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Fotografia: Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Publicado a: 27/10/2024

Das instalações sonoras ao (re)integrar da audição.

Semibreve’24 — Dia 2: ouvir o espaço sem nós ou ainda nem tanto

Fotografia: Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Publicado a: 27/10/2024

A dramática experiência colectiva vivida pela humanidade obediente, face à imposta reclusão defensiva da ameaça pandémica, fez-nos escutar bem melhor o espaço em redor. De forma mais ou menos entusiasta, nesses tempos recentes do princípio desta década, foi possível escutar de perto a pujança acústica do burburinho não humano em redor da nossa presença no espaço envolvente. Foi como se estivéssemos na condição de estar a ouvir desde fora estando dentro. Dos ecossistemas acústicos que fazemos parte, somos, enquanto espécie dominante, avassaladores do som. A arte sonora como expressão musical actua nesse campo descritivo do mundo envolvente, através dos que dela fazem recolhas ou pesquisam para (re)criar novas paisagens sonoras. O segundo dia, 25 de Outubro, do festival Semibreve, em Braga fez-se em muito dessa consciência reavivada, quer pelas propostas das peças sonoras encomendadas a artistas, quer “em palco” em concertos e instalações.

Precisamente nos tempos pandémicos de 2020 o Semibreve teve de readaptar a programação a uma fruição não presencial do festival. Nessa edição, o Mosteiro de Tibães desenhava-se como lugar de escuta primordial. Houve duas peças comissionadas a dois artistas para serem exibidas na acústica desse espaço de outras idas clausuras. Duas possibilidades que a presente edição, volvidos quatro anos, retoma para permitir uma efectiva experiência presencial. Na casa expoente do rococó barroco da cidade, numa arquitectura resiliente de 1760, está em reposição “The Stone Tape” de Jim O’Rourke. Da fruição dos seus 38 minutos temos a possibilidade se assistir a uma construção acústica que bem pode remeter para a visualização, no sentido de fita do tempo geológico para a cristalização de uma massa rochosa desde os alvores líquidos da matéria, até ser o que vemos hoje. Nessa possibilidade ouve-se a fluidez metálica dos elementos presentes, numa desenvoltura livre propagada pelo espaço amplo que permite a escolha de acomodação do cristal — palhetas finas, como micas. Continuando essa fita do tempo rochoso, sucedem-se outras insinuações da matéria escutada na forma de harmonias de fole, podemos intuir o nuclear das tonalidades claras — da diversidade mineral dos feldspatos. A dança acústica, do (re)arranjar do conjunto, envolve e retoma os elementos já acomodados com os que ainda percolam livres no espaço disponível. Uma vez esgotada a matéria liquida, resta o sólido dispositivo que permite retomar a narrativa do experienciado, como fim de princípio. O’Rourke abre espaço para mais um imprescindível volume na sua profícua obra sonora descritiva deste mundo.

Outra das encomendas feitas para essa edição atípica foi a Keith Fullerton Whitman, que apresentou então “Malört”, que agora se retoma nesta mesma Casa Rolão em Braga. Do sentido literal da palavra que intitula a peça em escuta, pode ser entendido como um campo de “ervas de mariposas”. Fullerton Whitman tem-se apresentado como destemido obreiro do som vindo dos sintetizadores modulares. A peça revela de pronto esse campo de linguagem que permite (re)criar inúmeras atmosferas e paisagens, as que se queiram imaginar. Nessa abordagem parte-se para uma construção dum lugar inexistente, por oposição ao modo de recolhas acústicas do real e concreto que se traz para o campo da criação artística. Porém, Whitman utiliza ambas ferramentas com esta peça. Dela se escutam, em vagarosas percepções não idiomáticas ou classificáveis, um espaço acústico que funciona por e para si próprio. Onde espreitamos, como elementos intrometidos, há uma comunidade efectiva de entidades sonoras, de certo modo indecifráveis em modo certeiro. Estamos aquém dessa linguagem, resta-nos o deleite do espanto e admiração pelo como, que em contradição do experienciado, se inscreve como insondável. Mas o encanto sonoro em “Malöt” reside nesses antagonismos como atractor de repulsa, feito de um campo miscigenado da electrónica e do corpo acústico. Uma peça que ilustra na acústica os tempos de clausura, seguramente intencional. 

Na senda do campo sonoro de um longe tornado perto, o Theatro Circo assume-se como sala transformativa. Antes disso, teve lugar no Museu Nogueira da Silva uma verdadeiramente importante conversa, “Música migrante”, juntando as ideias nas palavras de Mohammad Mehrabani-Yeganeh a Saya Mohamed, numa hábil condução feita pela enviada da revista The Wire, Claire Biddles. Conversa a merecer um devido destaque numa oportuna peça à parte destas crónica diárias da edição de 2024 do Semibreve.



Abertura de portas do esplendoroso Circo de Braga. Em palco, o que os olhos verão na medida do que se escutará numa sala repleta e às escuras. Um teatro em floresta, não de sonho, antes percepcionada e difundida pelas detalhadas descrições trazidas ao espaço acústico — formulado num sistema multicanal. A viagem de imersão feita por Chris Watson e Izabela Dłużyk na floresta transfronteiriça polaco-bielorrussa de Białowieża. É um bioma quase prístino que se quer escutado de olhos bem abertos no interior de nós para ver a dimensão dos seres viventes desse espaço. Durante um longo período escutamos as aproximações ao ciclo do dia e noite, entre coaxares de concretos anfíbios que o som quase permite descrever padrões de coloração, uns mais miméticos, outros nem tanto. E trata-se de um plano de descobertas, sonoras, que permitem dar a conhecer. Uma sábio documentário acústico de vida selvagem. Aves canoras sobrevoam o espaço, ouvimo-las a voar dentro do Theatro. Ao longe aproximam-se uns quantos bisontes. Sim, vêm ao nosso encontro, ao que parece é mesmo real. Białowieża é um habitat que mantém o bisonte europeu como o maior animal em estado selvagem na Europa. Białowieża é um espaço relíquia, praticamente intocado pela presença exploradora humana. Hoje, porém, e ouve-se em sala isso mesmo a certa altura, esse lugar funciona como porta de passagem migratória humana para o espaço económico europeu. Há essa nova tensão na floresta, ouvem-se disparos que relatam os episódios entre os que sonham passar a floresta e os que a usam como fronteira efectiva. “Białowieża” como peça acústica que Watson e Dłużyk difundem, faz a estreia de “The Crossing”, uma criação inserida no projecto TIMES, comissariado além do Semibreve pelos festivais Berlin Atonal, Unsound e Sónar. 

Retomado o Theatro Circo como espaço privilegiado para se ouvir o lá de fora, mais ou menos longínquo, desta feita para um espaço sonoro, mais familiar, talvez, com a estreia, na sua reformulação expandida, de “The Reintegration Of The Ear” da artista sonora e compositora Christina Vantzou. Está de regresso ao Semibreve onde actuou com John Also Bennet na abertura da edição de 2021, na Basílica do Bom Jesus do Monte, com um preenchimento feito das suas arquitecturas da paisagem. Deste feita, retoma a parceria com Bennet à qual se junta a dupla a voz soprano de Irene Kurka. E na sua volta a Braga, Vantzou junta o trabalho desenvolvido das recolhas de campo feitas da sua passagem anterior por este território. Daqui levou registos das margens de onde corre a água. É esse, aliás, o elemento-chave nesta sua nova criação sonora, que teve estreia na versão primeva no parisiense Akousma #1, em Novembro de 2023. A peça para fita, voz, flautas baixo e electrónicas consiste num corpo electroacústico que funde a acção de ligação entre as vozes presentes (flautas e soprano) com o espaço trazido das captações de hidrofones nas águas de Sifnos, e dos registos de campo da ilha de Lesbos, na Grécia. Mas para esta readaptação expansiva da peça entram as sonoridades mais próximas do lugar onde são servidas em igual medida para receberem a roupagem que lhes cabe das vozes em palco. Há um par de flautas transversais que Also Bennett faz uso planante discursivo, como que a definir a textura da superfície que separa a água do ar. Trata-se de uma envolvente sonora que explora essa fronteira da vida, entre o emerso e o imerso, que nos deixa a sorver um subtil equilíbrio boiante. A água que se torna concreta na expressão mais denunciadora de pequenas turbulências, como força das margens que a contém. Da voz soprano ouvem-se os fluxos na corrente, e há palavras que ilustram e definem os momentos da narrativa que se volta a escutar preferencialmente de olhos fechados. O espaço cénico é sobretudo acústico, sóbrio na presença e iluminação dos intervenientes que se entregam ao éter como palco primordial do escutar para ver melhor. É familiar esta paisagem e mesmo no tempo é próxima, outonal. A provar que nem sempre o interesse é proporcional com o longínquo ou essa matreira perspectiva do exótico lugar. Reintegramos o ouvir num confortável lugar-comum, de todas e de todos, que há que cuidar no sentido da ecologia acústica.


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