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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 28/01/2022

Da Rússia com groove.

The Diasonics: “Sendo nós destas latitudes, o nosso funk não podia ser cowboy – tinha que ser hussardo”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 28/01/2022

Origin of Forms é o título do vigoroso álbum de estreia dos moscovitas The Diasonics na italiana Record Kicks. O quinteto formado por Anton Moskvin (bateria), Maxim Brusov (baixo), Anton Katyrin (percussão), Daniil Lutsenko (guitarra eléctrica) e Kamil Gzizov (teclados) já tinha sugerido em singles lançados na Mocambo Records e Funk Night Records que podiam ser adição importante à cena que tem mantido a chama do groove bem viva, mas a sua distinta origem prometia um novo ângulo, facto que singles como “Andromeda” ou “Gurami” vieram decididamente comprovar. À sua receita – que combina tecnologia da era soviética, lições reclamadas nas melhores e mais clássicas fontes do funk, paixão por bandas sonoras e library music e um distinto travo do leste europeu – os Diasonics chamam “Hussar Funk”, uma expressão que os próprios tratam de explicar em conversa mantida via e-mail com o Rimas e Batidas.

O álbum que agora apresentam inclui argumentos mais do que suficientes para nos convencerem de que é urgente vê-los em palco, mas a geografia que lhes garante a originalidade também poderá, para já, impedi-los de se fazerem ouvir em palcos fora da Rússia. Está tudo explicadinho mais abaixo.



É um velho recurso do jornalismo musical que vem pelo menos desde os anos 60 – “why Pink Floyd” – mas neste caso é mesmo difícil não perguntar se não há uma história por trás do nome Diasonics?

[Maxim] Quando formámos a banda, comprei uma velha guitarra japonesa, da marca Diasonic, e o nome veio daí. Recentemente mandámos repará-la e agora já a podemos usar nos nossos concertos. Em breve terá também que mostrar o que vale em estúdio.

O que podem contar-nos sobre a pré-história da banda? 

[Maxim] Há cerca de três anos o nosso baterista, Anton Moskvin, o Kamil e eu mesmo decidimos juntar-nos para tocar funk. Nessa altura já tínhamos várias composições e muitas delas incluíam guitarra, por isso a necessidade de encontrarmos um guitarrista impôs-se e o Kamil ofereceu-se para ligar ao Daniil. E, com essa formação, tudo se encaixou no devido lugar, embora sentíssemos que ainda faltava algo. E na verdade o que faltava era um percussionista e foi aí que o Anton Katyrin entrou, tornando-se no quinto elemento da nossa música. Uma formação assim dá-nos possibilidades orquestrais, rítmicas e melódicas quase ilimitadas para um tão reduzido número de músicos.

[Kamil] Inicialmente, o Max concebeu esta banda como um trio em que era suposto ele tocar guitarra, o Anton Moskvin a bateria e eu o órgão, mas depois de dois ensaios tornou-se bastante claro que o Max era muito melhor no baixo e eu não sou propriamente o Delvon Lamarr – as linhas de baixo que queríamos ter são um bocadinho complicadas para um organista. Decidimos por isso mesmo expandir a banda. E foi tudo muito simples: já conhecíamos o Danya há muito tempo, muito antes do nascimento dos Diasonics, porque tínhamos tocado com ele em grupos de ska e reggae. Depois, após alguma “espionagem” ao Anton Katyrin em concertos de A5, ele acedeu a juntar-se à nossa equipa como percussionista.

[Daniil] Eu fui o quarto a juntar-se ao grupo. De alguma maneira, cruzei-me acidentalmente com o Kamil numa cooperativa que funciona numa garagem. Ele mencionou que queria formar um grupo de funk. “Sempre pronto!” foi a minha resposta. Falámos nisso, mas a coisa passou. Depois de algum tempo, ele mostrou-me as maquetes ainda muito cruas, só com três participantes: bateria, baixo e órgão gravadas como se fossem beats de rap. Falaram comigo porque procuravam um guitarrista e eu aceitei, claro. Também já me tinha cruzado com o Max nos circuitos de ska e reggae de Moscovo.

As notas oficiais de apresentação da banda referem a expressão “funk hussardo”, algo que eu interpreto como vocês terem um som que carrega sempre para a frente, porque isso traduz uma vontade de conquistar o mundo [risos]. Mas, a sério, de onde veio a expressão?

[Maxim] Foi o Danila que o começou a usar, de uma forma puramente espontânea, como uma reacção à energia e ao estilo bem animado dos nossos primeiros singles. “Hussar funk” sugere uma certa ideia de disciplina, alguma atenção ao nosso aspecto visual, mas ao mesmo tempo traduz uma profundidade emocional, uma liberdade e uma certa loucura também, mas de uma forma positiva. Procuramos seguir esses preceitos.

[Daniil] Já nem me lembrava que tinha sido eu a inventar esta designação. O mais provável é que tenha surgido com essa ideia por associação ao tema “Drunk Bach”, graças à sua melodia principal de tonalidades bem heróicas. E como esse “herói” é um tipo da nossa latitude, obviamente, o nosso funk não podia ser “cowboy”, mas antes “hussardo”.

[Anton Katyrin] Para mim, “hussardo” significa pressão e estilo!

[Anton Moskvin] Bem, e mais uma vez – os hussardos são tipos positivos, corajosos, brilhantes, atentos, fortes, amistosos, lindos, e interessantes ainda que, na verdade, um pouco “retro” nos dias actuais. Resumindo, um pouco como a nossa música.

O vosso som, basicamente, mistura muitas coisas que adoro: há nele uma leve sensação psicadélica, obviamente uma grande dívida para com o funk, mas também se sente na vossa fórmula o peso das bandas sonoras clássicas e da library music. E, claro, poderíamos dizer que através do sampling o hip hop educou toda uma geração e, provavelmente, vocês não escaparam a isso. Podem falar-nos da música que escutaram que vos possa ter guiado até aqui?

[Maxim] James Brown, todo o funk clássico, grooves soviéticos, asiáticos, árabes, latinos e africanus, bandas sonoras, library music, hip hop da velha escola.

[Kamil] No mundo do funk: Mohawks, Delvon Lamarr, Lefties Soul connection. Próximos do funk: Aggrolites. Já distantes do funk: Portishead, Massive Attack, Morphine, Arsenal, Jethro Tull, King Crimson.

[Daniil] Para lá do que já foi mencionado pelo Max e pelo Kamil, também posso citar a influência de bandas modernas, que frequentemente vão elas mesmas beber ao funk, que têm algum tipo de aura psicadélica mais contemporânea, descartando o lado rock mais carregado. O nosso percussionista Anton também se refere ao som dessas bandas como “chill funk”, o que me parece ser um termo bastante certeiro: Khruangbin, Arc De Soleil, Karate Boogaloo, Surprise Chief, L’eclaire, Lettuce.

Também sigo aqueles que estão a trabalhar na intersecção do hip hop e do jazz: Tom Misch, Yussef Dayes, Mansur Brown, Masego. E, na verdade, tantos mais.

[Anton Katyrin] Eu gosto muito de bandas de segunda linha, como os Nite-Liters, Funk, Inc., Dyke & The Blazers, etc. Também me lembro de ter ficado muito impressionado quando descobri a Sharon Jones e os Dap Kings. Quando os meti a tocar pela primeira vez nem conseguia acreditar que o !00 Days, 100 Nights era um álbum de 2006 e não de 1968 por exemplo. Também me viciei na intrigante vibração etíope da primeira vez que ouvi a Menahan Street Band. Sim, em termos gerais, todas as bandas da Daptone são incríveis.

[Anton Moskvin] Cada um de nós tem as suas próprias raízes musicais, mas se nos quisermos não cingir a cada um como indivíduo, mas ao grupo, então devo dizer que o Max sugeriu logo ao início, como uma espécie de guia ou direcção para o que ele pretendia que o som do grupo fosse, grupos como os Lefties Soul Connection, Cookin on 3 Burners, New Mastersounds e Khruangbin.

Ou seja, a ideia de tocar funk, sem vozes ou secção de metais, mas com um órgão Hammond. Já no que me diz respeito, ouvi, pois claro, coisas muito diferentes, mas se me quiser manter próximo deste tópico, posso mencionar – e se for apenas para destacar um grupo – os Prodigy. Breaks, o ritmo quebrado das baterias, em termos genéricos isso é algo que continuo a ouvir. E, por outro lado, a verdade é que eles usam padrões de bateria de funk em muitas faixas.

Bandas europeias como os Poets of Rhythm, no arranque deste milénio, ou gente actual como Sven Wunder e os Calibro 35 têm todos explorado um som europeu muito distinto. Estão a par dessas experiências e sentiram-nas de alguma forma como uma influência no vosso processo criativo?

[Maxim] Sim, claro que conhecemos essas bandas, que muito admiramos. Na verdade, começámos a trabalhar com a Record Kicks precisamente porque essa é a que lança os trabalhos dos Calibro 35. Tentamos seguir os colossos funk do século XXI e mantemo-nos a par dos novos nomes também.



Podem falar-nos um pouco sobre a cena de música ao vivo em Moscovo, sobretudo a mais próxima do funk? Há clubes, estações de rádio e outros lugares que ofereçam espaço a este som? Há lojas de discos especializadas neste tipo de música?

[Maxim] Não existem estabelecimentos ou estações de rádio especializados especificamente em funk. Sim, em algumas estações de rádio é possível ouvir funk de vez em quando. Quanto aos locais, nós, tal como os nossos colegas, actuamos em diferentes clubes e pubs sem ligação a géneros musicais específicos e, na maioria das vezes, trazemos o nosso próprio público. Provavelmente, o problema é que a própria palavra “funk” não é clara para todos. Muito provavelmente, muitas pessoas gostam desta música, mas simplesmente não sabem que tem uma tal característica. Há muitas lojas de vinil, tentamos manter o contacto com elas. E, claro, recebemos um bom apoio de b-boys, up-rockers e lockers.

Existem mais bandas a explorar avenidas musicais semelhantes e a operar em Moscovo neste momento?

[Maxim] Pode dizer-se que há um movimento funk em Moscovo, mas não é muito grande. Houve muitos grupos que apareceram tão rápido quanto desapareceram. De presente, não chegará a uma dúzia o número de grupos activos e metade deles só toca versões. Embora haja quem há muitos anos promova este tipo de som – por exemplo, o violinista eléctrico Felix Lahuti chegou a organizar festivais chamados Funk Family. Também podemos falar da Pozitiva Funk Orchestra, projecto com que o nosso percussionista Anton tem tocado desde a sua fundação e a que o Kamil recentemente se juntou como baixista – foi dessa forma que ele celebrou 16 anos de percurso criativo. Também temos o dever de mencionar o DJ Alex Osadchi, que organiza as festas Funk Explosion e que trouxe a Moscovo Keb Darge quando ele estava no seu pico. E, já em Fevereiro, o Moscow Funk Festival deverá ter lugar num dos clubes mais antigos da cidade. 

Podem falar das sessões de gravação do album? Onde e como é que decorreram?

[Maxim] Gravámos o disco bem rápido, mas a quarentena obrigou-nos a uns pequenos ajustes. Foi tudo gravado no estúdio Magnetone de Moscovo. A sua peculiaridade, para lá da gravação em fita, é o facto de ter muitos amplificadores a válvulas e microfones de produção soviética, um facto que marcou o nosso som. Demorou bem mais tempo a misturar o disco do que a gravá-lo. Foi o Henry Jenkins que o misturou, na Austrália. Ele tem trabalhado com bandas como os Karate Boogaloo e os Surprise Chef. Tivemos que enfrentar algumas sérias restrições por causa do COVID.

Sei que usaram um velho gravador de 8 pistas de fabrico japonês para obterem esse som analógico clássico e quente. Mas e quanto aos instrumentos? Tiveram igualmente o cuidado de selecionar instrumentos específicos já a pensarem no som que queriam obter?

[Maxim] Demos muita importância a todas as ferramentas que usámos. Além do nosso Hammond XK-1C, utilizámos vários sintetizadores e outros teclados como o Hammond B100, o Weltmeister Claviset 200, o Soviet Rhythm-2 e um kit de bateria Ludwig dos anos 60.

Há alguma digressão de apresentação planeada?

[Maxim] Isso é difícil de prever de momento. Para lá das questões do Visa, há ainda a nuance das vacinas anti-COVID: as nossas não são reconhecidas no estrangeiro e por outro lado as vacinas ocidentais não estão disponíveis na Rússia… 


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