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Fotografia: Cláudio Ivan Fernandes
Publicado a: 19/07/2024

Entrevistámos o DJ e produtor português horas antes de tocar no NOS Alive.

Stckman: “Não me contento, ainda estou na fase do trampolim”

Fotografia: Cláudio Ivan Fernandes
Publicado a: 19/07/2024

Horas antes de subir ao palco Heineken do NOS Alive para encerrar o festival, fomos aos bastidores do Passeio Marítimo de Algés para uma conversa com Stckman. O DJ e produtor português de 22 anos tem estado radicado em Londres, a capital britânica, mas foi convocado para fechar um dos maiores eventos da sua cidade.

Se, enquanto DJ, Nuno Espírito Santo é especializado em electrónica, na produção abre o espectro sonoro em direcção a caminhos mais pop. O álbum Afternoon Friends Vol. 1, editado no final de Junho, espelha isso mesmo, com canções construídas com amigos como Bone Slim, Kyle Quest, NiNE 8 ou IAMKENNIS, entre outros. Questionámos Stckman sobre as duas componentes do seu trabalho e as suas ambições na música.



Preparaste alguma coisa específica para este set por ser o NOS Alive ou por ser este tipo de festival?

Eu soube há quatro dias que ia fechar o festival. É um daqueles concertos que já andas a preparar sem saberes que aí vem. Desde que comecei a tocar que sabia que iria haver um momento em que teria oportunidade de fechar e comprava aquela música que sabia que iria tocar mas não sabia quando. E agora todas essas músicas que durante quatro ou cinco anos andei a comprar juntaram-se nesta noite, que claramente vai ser uma noite especial. É uma noite em que fecho um dos festivais mais importantes da minha cidade, mas também onde consigo mostrar a capacidade que tenho para fazer as coisas e a experiência que consigo proporcionar às pessoas.

E essas músicas que foste acumulando à espera de um momento que não sabias quando iria chegar… Que tipo de músicas estás a falar?

Eu faço as minhas produções como Stckman, mas no meu DJ set não toco as músicas que produzo. Porque as minhas músicas são feitas para um momento e eu toco noutro momento. Olho muito para a minha música como uma coisa do dia-a-dia, para as rotinas, para ouvir no carro, e estas músicas que vou tocar são músicas que nos clubes não dá para sentir a potência, mas aqui é o sítio perfeito. Muitas das músicas que vou tocar são dos anos 90, dos anos 2000, são de uma era diferente mas agora fazem sentido. 

E porque é que aqui fazem mais sentido do que num clube?

Pela comunidade… Vai estar muita gente, as pessoas estão mais abertas a ouvir coisas novas aqui. E todas as músicas são pensadas para cada momento, não há músicas só para passar o tempo. 

E sentes que, num clube, existe mais aquela tensão da pista? A responsabilidade de manter uma pista viva? Por aqui ser um festival…

Aqui, como é uma hora e 10 minutos e não duas ou quatro horas num clube, tenho de ser mais selectivo e concreto. Não posso divagar muito, que é o que os DJs por vezes fazem, para experimentar aquilo que as pessoas aceitam melhor ou não… Um DJ deve passar aquela música que nem tu sabias que querias ouvir. Mas num festival não dá para experimentar tanto. Mas também não tenho um set planeado, tenho uma intro e uma outro, mas no meio vou vendo conforme as reacções das pessoas como é que vou levar a viagem. 

E falando do álbum que lançaste recentemente, o Afternoon Friends Vol. 1

É um projecto que comecei em Lisboa, antes de me mudar para Londres, e terminei nos meus primeiros dois anos lá. Gosto muito de levar amigos músicos para minha casa e no fundo é isso: os meus amigos vêm para minha casa e fazemos música. Três anos depois, consegui fazer uma compilação de 10 músicas, todas diferentes mas com a mesma linha. É algo que já fiz, não é a fase em que estou agora, mas sinto que é importante deixar para as pessoas acompanharem a minha evolução. É um projecto que estou muito contente por ter lançado, mas já estou a trabalhar no próximo. A maioria das músicas foi feita com o Bone Slim, um artista que conheci a tocar num festival em Lisboa e fizemos 10 músicas em dois dias e gostei muito de seis e quis lançar. Não é o que estou a fazer agora, mas estou orgulhoso daquilo e contente por aquilo estar fora. E o feedback tem sido bom.

E, enquanto produtor, sentes que é importante trabalhares com músicos de diferentes géneros, que usam ferramentas distintas para construir a sua música?

Sim, acho que cada um tem uma coisa para dar, e eu consigo dar algo que outras pessoas não conseguem, e consigo ver nas pessoas como é que elas me podem ajudar e o que é que elas me podem trazer, ou puxar mais por um lado deles que eles não conheciam… É isso que gosto de fazer. Tirar os artistas que convido da zona de conforto e dizer-lhes: “Tu também consegues fazer isto, ‘bora experimentar.” E a música não é feita para nada em específico, não é feita para tentar estar na rádio ou o que seja, é só porque a música é boa de se ouvir e queremos que esteja cá fora.

E apesar de teres registos diferentes enquanto DJ e produtor, é fulcral teres um catálogo de música original para poderes circular mais enquanto DJ?

Comecei como DJ, quando era mais novo, e a produção foi algo que apareceu mais tarde mas fui sempre desenvolvendo e, cada vez mais, sinto que aquilo de que gosto mais é a produção. É algo que preciso de fazer com outras pessoas. Também gosto de fazer sozinho e estou a trabalhar numas coisas mais electrónicas, mas gosto de fazer canções mais R&B e pop e isso tudo. Fui trabalhando com estas pessoas no estúdio e foi acontecendo. Nunca quis ser um artista de pop, mas as coisas foram acontecendo e de repente isto funciona. Também sou DJ, que era a minha vertente principal, e agora tenho as duas: sou DJ de música electrónica mais underground e depois tenho um lado meu de músicas que são pop. São dois contrastes mas funcionam, porque uso o meu DJing nas minhas músicas e por isso é que as torno diferentes, e uso o meu lado pop nos meus DJ sets e assim torno as coisas mais acessíveis, porque não venho só da electrónica. Isso é que torna as coisas tão especiais dos dois lados. Sei lá, exploro mais os silêncios e os espaços entre as músicas que é algo não assim tão comum na pop, mas foi o que a electrónica também me trouxe, algum espaço para deixar respirar.

Estás a viver em Londres, mas também tocas regularmente em Lisboa. Enquanto DJ, sentes que o público varia muito consoante a cidade? Ou tem mais a ver com o espaço em si, se é um clube ou um festival?

Londres é uma das maiores cidades do mundo, há pessoas do planeta inteiro que vão para lá. E sinto que lá estou num sítio onde as pessoas querem ouvir aquilo que faço. Não digo que cá não queiram, mas ainda não estão tão abertas a isso. E é um processo também, porque aqui é uma cidade mais pequena, há menos clubes e pessoas, então tudo demora mais tempo. Quando cheguei a Londres, senti que pertencia ali mas que ainda precisava de trabalhar mais… Percebi que o meu potencial era real, que aquilo que tinha feito em Lisboa era real, porque as pessoas lá vivem com a mesma intensidade com que eu vivo as coisas e é bom ver essa diferença. Acho que o que falta cá é um pouco o brio, o orgulho de fazerem as coisas e quererem fazer porque é bom e não terem a preocupação com serem famosas ou não. Fazerem por fazer. Lá em Londres há muito essa cultura. Mesmo que as pessoas não sejam ninguém, fazem festas e lançam álbuns. É um sentimento de partilha que me deixa mais à vontade cá para também partilhar estas músicas. Aquilo dá-me mais confiança para vir para cá fazer a minha cena. E a nova geração de músicos em Portugal está cada vez mais colaborativa e vês muito mais as pessoas a apoiarem-se uns aos outros, que era algo que dantes não vias tanto, era muito tóxico e está uma geração diferente. Portugal tem músicos e DJs óptimos. Mesmo vivendo em Londres, sinto que Portugal é dos melhores sítios em termos de cultura, porque tem uma inspiração que mais nenhum sítio tem. Quero voltar para cá, mas ainda tenho que estar mais desenvolvido como artista para estar pronto.

Tens ambições específicas que queiras concretizar?

Sinto que tenho de crescer. Tenho 22 anos. Cada dia há uma coisa que me parece super fixe e quero experimentar. E esta coisa de estar sempre a querer experimentar coisas novas é a fase em que estou agora. Experimentar e não ficar muito agarrado. Mas dentro de uns cinco anos quero ter uma ideia mais concreta e desenvolver um projecto pessoal enquanto artista grande. Como comecei muito cedo, as pessoas conseguem ver a minha evolução, mas foi algo muito rápido. O plano é continuar a fazer música, viver disto e poder cada dia fazer mais. Não me contento. O que já atingi é muito, mas não é nada para mim. Ainda estou na fase do trampolim.


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