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Fotografia: André Delhaye
Publicado a: 10/07/2024

Da criação de outras linguagens.

Tracapangã e Homo Sapiens no Jazz no Parque’24: admiráveis vozes de mundos novos

Fotografia: André Delhaye
Publicado a: 10/07/2024

A trigésima terceira — sim, diga-se lá outra vez 33 — edição do Jazz no Parque, festival dedicado às linguagens jazz em Serralves encontra-se a meio da programação deste ano e conta com as propostas pensadas pelo músico Rodrigo Amado. No calendário habitual de Julho — mês em que os festivais se começam a sobrepor e sofremos com a incapacidade da ubiquidade — teve no primeiro dia, do primeiro fim-de-semana, a presença da impactante criadora ao piano que é Marta Warelis e o trio para saxofone, contrabaixo e bateria de Ingrid Laubrock, Michael Formanek e Jim Black, respectivamente. A companheira de reportagem Sofia Rajado — em missão para a Jazz.pt — deu conta disso mesmo. Chegámos para ouvir o que as novas vozes têm a revelar, no dia 7 ao cair da tarde, no auditório do Museu e no campo de ténis do Parque.

É frequente empregar-se o termo voz para expressar o que se escuta vindo, entre outros, de instrumentos que usam o sopro como energia emissora de som, através das palhetas e bocais. Contudo, e nesse mesmo sentido — porque o é muito menos frequente — a voz surge como instrumento nos domínios da instrumentação jazzística. Afinal, e porque uma das melhores definições deste campo da linguagem musical é a impossível definição absoluta, é com entusiasmo que se espera escutar toda a proposta que se atreve a romper ou a apontar novos mundos.

Tracapangã é à partida uma invenção — a palavra que não existe em léxico algum — mas mais que isso é a uma designação, e desde logo sonora, da nova linguagem do duo formado por Mariana Dionísio na voz e João Pereira na bateria. Mariana que conhecemos do trio vocal que corporizam a matriz_motriz de Mané Fernandes e que reportámos do Festival Porta-Jazz’24. João Pereira que é a força percutora no trio de Ricardo Toscano. Esta voz e bateria encontra-se em rumos musicais expansivos, em combinatórias que vão ao encontro do violoncelo de Adèle Viret e do contrabaixo de Zé Almeida como Analogik — dia 17 com lançamento do disco no Festival Robalo’24 — e em trio com o trompetista João Almeida — darão conta disso mesmo no dia de encerramento (dia 21) do programa satélite do mesmo festival. Em duo têm pontuado em ocasiões a sua telepática cumplicidade, deixando a vontade de haver mais e mais. Há planos e vontade para deixar em registo o que se vai libertando em palco, contámos com essa confissão num pequeno passeio de volta após as festividades do segundo dia de Jazz no Parque. Mas até esse dia ficar materializado em estúdio haverá que acompanhar numa plateia o que querem contar de viva-voz e baquetas.

É uma língua nova a que expressa esta condutora voz, e é uma linguagem nova o caminho escolhido pela combinação instrumental, invulgar e enriquecida pelo mundo criativo de cada uma das partes. O primeiro tema que desenvolvem no palco do auditório sabe ao que sabe a fruta colhida fresca e perfumada na sombra da própria árvore que deu flor. Mariana acompanha de cor e salteado o tema composto por João, como se o estivesse a trautear a par do mesmo e tocado pelo compositor, ali mesmo, mas fá-lo em modo valorizado, acrescentando a magia inocente de uma camada poética em palavras que ninguém conhece, irrepetíveis, nem ela própria. Apresentam-se e assumem “estamos a improvisar”. Leia-se a compor em tempo real — não vá vir à leitura um qualquer sentido de desenrasque nisso — e fazem-no com domínio seguro e orgânico do que vão libertando dos seus “eus” para os espaço comum, para ser nosso também. Em depuração onomatopeica, o elementar dos toques nas peles o timbre do metal ou da madeira até, tudo entra na enleia neo-semântica do duo Tracapangã. “Há quem se queixe do nome, difícil de fixar ou de dizer”, comenta Mariana Dionísio na tal conversa tida. Mas o difícil é que dá mais que entender e há que o tornar fácil de perceber, para isso nada melhor que um concerto assim para ficar claro e de boa memória e fixar ideias claras. Vida longa a Tracapangã seja lá onde e em que língua for, valem muito e recomenda-se entrar neste mundo criativo e inventado.



Algo de novo traz o baterista de volta à cidade — Mário Costa estreia Homo Sapiens. Costa entre assumindo o novo projecto com a própria espécie, do latim sabemos desde Lineu a que se refere, mas ali estamos para saber, vendo e ouvindo o que é a diagnose musical que a descreve, que atributos sonoros a diferencia das demais — afinal são esses os preceitos da taxonomia dos seres vivos. Este imparável compositor e baterista já nos revelou Oxy Patina e mais recentemente Chromosome, dois propósitos que o mantêm como experiente nos domínios descritivos do habitat oculto da matéria e dos códigos da vida. Disso colheu benefícios que o fazem continuar, e nesse sentido retoma uma ideia de que, ficámos a saber em discurso directo em palco, “surgiu na verdade há uns 14-15 anos, pensando na voz de Emile Parisien” quando o conheceu. E lá está a voz ao serviço de um instrumento, neste caso um de palheta — o saxofone soprano de Parisien. Na composição saída de Costa, bem como em palco, há o lugar imprescindível do contrabaixo às mãos de Bruno Chevillon. Mário Costa vai sedimentando um estilo mais em mais na esteira do jazz vindo das paragens de Sclavis, Portal ou Humair, entre outros músicos gauleses. A sua consistência denota uma linguagem simultaneamente pensada na dos companheiros para quem idealiza a sua música — Chromosome é exemplo disso mesmo e mesmo até o estreante Homo Sapiens se transforma numa híbrida, mas fértil, nova linguagem.

O concerto começa numa toada desafiando a própria noção de tempo, com o metrónomo colocado à mercê de reajustes frequentes, parece que o relógio marcará o ritmo que mais convém à música, que de irrequieta e criativa pede a instabilidade necessária ao tempo — que passa a subalterno na vez de dominante. Jogo de belo efeito e que intitulam “Crazy Disco”, também ele instável na denominação — “Por enquanto assim se chama, logo se verá uma vez em disco”, assume o homem sabedor destas coisas de baquetas nas mãos. Mas neste Homo Sapiens de Mário Costa, a voz predominante e que resplandece a cada novo e frenético fraseado é de Parisien. “4:6” e “Nuevo Nine” a traduzirem uma vez mais a relação com o tempo, acelerações frequentes no ritmo que aproxima por vezes o baterismo de Costa de uma cadência punk-rock, abrem campo para o inebriante brilhantismo desenvolvido pelo soprano vindo do certo além lugar. Perguntamo-nos como fomos capazes de perder a atenção que esta voz merece. Emile Parisien tem no registo em sexteto Louise um ambicioso voo que cruza o Atlântico a merecer redobrada escuta. Mas voltando ao Parisien em palco, que junto a Chevillon nos fizeram temer que França os esperaria no regresso — no final soubemos brindar à liberdade continuada. E afinal era de liberdade que se tratava em palco, criativa para novos mundos tão necessários e urgentes. Foi com “Suite Jalapeño” que Chevillon deu um pequeno concerto dentro do que já o continha, arrepiou, e de que maneira, o modo e a forma com que do seu contrabaixo de linhas estilísticas fez sair uma cascata de pizzicatos que mostraram um solo exuberante (quase) impossível para humanos. Mas afinal era Homo Sapiens, super-humanos talvez, estes que Mário Costa idealiza na sua nova corrente autoral — bem que precisamos todos deles.

Neste final de tarde, que a temperatura do ar fazia arrefecer, houve um crescente humano servido por poderosos criativos seres capazes do melhor entre os da nossa própria espécie.


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