“I love music!” foi o grito que interrompeu os pensamentos e os monólogos com os demónios enquanto vagueávamos, vagarosamente, em direcção à porta principal do gnration. Estávamos na lateral do edifício, olhámos ao alto e um tipo de gorro saudou-nos com o mais cerrado dos sotaques americanos — “Hi!” E a resposta foi um “I love music!”, imitando a primeira comunicação. Então Brandon, o melhor amigo de Ryley Walker, como mais tarde viríamos a descobrir, assomou à janela, que em grande parte era ocupada por Ryley e a sua guitarra. “So… If you love music, come to my concert!”, desafiou o cantautor de Chicago. E assim foi.
Já na sala percebemos que este senhor, com o ar mais humilde e simples do mundo, a roçar o truck boy da quinta ao lado, não é um desconhecido deste público. Entrou, sentou-se e saudou-nos, enquanto nos apresentava a sua guitarra. Cedo percebemos que aquela guitarra será o bem mais estimado deste homem.
Enquanto quebrava o gelo com o público, afinava as cordas para o seu primeiro tema. Contou-nos que aqui se come muito e bem, em comparação com o resto do universo. Grandes bifes e peixes são servidos nos nossos restaurantes, salvo seja. Mas remata com a frase: “Eu devia tocar alguma coisa…” E eis que daquele bem-humorado norte-americano a guitarra se deu como uma extensão divina de fazer música. De seguida, a voz — e já não havia forma de não siderarmos com o senhor Ryley.
“The Roundabout” foi a música que sucedeu. Depois outras como “Primrose Green” e “Funny Thing She Said”. Foi à quarta música que fomos apresentados ao seu melhor amigo desde os dez anos. Não percebemos como é que um tão atabalhoado ser, humilde e bem animado, quando cantava era tão menos humano e mais divino. Não! Os discos não lhe fazem jus. A voz de Ryley é muito melhor ao vivo. E aquelas viagens de dedilhados psicadélicos na guitarra fazem perceber o quão difícil deverá ter sido um puto de treze anos, no meio dos campos de milho de Illinois, ter tido como namorada uma guitarra e a voz de um ser celestial.
Naqueles momentos longos, não fossem as letras serem tão boas e ficariam esquecidas no universo de solidão desenhados por milhões de notas, como se estrelas fossem, formando constelações que fingiam ser canções. Que bela é a vida entre as bombas de gasolina da Cepsa e a boa água da torneira de Braga. Que simpáticas são as pessoas de Lisboa, que nos abordam sempre para oferecer cocaína — “Terei cara de quem precisa de cocaína?”
“Sullen Mind”, “Age Old Tale”, “The Halfwit In Me” e mais um punhado de belíssimas canções seriam despejadas naquela noite de 4 de Outubro, entre longas conversas com o público. Ensinámos-lhe a dizer “cão” e percebemos que esta alma já tem 77 anos, apesar da identificação dizer outra coisa. Disse-nos que todas as mulheres e homens em Portugal são sexys, e assim se despediu, humorado, humilde e com alguma tristeza na alma. “Back to America!”
O público pediu que voltasse, pediu muito. Não aconteceu. A noite, com ele, terminara ali. É por isso que “I love music” — é de lá que saem os milagres. Temos de agradecer ao belo tabaco Português, comprado na bomba, ao concerto desta noite e ao gnration.