pub

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Francisca Castro
Publicado a: 08/10/2020

Dois newcomers largaram uma bomba para as pistas de dança em Janeiro. Só não esperavam que, dois meses depois, um vírus as fechasse durante tempo indeterminado...

“Tou Na Festa”: o hit do Verão que não aconteceu

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Francisca Castro
Publicado a: 08/10/2020

E se Manuel João Vieira, figura principal dos míticos Ena Pá 2000, estivesse agora no auge dos seus loucos 20 anos e tivesse composto, ao sabor das tendências contemporâneas, um cântico cómico entre o rap, o house e o techno? Possivelmente soaria a algo próximo do hit das noites de Verão que não chegaram a acontecer como deviam em 2020, o single da dupla Joint One e Yung Juse que invadiu as frequências desses carros por Portugal fora, já que a festa foi feita, nesta época veranil, à base de sistemas de som muitas das vezes montados por pelotões de colunas JBL e equivalentes. 

Com cerca de quatro milhões de visualizações no YouTube e cerca de dois milhões de plays no Spotify, “Tou Na Festa”, de benção a maldição, foi o tema que catapultou os nomes destes dois artistas do Porto para as bocas do povo, que alegremente entoou a orelhuda canção, de máscara no queixo, como o hino da resistência à fatídica pandemia. No entanto, esta jornada começou como brincadeira e rapidamente se tornou em assunto sério. “O ‘Tou Na Festa’ foi só uma cena para mostrar aos nossos amigos e esquecer que aquilo existia. O que aconteceu foi que vários amigos nossos deliraram completamente com o som, a níveis que nós nunca tínhamos visto antes, e isso motivou o Juse, acho eu – ainda hoje não sei o que lhe deu na cabeça –, a colocar um excerto no Twitter. Aquilo ficou viral, nós reflectimos sobre o que iria ou poderia acontecer, e o resto foi história”, como nos contou Joint One. Em relação ao que lhe passou pela cabeça, Yung Juse esclareceu-nos: “num domingo à tarde, estava em casa a apanhar uma grande seca, e apareceu-me aquele vídeo animado dos DJs a passar som com garrafas de água. Pus a faixa por cima do vídeo e meti no Twitter, lá para as três da tarde, e aquilo rebentou. Aí vimos que tínhamos mesmo de lançar, e deu no que deu”. 

Porém, e ao contrário do que possa parecer, esta não é a primeira encruzilhada onde se encontram: o feliz acidente resultou de uma sessão de estúdio conjunta, com vista a uma colaboração destinada ao EP de Yung Juse – “no início deste ano tinha um som que queria gravar para o EP que tinha pensado fazer na altura, e fui ao estúdio dele, que tinha mais qualidade que o meu. Fizemos o som, ele até acabou por entrar nesse som, só que não estávamos a sentir. Depois começámos a procurar beats no YouTube e apareceu esse; gravámos e saiu bem, achámos piada”.

De PZ a Chico da Tina, dos Conjunto Corona ao próprio David Bruno, algo notado recentemente pela imprensa internacional, o Norte do nosso rectângulo à beira-mar plantado tem-se mostrado terra fértil para semear rimas e batidas satíricas, ricas em sementes de qualidade e substância. Ainda assim, a paródia é um registo dúbio, “muito riso, pouco siso”, como diz o outro. E o outro, geralmente, tem tendência a torcer o nariz quando lhe pedem para pôr os óculos e olhar mais além. Talvez esse seja o maior desafio para quem voou tão alto e sem precedente – agora é preciso manter a trajetória ascendente para evitar os loops

Joint One não acusa receio sobre esse estigma: “eu posso renovar o meu cartão-de-visita com o passar do tempo”. E o tempo é o melhor juiz, já se sabe. Não obstante a elevada pressão atmosférica sentida, os dois pilotos não têm dúvidas acerca das próximas aterragens. “Bunda”, com Lójico, é a primeira novidade de Joint One, estreada na passada sexta-feira, dia 2 de Outubro. Julgando o livro pela capa, este seria um seguimento lógico (sem trocadilhos) da faixa que aqui nos trouxe. No entanto, o registo deste novo tema aponta para direcções totalmente opostas, passando pelo afro com vista à kizomba, e ainda com versos emprestados pelo funk brasileiro.



Além disso, o artista que recentemente se juntou à Universal Music Portugal deixa bem claro que nem só do “Tou Na Festa” vive a sua expressão artística: “o meu catálogo daqui para a frente vai ser uma coisa que as pessoas se vão identificar mais, e eu também”. Vai mais longe até, pegando de caras e pontas afiadas este desafio mascarado – “apesar de ter sido uma benção e uma maldição, também é um grande desafio para mim enquanto artista ter de ultrapassar essa barreira. E eu acredito em mim, acredito que consigo ultrapassar isso facilmente. Estou a criar um catálogo de música no qual acredito muito, e que tem potencial para agradar o ouvinte geral. Tenho cenas para quem gosta de trap, afro, techno. Tenho um bocado de tudo, porque, no fundo, também cresci a ouvir um pouco de tudo. Então, a minha visão agora enquanto artista é meter a minha personalidade por cima dos beats”. 

A parceria com a Universal abriu caminhos que se esperavam sinuosos, muito por culpa da situação pandémica que se verifica, neste caso, nas nossas fronteiras. Por isso, se a princípio havia alguma relutância, a escolha revelou-se acertada, nas palavras de Joint: “por um lado sempre me quis manter independente, só que com isto do coronavírus já tinha vários temas preparados, e a falar com o meu agente estávamos a pensar na melhor forma de publicar isso. E ele sugeriu-me a ideia da label. Então, decidi dar uma oportunidade e ter uma reunião com eles, e quando isso aconteceu, entendi que eles poderiam ajudar-me em vários aspectos que eu ainda nem tinha noção que podia atingir. Estou mesmo entusiasmado para as pessoas verem o que está para vir aí em breve”. 

No mesmo sentido, Yung Juse partilha de uma visão paralela no que diz respeito às amarras que os prendem à expectativa dominante: “nós já estávamos à espera de que quem gostou desse som não goste tanto das nossas próximas cenas, mas é o que é. Vamos fazer o que curtimos, e não vamos ficar presos a essa sonoridade. Estamos tranquilos; sabemos que vai ser difícil, mas é o que tem de ser feito. E se tentássemos fazer um novo ‘Tou Na Festa’, nunca ia bater tanto como bateu, porque da primeira vez ninguém estava à espera. Ia parecer forçado”.  

As perspectivas para o futuro são prometedoras. Tanto um, como o outro, chutam a bola para a frente sem pensar no golo ao ângulo que marcaram numa jogada não-ensaiada: ambos estão a preparar os seus EPs, que estarão para breve. Da parte de Juse, o projecto está quase fechado, e também há novidades a caminho: “vou lançar um single depois do Joint lançar o ‘Bunda’”. Por sua vez, Joint revelou que está a trabalhar no seu próximo projecto, com cerca de seis ou sete faixas, à partida, e uma presença assinalável do companheiro Yung Juse.  

Pelas circunstâncias que levaram a que não tenha ecoado ainda mais pelas festas do país, talvez “o hit do Verão que não aconteceu” seja uma benção e uma salvação. Quem sabe se essa pequena diferença entre a liberdade de escolha individual da própria playlist festiva, e a saturação inevitável no circuito da vida nocturna, intensificada nos meses das noites quentes, terá sido o bilhete dourado para a passagem de um hit para outro, de um single para uma carreira, de uma memória para um lugar na história.


pub

Últimos da categoria: Ensaios

RBTV

Últimos artigos