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Fotografia: Pedro Ivan
Publicado a: 02/04/2025

santos da minha mente é o primeiro longa-duração da dupla portuense.

redoma: “O álbum é uma continuação do EP, mas houve um grande crescimento de um para o outro”

Fotografia: Pedro Ivan
Publicado a: 02/04/2025

Três anos após se estrearem com o EP parte, as redoma lançaram nos últimos dias o álbum santos da minha mente, através da Biruta. Trata-se de um disco com uma dezena de faixas, dividido em duas partes sónicas, mas com três camadas mais líricas as inquietações pessoais, o desassossego com as questões do mundo, e a dificuldade em fazer música em Portugal.

Carolina Viana e Joana Rodrigues preparam-se agora para apresentar o álbum ao vivo. Levam consigo o trompetista João Dias, que participou numa das faixas deste segundo trabalho e que irá acrescentar texturas a tantas outras no formato live; e a designer Diana Gil, que trabalhou os dois discos da dupla portuense e irá tratar da componente visual ao vivo.

Apresentam santos da minha mente no Maus Hábitos, no Porto, a 17 de Abril. Em Lisboa, a sala e a data ainda estão por confirmar. É precisamente no meio de uma residência artística, numa terra remota onde estão a definir todos os detalhes do alinhamento ao vivo, que Carolina Viana e Joana Rodrigues se juntam à conversa com o Rimas e Batidas através de uma videochamada.



Quando e como é que vocês começam a abordar este santos da minha mente? Foi algo muito orgânico, de as canções irem nascendo e de repente havia espaço para um disco? Ou foi o contrário? Planearam mesmo fazer um disco maior e, a partir daí, começaram a trabalhar em música que resultou nestas canções.

[Joana Rodrigues (JR)] O processo deste álbum foi bastante orgânico no sentido em que nós não o iniciámos. Ou seja, o início mesmo não começou com a visão que iria terminar num álbum. Acabou por se concretizar dessa forma porque também conseguimos o apoio da GDA e isso foi um bom incentivo para pensarmos num longa-duração. Acerca da nossa forma de construir as canções, as músicas vão sempre aparecendo porque faz parte do nosso processo. Nós passamos muito tempo juntas e vemo-nos regularmente, por isso o processo é irmos partilhando ideias que vão surgindo no dia-a-dia. Nunca há muito aquela coisa de “vamos juntar-nos agora durante uma semana para pensarmos na criação de música”. Por isso, todas as músicas foram aparecendo ao longo dos últimos três anos. Logo depois de lançarmos o EP em 2022 já tínhamos música a ser feita e foi ir navegando nesse processo. Eu vou tendo instrumentais, vou partilhando; ela vai construindo as letras e vamos intercalando momentos de produção, pós-produção, escrita… Tudo cruzado entre si.

[Carolina Viana (CV)] Quando partimos para uma nova criação, nunca é com um objectivo super claro de querer fazer um EP ou um álbum. Apesar de ambicionarmos fazer um longa-duração, só porque é uma coisa fixe. Mas não é de todo o nosso principal objectivo. É irmos criando. Quando percebemos que temos um objecto artístico que faz sentido fechar, fechamos, e assim foi. Também sem obedecer a um ritmo demasiado acelerado de criação, por isso é que também houve este espaço entre o primeiro e o segundo trabalho. E depois percebemos que tínhamos um álbum, olhando para o tempo dele e para o número de faixas. O conceito também nos fez sentido e assim foi.

Ou seja, não sentiram o peso de ser o primeiro álbum ou o primeiro longa-duração deste projecto, tendo em conta que o foram fazendo de forma tão fluida e orgânica ao longo do tempo.

[CV] Sim, acho que o conceito de álbum de estreia é mais para as redes do que para outra coisa, porque para mim o EP foi como se tivesse sido o álbum de estreia. Sinto que este é mais um segundo trabalho.

[JR] Sim, fomos fazendo e, no fim, quando já estávamos perto de finalizar o objecto, é que nos apercebemos de que tínhamos um álbum. Foi mesmo um processo muito orgânico de ir fazendo, até chegarmos a um ponto em que já estávamos satisfeitas com as músicas que tínhamos e com o número de faixas. “OK, agora podemos juntar isto e cristalizar este momento.”

Carolina, mencionavas a questão do conceito. Foi algo que foi surgindo à medida que os temas iam sendo feitos? Ou começou a ser mais pensado a partir de certa altura?

[CV] Mais para o fim talvez tenha começado a ser mais pensado, sim. Tanto que fomos buscar o nome do álbum à faixa número dois, porque nos pareceu que englobava bastante todas as temáticas e o universo que tínhamos acabado de criar. E talvez a última faixa do álbum tenha sido algo adaptada para finalizar o conceito da forma como o estávamos a visualizar. Outra coisa que também foi importante na idealização do conceito foi organizar as faixas a sua ordem e perceber o nome de alguns temas. Acho que são elementos cruciais para organizar toda a imagética do álbum. 

E como é que descrevem o conceito deste disco?

[CV] Nós olhamos para ele como um objecto detentor de algumas camadas. Acho que são essencialmente três. A primeira vem ainda na onda do anterior, o parte, um olhar para dentro, observar as inquietações pessoais. A segunda camada é mais olhar para fora e ver também o nosso lugar na cidade, no mundo, enquanto seres sociais. E às vezes estas duas camadas entram em conflito e essa gestão é que é difícil, é uma aprendizagem. A terceira camada foi a que nos foi surgindo mais para o fim, e que delineou esta coisa que falei de organizar as faixas, dar-lhes títulos… Foi perceber que, enquanto isto acontece, enquanto nos estamos a debater com as nossas inquietações e com as do mundo, estamos também a fazer música. E isso é um processo bastante difícil no nosso país, actualmente também visto que somos estas artistas que não fazem bangers e que provavelmente vão continuar sem fazer —, e isto começou-se a alinhar e percebemos que eram estas três camadas que estavam a acontecer, portanto acho que é preciso mais do que uma audição para entender essas pistas, mas é um bocado sobre isso.

[JR] Em termos de estrutura, estas três partes também são marcadas. Com a primeira faixa do álbum, a “contas à vida”, que é uma música instrumental… Temos, depois, uma faixa a meio do álbum que é a “interlúdio”, que também é instrumental. E a última faixa, a “outro lado”, que é assim uma abordagem mais cantada, com auto-tune… Elas marcam um bocadinho estes três momentos. A “contas à vida” só tem uma frase que é “os artistas é que têm de fazer contas à vida” e é assim que se inicia o nosso processo a fazer música. O “interlúdio” faz uma ligação entre uma primeira parte, com uns beats mais transitórios entre o EP e este álbum e depois do “interlúdio” temos uma segunda parte mais electrónica, também com a participação do João Dias no trompete. É uma nova exploração que desagua na “outro lado”, que foi a última malha que fizemos para este álbum e que foi a música mais rápida, que fizemos literalmente numa hora no estúdio. Foi assim a primeira vez que nos juntámos para fazer uma música do início ao fim, numa sessão, as duas juntas. São três momentos que marcam fases de produção do álbum.

[CV] O número “três” é muito importante para este álbum.

Joana, estavas a referir a segunda parte mais electrónica do disco. Já havia coisas que, à partida, vocês sabiam que queriam explorar na sonoridade deste segundo trabalho? Em termos de método e de estética.

[JR] Eu acho que o processo foi bastante orgânico. A primeira música que fizemos juntas para este álbum foi a terceira, que é a “voo lento”. Até foi uma música que chegámos a apresentar num dos primeiros concertos que fizemos como redoma. Acho que a produção vai evoluindo… Lá está, na segunda parte temos a “lugar.”, a “fuligem”, a “folia” que têm este lado mais electrónico… São músicas que se constroem mais tarde, que foram feitas mais para o fim neste processo de composição. Há muita coisa ali que são repescagens de projectos que eu já tinha há imenso tempo. A primeira música do álbum é um instrumental que eu já tenho há anos no meu computador e que sempre quis utilizar. Acabou por ser este início…

[CV] Só fazer a ressalva que houve muito esta reciclagem, de ir buscar beats que estavam na gaveta, e que se relaciona com as “contas à vida”.

[JR] Sim! A “interlúdio” também foi uma das últimas músicas a serem feitas porque é precisamente um cruzamento entre a primeira e a última faixa, para marcar esta passagem para uma segunda parte. A produção vive muito desta coisa… Eu não diria que começo coisas do início, nós vamos construindo músicas, há sempre uma textura, nem que seja uns drums, um sample, um teclado que eu vou buscar a algum sítio que já existe entre nós, para eventualmente iniciar uma nova composição. Por isso é sempre este processo de pegar e acrescentar e ir dando voltas. E partiu também desta relação, porque ela também pega nesta reciclagem e escreve um novo tema e vamos andando sempre assim. É super orgânico nesse sentido, vai só continuando. 

E são as “contas à vida” no sentido de aproveitarem os recursos que têm, seja os instrumentais que estão na gaveta…

[CV] Sem dúvida, é sobre ir às gavetas. Seja um bloco de notas, o gravador do telemóvel ou um banco de beats. Demos muitas voltas aos temas e isso aconteceu na “delírios”, que era um tema que já tinha saído e agora fizemos uma reedição. Isso ficou muito claro. Aconteceu o mesmo com outra, mas como não estava lançada ninguém faz ideia do que era antes. E, sim, há coisas que provavelmente sobraram para num próximo trabalho se poder pegar e tentar perceber o que se pode fazer a partir dali.

Olhando agora em retrospectiva, há alguma coisa específica que vocês não identificam no primeiro EP mas que encontram agora neste segundo trabalho? Ou olham muito para ele como uma continuação daquilo que já tinham iniciado antes?

[CV] Acho que é uma continuação, mas houve um grande crescimento de um para o outro. Não sei se sei identificar todos os aspectos… Da minha parte, acho que fiquei um pouco mais descontraída na forma como interpreto cada texto. Primeiro, porque já não sinto que tenha de obedecer a uma certa performance. Agora encontrei mais ou menos o meu tom e faço o que me apetece; enquanto no primeiro ainda estava um bocado aos apalpões.

[JR] Eu acho que acaba por ser uma continuidade, mas como o processo foi longo e envolveu três anos, também tivemos um bocadinho mais de tempo e espaço para ir explorando as diferentes tonalidades tanto de voz como de produção e também tivemos espaço para ir construindo as coisas de uma forma um bocadinho mais adaptada. Pensar na voz e no instrumental cada vez mais como um só objecto. Houve mais esta coisa de ir para a Carolina, voltar para mim, ir para ela e andarmos assim neste processo bastante tempo para encontrar a melhor forma de as coisas casarem entre elas… 

Ficou muita coisa de fora, esboços que já tinham alguma estrutura e que depois acabaram por não entrar? Ou só pequenos elementos que estão agora na pasta da reciclagem para o futuro?

[JR] Temos um tema mais grosso, digamos assim, que ficou de fora… 

[CV] Havia um tema que queríamos muito que tivesse saído mas que não conseguimos resolver.

[JR] Existia uma letra e um instrumental, gostamos imenso de cada uma das coisas mas ainda não encaixou… Não casam um com o outro, não faz sentido para nós, a letra é altamente e o beat também, mas não encaixou.

[CV] E beats não faltam à Joana. Só que há uns em que não consigo pegar, ou porque não me estimulam ou porque não encaixou ali qualquer coisa… Beats é o que mais há.

[JR] Não há muitos, mas há alguns [risos]. E é esta coisa de ir experimentando e ver o que traz a criatividade. 

Agora vão apresentar o disco ao vivo. Vão tocá-lo na íntegra? Vão também interpretar faixas do EP? Estão a preparar algo de especial para estas datas que poderá não se repetir?

[JR] Nestes concertos vamos apresentar o álbum na íntegra, sendo que ainda vamos levar alguns resquícios do nosso EP. E vamos também levar uma nova formação, pelo menos para estes dois concertos de apresentação, que poderá ser o elemento que ainda não sabemos se vamos levar para o que vier a seguir nem sempre é possível que é o João Dias, o trompetista que gravou numa das músicas do nosso álbum; e a Diana Gil, designer do nosso EP e do nosso álbum, para fazer visuais ao vivo. Agora andamos neste processo de montar todo um concerto que faça esta passagem entre o EP e o nosso novo trabalho com estes dois elementos que vão trazer uma roupagem e uma dinâmica diferente a nível de performance. O João tanto vai ser um elemento melódico como irá fazer toda uma cena de texturas, vai fazer parte da base musical do início ao fim do concerto, sendo assim um terceiro elemento musical.


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