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Texto: ReB Team
Fotografia: Renato Cruz Santos
Publicado a: 31/10/2024

O grupo junta-se a um ensemble vocal para antecipar o próximo disco, Amores Infinitos.

The Rite of Trio: “Estamos a tentar aumentar o nosso leque de possibilidades”

Texto: ReB Team
Fotografia: Renato Cruz Santos
Publicado a: 31/10/2024

The Rite of Trio antecipam esta quinta-feira, 31 de Outubro, o álbum Amores Infinitos, previsto para 2025, com um concerto especial na Culturgest, em Lisboa. A tripla composta por André B. Silva, Filipe Louro e Pedro Melo Alves junta-se pela primeira (e única) vez a um coro de seis vozes, formado por Beatriz Nunes, Nazaré da Silva, João Neves, Hugo Henriques, Diogo Ferreira e Miguel La Féria.

São vozes que têm feito trabalho entre a música escrita e improvisada, e que aqui se fundem com as paisagens sonoras erguidas com texturas de electrónica sintetizada, jazz e rock, com uma postura experimental e um diálogo constante entre o acústico e o digital. The Rite of Trio vêem este momento como a celebração de uma década a criar música em conjunto.

Ao vivo, mantêm uma atitude performática “pós-pós-modernista, absurda, irónica e cínica”, como os próprios descrevem. Os bilhetes para assistir ao espectáculo, que conta com desenho de luz com carácter cénico e de instalação de Diogo Mendes, encontram-se à venda entre os 5€ e os 14€. O Rimas e Batidas colocou algumas questões ao grupo para antecipar o concerto (o único que dão com este projecto em 2024) e o disco que aí vem.



Comecemos por este novo desafio, do trio que se apresenta numa extensão a um ensemble vocal, passando a serem mais. Qual o propósito? É uma necessária nova ferramenta para a vossa música? Ou até mais uma experimentação duma expansão a outras vozes?

Esta é uma expansão natural das ferramentas que o trio utilizou. Isto é factual e é algo que se comprova desde os primeiros registos da banda até aos dias de hoje. Nós estamos a tentar aumentar o nosso leque de possibilidades e tentar utilizar todos os meios possíveis para estender esse leque de uma forma que, ainda assim, seja coesa e que esteja de acordo com aqueles que são os propósitos fundamentais da banda e do projecto. Eventualmente, no primeiro disco era tudo simples, digamos assim. Era pura e simplesmente quase só à base da música escrita, que era óptimo e nos deixava super agradados. No segundo disco expandimos isso com a introdução de elementos performáticos, digamos assim, com o acrescento da electrónica, a introdução de voz falada, de diálogo com o público. Nalguns concertos, houve o acrescento de um desenho de luz específico para o espectáculo. Portanto, a voz já era algo que estaria a ser ligeiramente introduzida aí nesse segundo disco, o Free Development of Delirium. Para estes novos temas, naturalmente, quando os começámos a escrever, pensámos em momentos que poderiam ser acompanhados ou reforçados por voz, mas de forma muito simples, muito minimalista. Já o propósito deste concerto, ele começou a ser discutido/negociado há cerca de dois anos. A ideia original era que, de facto, houvesse um coro para tentar elevar, digamos assim, o espectáculo de alguma forma, torná-lo mais especial, mais apelativo, tanto para a instituição — a Culturgest — como para o público que pudesse ter interesse em ver este projecto num modelo diferente. Esta expansão para o coro, de facto, influenciou o trabalho para o novo disco, que se avista para 2025 e que terá uma utilização, se calhar, menos minimal e de reforço da voz, mas sim uma presença verdadeira, autêntica, assumida da voz.

Estarão com isto a reformular a ideia de serem a metáfora da vida, como vocês melhor definiram um certo dia The Rite of Trio?

A ideia da metáfora da vida é, obviamente, uma ideia interessante e engraçada [risos]. Mas é, na verdade, tão somente um dos muitos sound bites que estão incluídos no folclore desta banda e que nós, num momento de aleatoriedade, de devaneio, o que quer que seja, entre quatro paredes afirmámos em voz alta e depois resolvemos pegar nisso e transformar isso numa bandeira, quase, e mostrá-la ao público. É interessante porque, normalmente, a gente pega nestes sound bites e corre com eles, passam a fazer parte da forma como a banda se apresenta ao público. Isso, para nós, não é intencional, mas há um certo gozo em todo este processo de depositar sementes e depois vê-las a crescer e a transcender no tempo e no espaço, e a ouvi-las ao longo de vários momentos da nossa existência — ou a reouvi-las, a serem repescadas de outros momentos. Portanto, e respondendo à pergunta, achamos que estamos 100% empenhados em ser uma metáfora da vida e achamos que é impossível não o sermos, pela forma como nos propomos a trabalhar e a construir música — essa parte estará sempre bem lá presente. E achamos que, agora, com o acrescento das vozes, isso será ainda mais algo com que as pessoas se podem relacionar de forma visceral, digamos assim.

Com 10 anos de vida e depois dos discos GETTING ALL THE EVIL OF THE PISTON COLLAR! e Free Development of Delirium, qual a ideia com este novo álbum que se avizinha, Amores Infinitos? Muitas bandas terminam antes de fazerem a passagem para a década de existência, vocês continuam e de boa saúde, há segredos nisso?

Há uma coisa que é fácil de explicar e pode ser útil para tentar perceber o que se passa aqui. Nós resolvemos quebrar com a tendência do segundo disco e do segundo espectáculo que estávamos a apresentar, o Free Development of Delirium, que era uma peça em si, era quase como se fosse uma peça de teatro, um espetáculo performático, um conceito que funcionava do início ao fim e que só funcionava assim — não haveria sentido em fazê-lo de outra forma. Portanto, ao longo de dois anos e picos, estivemos a fazer esse espectáculo só de início ao fim. Às vezes cortávamos um finalzinho quando o concerto não podia ter uma hora, mas é isso, era um conceito que funcionava a 100% de forma una. E com este terceiro álbum, sentimos que levámos uma banhada de performance e de conceito nos últimos dois, três anos e precisávamos, se calhar, de voltar um pouco às origens e ter música que funciona por si só, sem um conceito subjacente a orientar toda a direcção musical do princípio ao fim, e ter algo que fosse ligeiramente mais relaxado em termos conceptuais. Não querendo com isto dizer que os conceitos não estejam lá — e estão, obviamente. Começa logo pelo nome, há uma mensagem artística que se quer passar. Mas, como quase tudo nesta banda e em muitas outras formas artísticas contemporâneas, o exercício de tentar explicar o conceito é um exercício fútil. Em primeiro lugar, porque os espectáculos de The Rite of Trio são experiências sensoriais e, portanto, achamos que o benefício está mesmo em tentar vivenciar com todos os cinco sentidos abertos o que se está a passar à nossa frente. Tentar explicá-lo, tentar descrevê-lo, tentar colocar uma explicação acaba por tornar o espectáculo menos interessante, diríamos. Claro que cada pessoa vê da forma que entende, mas o objectivo não é, de todo, tentar explicar, tentar perceber. Quando entramos nesse ponto, estamos um bocado condenados a falhar e, se calhar, a oferecer uma experiência menos interessante do espectáculo. É uma experiência sensorial e acho que este disco e este espectáculo têm muito a ver com isso. Relativamente ao segredo de como ter uma banda durante 10 anos… Esta parte é bastante complicada [risos]. É muito complicado. Achamos que a primeira coisa que é preciso é reunir um grupo especial de pessoas, e estamos a tentar dizer isto com o máximo de modéstia possível. Tem que ser especial na medida em que toda a gente tem que acreditar profundamente no que está a fazer e tem que ser uma crença quase obsessiva ao longo, neste caso, de 10 anos. Em The Rite of Trio, todos os processos de decisão são partilhados. A banda não é de nenhum de nós especificamente e achamos que isso ajuda a que todos os três, nalgum determinado ponto, temos a capacidade de puxar pelos outros quando, se calhar, não há forças, não há energias. Ou seja, os três temos essa responsabilidade de manter isto vivo. E, de repente, comparando com outros projectos, se calhar acaba por ser um bocado diferente — se pensarmos mais em projectos de jazz, que normalmente têm liderança de uma só pessoa assumida. Noutras bandas — bandas de rock, bandas alternativas — é complicado. É preciso conhecer muito, muito bem as pessoas. Estamos sempre a dizer isto, mas isto é um casamento de 12 anos já, e é como qualquer relação, é como qualquer casamento de 12 anos, é preciso saber que batalhas vale a pena lutar. Há sempre, obviamente, divergências de opinião, divergências no processo de decisão, divergências no processo de uma forma geral, e temos que saber como lidar com tudo isso, como agir, que batalhas devemos lutar, que batalhas devemos abandonar, dar a mão à palmatória, experimentar sempre… Há um mote que faz parte desta banda e que se calhar pode ajudar a explicar isto, que é: em princípio, nenhuma ideia é demasiado ridícula. As ideias são todas apresentadas e todos nós temos a hipótese de as mandar para a frente. Na pior das hipóteses, experimentamo-las e percebemos rapidamente que elas não funcionam. Portanto, achamos que isto ajuda bastante. É algo mais de hands-on approach, em vez de ser só mandar ideias e atirá-las logo para fora sem dar oportunidade para elas serem experienciadas. Isto acaba por ajudar. Mas, de facto, é difícil. Nós também somos amigos, acreditamos que isso também ajuda, mas isso não é único desta banda, obviamente — há muitas bandas que são formadas por amigos. Não é fácil explicar como é que isto se faz funcionar. Temos, se calhar, comprimentos de onda semelhantes, que regem os trâmites pela qual a moldura da banda se movimenta. Também ajuda compreendermos muito bem o humor uns dos outros, o que é muito bom para esta banda, e também os interesses musicais e artísticos uns dos outros. Isto tudo ajuda de alguma forma, mas é uma resposta difícil.

A vossa música até aqui poder-se-á designar de um jazz surrealista, até do absurdo, que se desafia a ela própria e se torna mutante no seu decurso. Isso mantém-se no novo e ambicioso capítulo de exploração de voz, de electrónica sintetizada, e de diálogo entre acústico e digital que agora estão prestes a apresentar?

A resposta é um sim. Isso vem de outro dos mottos da banda, que é esta ideia de tentar defraudar sempre as expectativas de quem nos está a ver. Isto é muito fácil de fazer no primeiro disco, quando a banda está a ser lançada e ninguém espera absolutamente nada de nós. Quando já temos 10 ou 12 anos de existência e as pessoas já sabem ao que vão, mais ou menos, torna-se um bocadinho mais complicado, o que também torna o trabalho mais interessante, porque, de repente, estamos também a tentar defraudar as expectativas que as pessoas já criaram sobre nós e não só que criaram sobre música de um trio de jazz, ou o que quer que seja. Essa parte do trabalho é interessante. E, naturalmente, o resultado disso acaba por ser, muitas vezes, absurdo e caótico, sem dúvida. Todas estas ferramentas novas — a música sintetizada, a voz, os desenhos de luz — permitem-nos explorar esta nossa faceta de forma muito mais expandida, de ter mais possibilidades, digamos assim, nas soluções que nos estão disponíveis. O objectivo — e aqui achamos que a banda tem muito para dar — é que isto não seja feito de forma gratuita. O espectáculo nunca será sobre o caos, nunca será sobre o absurdo, nunca será sobre sermos uns palhacinhos em palco ou, inclusivamente como já nos chamaram, uns Looney Tunes do jazz — embora com respeito, porque foi dito por pessoas que gostam muito de nós. Nós tentamos sempre que haja uma base musical bastante forte, bastante pensada, ponderada, estudada e ensaiada, sendo executada ao mais alto nível. No fundo, é a junção destes dois universos que, de facto, tornam o projecto especial.

E voltando às vozes com que vão partilhar o palco da Culturgest, que encontramos em LEIDA, a nova formulação para ensemble vocais que Mariana Dionísio está a inscrever na música, ela própria que tomou lugar no trio vocal que Mané Fernandes trouxe na abordagem, ainda que sem a secção rítmica mais expectável do jazz, com matriz_motriz. Há uma nova corrente de possibilidades em curso. Como vêem isso?

Sobre a presença das vozes e destes cantores em específico, concordamos que se está a verificar uma corrente especial em curso no que toca a um uso criativo da voz em contextos de música escrita e improvisada. Mas no nosso caso eu diria que há também uma sequência de acontecimentos, desafios e projectos musicais ao longo dos anos que foram reforçando um contínuo de ligações humanas. Contextualizando como chegámos a esta selecção de ensemble vocal temos de recuar a 2014, ano em que lançámos o convite à Beatriz Nunes para gravar a composição “Symbols” que figura no nosso álbum de estreia GETTING ALL THE EVIL OF THE PISTON COLLAR! (Carimbo Porta-Jazz, 2015), e com quem actuámos várias vezes de 2015 a 2019. A qualidade de música contemporânea, voz branca, desta participação foi o que lançou as sementes para, em 2019, a Beatriz se juntar à Mariana Dionísio no projecto Pedro Melo Alves’ In Igma (Clean Feed, 2020), encomenda da Fundação Serralves para o Jazz no Parque, onde se verificou mais uma exploração estendida da voz num contexto de música opératica contemporânea escrita e improvisada. É nessa sequência que surge também o naipe vocal, já em 2020, do Pedro Melo Alves’ Omniae Large Ensemble (Clean Feed, 2021), encomenda que junta às colaborações vocais João Neves, Diogo Ferreira e Nazaré da Silva em mais um exemplo de música camerística escrita e improvisada. E que, finalmente este ano, foram convidados a Mariana Dionísio, o João Neves e o Diogo Ferreira para gravar no nosso novo álbum Amores Infinitos.

Nos últimos anos podem-se nomear vários exemplos de projectos nesta corrente expandida de pesquisa que procuram reinventar com muita criatividade o papel da voz, tal como o belíssimo LEIDA da Mariana Dionísio — o ensemble vocal como um sintetizador, o matriz_motriz do Mané Fernandes — o ensemble vocal como uma drum machine, o Atraso do Ricardo Jacinto — a voz como parte de um dispositivo instalativo, ou este último lançamento da Vera Morais, é apenas um pouco tarde. Também nos ocorrem os vários duos curiosos de voz com instrumento que se verificaram nos últimos anos como o Daya de Marta Rodrigues e Bernardo Tinoco, o 293 Diagonal de Joana Raquel e Daniel Sousa, Vera Morais & Hristo Goleminov, Leonor Arnaut & Ricardo Martins ou LUMP de Mariana Dionísio e João Almeida. A voz pode e deve ser muito mais do que o papel melódico tradicional que costuma ocupar no jazz ou na música clássica, e felizmente não nos faltam bons exemplos a relembrá-lo.

Este concerto, que se apresenta como o único vosso neste ano, e também irrepetível pelo dispositivo em palco, será mais do que uma celebração — é um olhar para o amanhã — e terá um carácter cénico especial concebido a propósito. Quanto mais do pano podem fazer levantar e desvendar o que vai acontecer?

É um concerto que nos vai levar a extremos, se calhar ainda mais extremados do que tudo aquilo que fizemos até aqui. Vai desde a música 100% coral — estamos a falar de seis vozes a cantar sem banda, há uma peça inteira que é assim, de quatro ou cinco minutos — aos momentos mais absurdos, caóticos, alucinantes e intensos musicalmente. Vamos apresentar cinco peças, quase todas elas do disco novo. Há uma peça que é repescada do disco anterior — é uma peça com voz do primeiro disco e, inclusivamente, a pessoa que a cantou estará connosco na parte do ensemble vocal. Vai haver um momento lounge no início, antes de o espectáculo começar, que faz parte do dispositivo cénico. Portanto, se chegarem mais cedo, poderão aproveitar um pouco dessa parte, que faz parte do espectáculo mas acontece antes.


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