O festival de música electrónica e arte digital Semibreve que ontem, 24 de Outubro, começou em Braga mantém a ideia bem sucedida de fazer o concerto inaugural na Basílica do Bom Jesus do Monte. Há nisso bons prenúncios. Para quem vem pela extensa escadaria, passa pelas cinco fontes em outros tantos patamares. Fontes onde figuras deitam água por onde remetem cada um dos cinco sentidos. Da visão consegue-se ler: “[…] prudente, toma-as por um sonho e assim vigiarás.” A fonte da audição lembra-nos que “ao meu ouvido darás gozo e alegria”, juntando a inscrição premonitória de que a “tua voz soe aos meus ouvidos”. A Basílica encima a ermida, e a cidade é uma miniatura à distância desde o alto lugar. E é nas cidades que tantas vezes se imaginam e compõem as obras que remetem para distantes cenários, no espaço e também no tempo.
Kalia Vandever traz no seu registo a solo esse exercício. We Fell In Turn, é um registo assumido das suas memórias. Composto em Brooklyn, dentro da cidade nova-iorquina que escolheu para viver. Mas onde a música funciona como veículo que vai ao encontro do distante e ancestral, com o místico arquipélago havaiano que contém as origens genealógicas de Kalia. Tudo assumido num par de momentos em que a sua música neste espaço tão presente é (apenas) interrompida pelas próprias palavras. Soam úteis para o contexto da apresentação mas dispensam-se para a livre fluidez da emoção. Precauções e estratégias autorais à parte, a música segue e prossegue, muito disposta a percorrer o álbum a solo que Vandever inscreveu em 2023 na AKP Recordings. Aqui soa no lugar à medida — ampla e em profunda reverberação. É um som vasto, como se revela ao primeiro sopro hábil e gentilmente conduzido pela mão que guia e estende a vara do instrumento ao ponto preciso. Há nesta visualização uma ideia concreta do que o som remete de expansão e acantonamento, de requintes tímbricos e detalhados. Mas, daí em diante — no tempo e neste espaço, tudo se remete para um além deste presente. À segunda peça tocada, “Recollections From Shore”, é intuída a presença da vastidão oceânica. O que o sopro no trombone produz ouve-se como respaldar da água na linha de costa, pressentem-se as cascatas efémeras e escorrências após a onda que galga a rocha. A água que goteja, uma vez operculada a vara a cada pausa entre músicas. É a alegoria perfeita que denota que esta música fala muito desse mesmo elemento.
Vandever suporta o seu discurso sonoro num dispositivo de pedais que lhe permitem uma continuidade — o pretendido efeito que tende para o infinito. Há momentos do processo em que se grava para se reproduzir em contínuo, e sobrepor o que tem a contar. É um meio de acumulação vital para uma ascensão desmedida. Mas a música de Kalia Vandever é identitária mais até pelo modo, uma vez que estende por longos ritmos o seu léxico, num efeito suspensivo e prolongado. De forma certeira foi escrito pela NPR que “a existir uma música ‘trom-drone’, então Vandever foi a criadora”. Nesta oratória conduzida pelo deslizar suave e gentil da vara, onde muitas vezes o trombone passou a uma criação momentânea dum novo instrumento, “tromdrone”, imprescindível para inscrever as memórias que tem a partilhar connosco. Mais que justificado o desfecho de concerto com “We Wept In Turn”. Kalia Vandever traz-nos de pronto à memória (bem recente) um outro soprador das vastidões, o tubista Daniel Herskedal, que trata “de pôr a música à frente do instrumento”.
E nisto houve “apenas” um prenuncio do que está por vir neste dias de Semibreve, tornado fonte recorrente da música electrónica, como água para os sentidos da visão e audição. Destacam-se para a noite desta sexta-feira os concertos no Theatro Circo de Chris Watson & Izabela Dłużyk (21h30) — para “Białowieża” —, e de Christina Vantzou + Irene Kurka & John Also Bennett (23h) — para uma versão expandida de “The Reintegration Of The Ear”.