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Fotografia: Adriano Ferreira Borges/Semibreve
Publicado a: 29/10/2021

Uma primeira vez na 11ª edição.

Semibreve’21 – Dia 1: indeterminismo electrónico

Fotografia: Adriano Ferreira Borges/Semibreve
Publicado a: 29/10/2021

A música de CV & JAB, ou seja, a dupla de Christina Vantzou e John Also Bennett, parece mover-se algures entre os planos do tempo, do espaço e do som: Thoughts of a Dot as it Travels a Surface, a estreia dos músicos e compositores norte-americanos em longa-duração, foi o resultado de uma peça sonora encomendada pelo escultor Zin Taylor para complementar uma das suas ilustrações murais de grandes dimensões. O segundo disco, apropriadamente intitulado Landscape Architecture, voltou a servir-se das ideias do artista canadiano, que assina a capa dos seus lançamentos, para apresentar um registo feito de “pianos, drones e electrónicas porosas, elegantes e idiossincráticas”.

Para a edição de 2021 do Semibreve, o duo foi desafiado a preencher o espaço acústico do Santuário do Bom Jesus, em Braga. O espetáculo, que assinalou o primeiro concerto de inauguração na história do festival, representou o único momento da noite de ontem, uma novidade em relação às edições anteriores, reunindo cerca de 200 espectadores e uma comitiva de curiosos holandeses de terceira idade que se encontrava alojada no Hotel do Elevador, nas imediações da basílica.

Entre uma imensidão de cabos, interfaces e sintetizadores — uma configuração habitual neste tipo de registos de cariz mais exploratório — e munidos dos habituais computadores, flautas transversais, um piano de cauda e demais parafernália eletrónica para efeitos de manipulação e processamentos de som, a dupla apresentou uma performance onde o espaço, o silêncio e tudo o que há entre os dois foram as principais forças motrizes.

Marcado pelo indeterminismo no piano, alternado entre Bennett, primeiro, e Vantzou, na segunda metade do concerto, e com recurso a uma criteriosa escolha de gravações de campo e natureza (escutaram-se sons de chuva a cair, do mar a bater e de pássaros a cantar, mas também da correria da cidade, dos carros, das sirenes ou do chiar dos sapatos numa partida de basquetebol), o duo conjurou um elaborado universo de electrónicas planantes e contemplativas — sem nunca sucumbir à anemia — e instrumentação acústica, combinando as texturas tácteis da flauta com os pulsares abstractos dos sintetizadores. Ambos cantaram, ou antes, recorreram à voz: Bennet através de gravosos murmúrios, Vantzou declamando poemas imperceptíveis, perdidos algures entre a sua voz adulterada. 

Meditações electroacústicas, situadas entre os “jardins de pensamentos remotos” e as “colunatas conceptuais”, tal como descrevia a dupla sobre os 11 temas que compõem o seu último trabalho, numa viagem sem forma que nos transportou, durante uma hora, para uma outra dimensão.

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