No passado dia 22 de Maio, o concerto de Shabazz Palaces estava longe de começar e a Black Box do gnration já vibrava uma atmosfera de boa disposição a meia luz. As conversas aconteciam um pouco por toda a sala, descontraídas e numa floresta de sorrisos. Fascina-nos esta capacidade dos concertos que são transversais a estilos e gerações, captadores da vontade de estar a gente tão diferente e diversa — e adianto desde já que toda a gente dançou a meio da semana passada com os ritmos do grupo liderado por Ishmael Butler.
Se houvesse um imposto que cobrasse o estilo e o groove, o gnration tinha gasto todo o ouro para pagar a entrada destes senhores em palco. Em determinado momento, fomos colocados num daqueles filmes dos meados dos anos oitenta, onde os grandes gurus do hip hop se faziam mostrar com toda a sua arte de estilo e elegância. Estaríamos a falar de um bongo e das longas passas que Butler nos emulava sonoramente para que iniciássemos a travessia cósmica da qual ele seria capitão.
Num concerto que soube a tão pouco, Shabazz Palaces apresentou o álbum Exotic Birds Of Prey e mais algumas de músicas de todo o seu percurso agora revestidas com o formato banda. A diferença foi abismal! “An Echo From The Hosts That Profess The Infinitum” seria o início de uma bem temperada viagem ao universo Ishmael Butler e desde cedo o público da sala acedeu aos caprichos psicadélicos do projecto. “Forerunner Foray”, “Binoculars” e “Shine a Light” levaram a sala ao auge numa noite em que tudo seria banal não fosse este tesouro rítmico levantar-se a um palco para as almas animar.
O alinhamento chegaria à dezena de músicas e à penúltima delas seríamos apresentados à requintada companhia que Ishmael trazia. Carlos Overall no saxofone eléctrico; Thaddeus Turner na guitarra e synths marcou de forma avassaladora o álbum apresentado com o seu wah; Darrius Willrich no piano; e Gerald Turner, irrepreensível, no baixo. O facto de grande parte deles virem de Seattle poderá ser pronuncio de algo bom que se levanta num panorama musical tão quedo de qualidade apesar da quantidade.
Houve direito a encore e nem assim o público arredou satisfeito. O “amanhã é dia de trabalho” há muito que ficara esquecido e a adrenalina injectara os corpos de uma energia capaz de criar insónias. Ficará bem às cidades rumarem por aqui e não ditarem a cultura ao fim-de-semana. No dia seguinte ao concerto, estamos crentes de que muitas empresas deverão ter produzido mais devido a este evento — muitos comerciais venderam mais e muitos clientes se sentiram melhor servidos. Esse é o condão das almas animadas. E recordemos: foi Ishmael Butler, o seu projecto e a programação do gnration que o tornaram possível.
Temos sido constantemente premiados com o assistir à evolução deste músico e MC dentro do hip hop, do jazz e seus experimentalismos; na forma como se (re)construiu e se inova a cada álbum desde os tempos áureos de Digable Planets. Que nos trará ele da próxima vez?