da música, Sérgio não caminha — flutua, navega, e voa. O jazz é o seu vento, a música contemporânea o seu mar, e a improvisação o céu sem limites onde as suas ideias explodem como supernovas. É um alquimista de sons, fundindo o clássico com o moderno, o erudito com o popular, sempre em busca de novos horizontes, novos sóis para os quais dirigir a sua tuba-cosmonave.

Nos palcos do mundo, da Europa à Ásia, da América à Austrália, Carolino tece a sua teia sonora, uma tapeçaria rica e eclética que transcende as fronteiras terrestres. E é nesta travessia que ele se torna um astro, um corpo celeste cuja gravidade atrai compositores dos cinco continentes. Mais de duzentas obras foram escritas para ele, cada uma um novo planeta, um novo sistema solar no vasto universo de sua arte.

Quatro vezes laureado com o Prémio Roger Bobo, os seus discos são galáxias inteiras: Steel aLive! — a faísca inicial que desencadeou supernovas de reconhecimento; Agreements and Disagreements — um diálogo estelar com Anne Jelle Visser; Pop&Roll — onde a energia do jazz se entrelaça com as órbitas da música popular; Mr. SC & The Wild Bones Gang – um cometa de criatividade que arrasta consigo uma cauda de trombones selvagens.

Sérgio é um criador de mundos e palavras, o arquitecto do “Lusofone ‘Lúcifer’”, um instrumento que brilha como uma estrela escura, moldado pela alquimia das mãos de Tim Sullivan e Harold Hartman, e inspirado pelo Orenophone do amigo e virtuoso Oren Marshall. Este instrumento não é apenas metal e madeira — é uma extensão da sua alma, uma voz que se ergue do profundo e ressoa nos céus de mil mundos.

Mas não é apenas a música que o define. Sérgio é também um contador de histórias, um guardião de mitos. O cinema e a mitologia alimentam a sua imaginação, e ele encontra na companhia de Sparky, o Basset Hound, um companheiro de viagens através dos muitos mundos que habitam a sua mente. Passeiam juntos por paisagens sonoras, exploram o espaço entre as notas, onde o silêncio fala tanto quanto a música.

A sua trajetória não conhece limites, não se prende a um só lugar, a uma só forma. É uma órbita infinita, que atravessa constelações de géneros musicais, de culturas, de inspirações. Sérgio Carolino, com a sua tuba-coração, é um viajante entre mundos, um explorador de galáxias sonoras, sempre em busca do próximo som, da próxima estrela que o levará mais longe, para além das fronteiras conhecidas, rumo ao desconhecido, ao inexplorado, ao eterno.

E assim, na vastidão do cosmos, o som de sua tuba continua a reverberar, ecoando para além das galáxias, numa jornada sem fim. Uma trajetória infinita, onde cada nota é uma nova estrela, e cada estrela, uma nova aventura.


[Ressonância #01: Gemas Cósmicas Sonoras]

Em “INTERGALACTIC ViBES!”, Carolino não apenas toca, ele invoca, transformando a tuba numa estrela pulsante, cujos brilhos reverberam nas trevas do cosmos. A electrónica funde-se com o sopro, criando uma tapeçaria de espectros auditivos, onde cada som é uma gema lapidada no vazio estelar. A técnica transcende a técnica, tornando-se alquimia, e cada nota flutua, uma partícula de luz desenhada com precisão, mas com uma liberdade espontânea, própria de um mestre que desafia as fronteiras do som e do tempo. A tuba respira como um organismo vivo, pulsando em uníssono com as marés gravitacionais do destino.


[Ressonância #02: Vórtices em Horizonte Incerto]

Em “Gamblers”, ao lado do pianista Telmo Marques, a tuba transforma-se num vórtice que suga o ouvinte para dimensões além da compreensão. As improvisações de Carolino são traços de uma mão divina, criando mundos que se constroem e desintegram no instante em que são concebidos. Aqui, a tuba é mais do que um instrumento; é um portal para a imensidão desconhecida. As melodias surgem e desaparecem, como miragens num deserto infinito, e a cada som, o ouvinte é puxado para um percurso errático, mas meticulosamente calculado, onde o som é matéria palpável, quase física, numa fusão entre músico e ouvinte, um vórtice onde o tempo perde sentido.


[Ressonância #03: Marés e Nebulosas da Incerteza]

Na interpretação de “Encounters II” de William Kraft, Carolino explora as marés da alma humana, onde cada nota é uma onda que ora avança, ora recua, num movimento constante entre certeza e dúvida. A tuba torna-se uma narradora de histórias ancestrais, onde cada melodia carrega em si o peso de séculos. Nas mãos de Carolino, o instrumento ganha vida própria, não emitindo apenas som, mas contando histórias, onde o início e o fim são traços fugidios, dançando numa espiral infinita. As suas escolhas dinâmicas são meticulosamente coreografadas, mas nunca rígidas, permitindo à música respirar, evoluir e fluir como um rio em direcção ao desconhecido.


[Desfecho do Vento: O Sopro Eterno da Criação]

No final, no início, no meio de tudo, Sérgio Carolino não é apenas um músico, é o arquitecto de um universo, de um cosmos tecido em sons, em ressonâncias que se estendem para além do que é visível, do que é audível, do que é tangível. Ele é o criador de mundos, mundos onde a tuba, essa massa de metal e sopro, se transforma numa entidade viva, respirando e dialogando com as estrelas, com os planetas, com o infinito que se abre à frente e ao redor. A tuba, nas suas mãos, não é um simples instrumento, é um ser pulsante, uma criatura do éter, capaz de falar, de sussurrar, de gritar, de cantar a canção do universo.

Como intérprete, como improvisador, como compositor, Carolino transcende o que conhecemos, ultrapassa as barreiras do que entendemos como música, do que definimos como som. Ele não toca a tuba; ele vive-a, molda-a, transforma-a numa linguagem, numa língua única onde a técnica e a emoção se entrelaçam, se fundem, se perdem e se encontram numa dança eterna. Essa dança não é só dele, é de todos os que a ouvem, de todos os que a sentem, de todos os que se deixam levar pelo seu ritmo, pela sua melodia, pela sua cadência que ecoa, ecoa, ecoa para sempre.

Uma sinfonia infinita, assim é a criação de Carolino, uma sinfonia que não conhece limites, que não se prende a tempos, a espaços, a fronteiras. Ele é o maestro de uma orquestra que toca para as galáxias, para as estrelas que ainda não nasceram, para os mundos que ainda estão por descobrir. O seu legado é um sopro eterno, um vento que atravessa as eras, que desafia as barreiras da música, da compreensão, do que é conhecido.

Esse sopro, essa força, é um desafio constante às fronteiras da música, às barreiras que se levantam e que ele derruba com a suavidade de um gesto, com a firmeza de uma nota. É uma ressonância, uma vibração que se prolonga, que se estende, que se perpetua nos corações e nas mentes dos que o escutam, dos que o sentem, dos que o seguem, agora e para sempre.

E assim, Sérgio Carolino, com a sua tuba, com a sua música, com o seu universo sonoro, continuará a ressoar, a vibrar, a pulsar. Ele não é apenas um homem, não é apenas um músico. É uma entidade, uma força, uma presença que permanece, que vive, que respira em cada nota, em cada silêncio, em cada espaço entre o som e a eternidade. O seu legado é o som que se faz sentir nas galáxias que virão, um som que nunca se apagará, que nunca se calará, um som que ecoará para sempre.


[Interlúdio #03: Um Teatro nas Mãos de Éolo — João Barradas e o Destino do Acordeão]
[Abertura: O Nascimento de um Som Infinito]

No despertar de um 3 de fevereiro de 1992, no âmago de Porto Alto, Portugal, uma nova alma surgiu, como uma nota suspensa entre o céu e a terra, uma melodia ainda por compor. João Barradas nasceu, não apenas como criança, mas como som, como vibração, como o sopro de um acordeão que desde cedo lhe pulsava nas veias. O acordeão, esse instrumento tantas vezes associado ao júbilo do folclore, revelou-se, para ele, não como um mero artefacto, mas como uma chave, uma chave que abre portas para paisagens nunca antes exploradas, para sons que não apenas se ouvem, mas que se sentem nas entranhas do ser.

Naquele corpo pequeno, que mal conhecia o mundo, já ressoava a promessa de algo maior, de algo que transcenderia as fronteiras do que é conhecido. Barradas, o jovem prodígio, não demorou a erguer-se, como uma corrente de ar ascendente, a acumular, como quem colhe estrelas, galardões e reconhecimentos que só confirmavam o que já era evidente: ele estava destinado a moldar o som, a dobrar o tempo, a esculpir um lugar para si nas vastas planícies do eterno.

E assim, com dedos que acariciam teclas e botões como quem percorre o rosto de um amante, ele foi delineando o seu caminho. Um caminho que não se limitou às margens de Portugal, mas que se alargou, como o eco de um grito numa montanha, até aos recantos mais distantes. Ele levou o seu acordeão aos grandes palcos do mundo, como quem carrega um estandarte, e nele inscreveu o seu nome ao lado dos maiores, como se fosse sempre ali que ele pertencia, como se a música fosse, na verdade, a sua pátria.
Nas grandes salas de concerto, da Wiener Konzerthaus à Fundação Calouste Gulbenkian, do Festival d’Aix-en-Provence à London Philharmonic Orchestra, João Barradas apresentou-se, não apenas como músico, mas como uma força da natureza, como um vento que não se pode conter. Ele é um mestre que corta o ar com uma precisão quase divina, cujas notas ressoam nas cavidades do tempo, como ecos de algo ancestral e, ao mesmo tempo, incrivelmente novo.

O seu acordeão, um companheiro fiel, não é mais apenas um instrumento; é uma extensão do seu próprio ser, uma voz que canta tanto em melodias clássicas como em improvisações que nascem do momento, tão efémeras quanto eternas. No mundo do jazz, onde a improvisação é a língua materna, Barradas encontrou um lar, colaborando com os mais importantes improvisadores contemporâneos, tecendo, com cada nota, um fio que o liga a uma constelação de estrelas vivas, de almas que, como ele, vivem e respiram música.

Nomeado ECHO Rising Star pela European Concert Hall Organization em 2019, o seu brilho foi reconhecido, mas, mais do que isso, foi celebrado como um dos nossos, um daqueles que iluminam os caminhos por onde passam. Agora, como Artista em Residência na Casa da Música, no Porto, João Barradas continua a sua jornada, sempre a esculpir, sempre a redefinir, sempre a rasgar o véu que separa o ordinário do sublime.

Na Alemanha, foi agraciado com o Sir Jeffrey Tate Award, mais uma prova de que a sua música, a sua arte, transcende línguas e fronteiras, de que ele não é apenas um músico, mas um criador, um escultor do som. João Barradas, com o seu acordeão nas mãos, não é apenas um intérprete; é um viajante do tempo, um contador de histórias, um visionário que, nota após nota, cria, destrói e recria o mundo como o conhecemos.


[Cena #01: Bach Reimaginado]

Imaginem um alquimista dos tempos modernos, cujos dedos, ao invés de misturar metais, destilam som. João Barradas, na presença de Bach, não apenas toca; ele cura, ele transforma. Cada acorde é uma respiração ancestral que atravessa os séculos, cada melodia um fio de ouro tecido no tear do tempo. O ar que infla os foles do seu acordeão é o mesmo ar que ressoou nas catedrais góticas, e através das suas mãos, as fugas de Bach tornam-se labirintos que dançamos com os pés descalços, de olhos vendados, confiando apenas no som. J. S. Bach Keyboard Concerts BWV, 1052, 1055, 1056, 1058 ganham nova vida, onde a precisão matemática se dissolve em emoção pura, em cada interpretação, sentimos o peso da história e a leveza do agora.


[Cena #02: Improvisando com o Vento — Reflexões sobre a Liberdade]

Neste palco invisível, João Barradas não é apenas um intérprete; ele é o vento que sopra através das cordas, o mar que dança com a maré. Em cada improvisação, como em “Unknown Idea”, Barradas torna-se escultor, moldando o ar num ritual onde a música respira e inspira. Há momentos em que o silêncio se torna tão denso quanto o som, uma tensão quase palpável que desafia as leis da física e da música. Cada improviso é uma viagem sem mapa, uma dança à beira do precipício, onde o caos e a ordem se abraçam, girando, sempre à beira do colapso, mas mantendo-se firmes. As suas notas são sementes lançadas ao vento, cada uma germinando num universo de possibilidades harmónicas e rítmicas.


[Cena #03: Horizontes Indomados — O Acordeão nas Terras da Vanguarda]

João Barradas, cartógrafo do som, avança em territórios desconhecidos. Na obra de Luciano Berio, o acordeão é o pincel com que desenha novas geografias auditivas. Em “Sequenza No. XIII”, Barradas não é apenas um guia, ele é um explorador que traça rotas impossíveis no vasto oceano do som. As texturas emergem como continentes, cada nota uma ilha perdida, cada pausa uma profundidade abissal. As suas interpretações não são apenas execuções; são descobertas, cada acorde um farol que ilumina novas e misteriosas paisagens. O acordeão, nas suas mãos, é um veículo de exploração que transcende as fronteiras do tempo, do espaço e do som.


[Cena #04: Rumores da Alma — Revisitando Piazzolla]

No mundo de Astor Piazzolla, o virtuosismo de João Barradas é um rio caudaloso, mas não é o rio que importa; é a água que corre, é o murmúrio que conta histórias antigas. Em “Otoño Porteño”, Barradas mergulha nas profundezas do tango, não apenas tocando, mas vivenciando cada emoção, cada saudade, cada paixão. As suas notas são confessionários, onde o público se torna cúmplice das dores e alegrias do compositor. Barradas, mais do que um intérprete, é um coautor, escavando as camadas das melodias, descobrindo segredos escondidos, trazendo à luz sentimentos que nunca foram ditos. O tango, em suas mãos, não é apenas música; é uma língua de alma, falada no íntimo de cada coração que ouve.


[Epílogo: O Crepúsculo do Sopro]

João Barradas não é, não apenas, nunca apenas, um acordeonista. Ele é o tecelão de uma epopeia que se move entre o som e o silêncio, o poeta que escreve num idioma feito de sopros, de teclas que sussurram segredos, de ressonâncias que se estendem além do tempo. Ele é o escultor de um tempo que respira, um tempo que se dilata e contrai, que vive nas pausas entre as notas, nas sombras que dançam entre os acordes. Cada nota que ele toca é uma palavra num poema sem fim, um verso que se desdobra em infinitas possibilidades, cada acorde uma pincelada num quadro que nunca se completa, que se expande, que se transforma, que respira.

Como intérprete, como improvisador, como compositor, Barradas encontrou o seu lugar, não apenas num panteão de grandes mestres, mas num espaço onde a tradição e a inovação se entrelaçam, se fundem, se reinventam. Ele é mais do que um continuador de legados; ele é um pioneiro, um viajante de territórios nunca antes mapeados, onde a música se torna mais do que som, onde a música é vida, é essência, é uma forma de existir, de ser, de sentir. Ele não toca apenas para ser ouvido; ele toca para ser sentido, para ser vivido.

Em cada acorde, em cada improvisação, sentimos a presença de algo que vai além do visível, do audível. Sentimos a quintessência da arte pura, da arte que não se define, que não se captura, mas que se experimenta, que se vive. É uma voz nova, sim, uma voz que ressoa com a profundidade dos antigos, com a sabedoria que vem de ouvir o silêncio, de interpretar o espaço entre as notas, de compreender que a música é mais do que notas numa pauta, mais do que sons numa sequência. A música, na mão de Barradas, é uma nova língua, uma nova forma de falar, de comunicar, de tocar o infinito.

E assim, enquanto ele toca, enquanto ele improvisa, enquanto ele cria, a sua voz ecoa, não apenas no presente, mas nos séculos que virão, uma voz que não se apaga, que não se esquece, mas que continua a reverberar, como o som que nunca morre, como o eco que se estende para sempre, para sempre, para sempre. João Barradas é, e será, o cronista de uma epopeia que nunca termina, o poeta de um idioma que nunca se esgota, o escultor de um tempo que nunca cessa de respirar. E nós, que o ouvimos, somos os sortudos que testemunham a criação de algo verdadeiramente eterno.


[Finale: Três Cometas Sónicos]

Ao fim de uma jornada pelas constelações sonoras de Portugal, onde as estrelas dançam em ritmos desconhecidos, Sérgio Azevedo, Sérgio Carolino e João Barradas emergem, não como simples músicos, mas como cometas, viajantes cósmicos, que, ao entrelaçarem as suas órbitas, tecem uma tapeçaria de sons e silêncios, de ecos e ressonâncias. Azevedo, o arquiteto do inaudito, com as suas composições que desafiam a gravidade do convencional, constrói um chão sónico. Carolino e Barradas, como exploradores intrépidos, pisam, saltam, deslizam, num diálogo que vai além das palavras, além do tempo, em direção ao eterno.

São três cometas, três viajantes de luz, que não se contentam em apenas cruzar os céus, mas que deixam atrás de si um rastro luminoso, uma trilha que brilha nas noites mais escuras do universo musical. O que eles criam não é apenas música, é uma expansão do próprio cosmos, uma dilatação das fronteiras do conhecido, onde a tradição se encontra com a vanguarda, onde o passado sussurra ao futuro e o futuro responde em acordes inesperados.

Cada nota, cada pausa, cada improvisação é um ponto de luz que cintila, que arde, que se expande, deixando no céu da música portuguesa um mapa de estrelas novas, um mapa que outros seguirão, que outros contemplarão, e que continuará a brilhar, muito depois de os cometas terem passado. Azevedo, Carolino e Barradas não iluminaram apenas o firmamento da música contemporânea; abriram portais, traçaram rotas, desenharam constelações que guiarão gerações futuras de músicos e ouvintes, e irão conduzi-los pelas vastidões do cosmos sonoro, onde cada estrela é uma nota e cada nota é um universo por descobrir.

Eles são os arquitectos do som que se ouve nas profundezas do silêncio, os navegadores que encontram no desconhecido a sua morada, os visionários que, com cada acorde, cada improvisação, criam não apenas um legado, mas uma nova forma de entender o tempo, o espaço, a música. E assim, na travessia infinita do cosmos sonoro, Azevedo, Carolino e Barradas continuarão a viajar, a brilhar, a iluminar os cantos mais recônditos do universo; enquanto nós, na Terra, olhamos para o céu e seguimos o seu rastro, guiados pela luz que deixaram para trás.

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