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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 05/07/2021

Em bom inglês.

#ReBPlaylist: Junho 2021

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 05/07/2021

Se Kendrick Lamar, J. Cole, Future e Drake pode ser considerados o topo da cadeia de rap norte-americano na actualidade, há uma série de nomes que apresentam argumentos sólidos para chegarem a esse patamar, mas que não forçam esse subida — Isaiah Rashad e Vince Staples são dois bons exemplos disso e estão preparados para marcar a agenda de 2021. Essas são duas escolhas mais ou menos óbvias para esta selecção, tal como os SAULT, que aparecem aqui em dose dupla depois de lançarem um fantástico novo álbum que nada deve aos seus antecessores. Para fechar, visões da Islândia e de um Verão confinado por Damon Albarn e Tinashe.


[Isaiah Rashad] “Headshots (4r Da Locals)”

Há poucas coisas mais entusiasmantes do que ser surpreendido com nova música de Isaiah Rashad — os fãs da figura mais acarinhada dentro da TDE (logo a seguir a Kendrick Lamar, é certo) que o digam. Afinal, desde Clivia Demo que Zay nos habituou a sofrer para depois saborear. Em The Sun’s Tirade converteu-nos irremediavelmente, ao mergulhar ainda mais fundo na sua depressão e consequentes adições, com uma voz que seduz qualquer um, desde os ouvidos mais sensíveis às orelhas mais duronas. Caracterizar a identidade de Isaiah como uma “vibe” só não é uma descrição preguiçosa porque essa é, realmente, a essência da sua música. Mas uma “vibe” sem igual, deixem-me que vos diga.

“Headshots (4r Da Locals)” foi “A” novidade do mês para quem padece desta admiração incondicional, tema este que representa mais uma peça do próximo projecto de Rashad, previsto para ser revelado em breve, cantiga essa que estamos (mas não estamos) fartos de ouvir. Depois de “Lay With Ya” com Duke Deuce — o primeiro single do álbum que está para chegar—, um banger fabricado para os mais badalados clubs norte-americanos, e de “200/Warning”, um lançamento forçado por um leak prévio, “Headshots (4r Da Locals)” trouxe de volta a tal “vibe” inconfundível, com os típicos refrões circulares, nesta acompanhados por uma voz distante que grita em desespero, como se viesse de dentro da cabeça do próprio. E o simbolismo dessa circularidade tem aqui especial relevância. Ora, espreitem o vídeo que complementa a faixa e talvez percebam por que razões passamos tanto tempo a suspirar por música nova de Isaiah Rashad.

Ok, Zay, apanhaste-me de surpresa no meu velho carro, mas continuas smooth como uma canção de r&b.

– Paulo Pena


[Damon Albarn] “The Nearer The Fountain, More Pure The Stream Flows”

Não sabemos se algures na casa de Damon Albarn existe um mapa gigante onde ele aponta todos os locais que o inspiraram musicalmente, no entanto, a ideia não parece assim tão fora de contexto. O homem-forte dos Gorillaz e dos Blur é, sem qualquer dúvida, um cidadão do mundo. Basta levantar um pouco a toalha pop, muito bem tricotada para estes dois grupos, para perceber que a sua carreira vai muito para lá disso: começa altamente influenciado pelos sons da Jamaica, apaixona-se a dada altura por África — sobretudo pelos sons do Congo e do Mali –, forma grupos e toca com músicos africanos todos os anos no Roskilde, festival dinamarquês que o ama tanto como ele o ama. Do país mais feliz do mundo salta para Cuba. Parece estranho, mas Damon Albarn faz isso com mestria, a mesma mestria que transforma os Gorillaz em Monkey e faz uma Journey to the West, ou que insere ritmos do Médio Oriente em Plastic Beach.

O último capítulo desta viagem surge do nada, ou talvez não. Damon revelou que o seu segundo álbum a solo é altamente inspirado pelas paisagens da Islândia, país do qual o músico até possui passaporte, fruto das visitas anuais ao longo dos últimos quase 30 anos. Uma espécie de retiro espiritual que o músico pratica e que se faz fortemente sentir em “The Nearer The Fountain, More Pure The Stream Flows”, uma música que parece cantada para ele próprio. Uma triunfante exteriorização de sentimentos, que se entrelaçam na perfeição com a melancolia e a beleza das paisagens fiordes. Tudo é belo, tudo é feito com alma, tudo é a ilha. Dá para imaginar a paisagem, as pessoas, a rotina, o mar. Nas subtilizas da melodia ouvimos o Jónsi, o Ólafur Arnalds, a JFDR, ouvimos a Islândia… uma carta de amor em cinco minutos de música.

– Luís Carvalho


[Vince Staples] “Law of Averages”

A lei das médias é a ideia de que ao longo de um período de tempo um determinado evento há-de acontecer porque é tão provável de acontecer como os outros eventos possíveis. Aplicando esta definição à música de Vince Staples, quando o ouvimos calmamente ameaçar “I will put you on a shirt if you fuck me out my racks”, quem quer arriscar e surripiar uns dólares ao rapper norte-americano? 

“LAW OF AVERAGES” é o tema que traz Staples de volta às nossas vidas e aos nossos fones. Depois de FM!, esta música antecipa um novo álbum, possivelmente o seu projecto mais pessoal até à data. Este primeiro avanço contrasta a entrega exasperada que já é característica do artista: o seu timbre é derrotista, mas um tigre deprimido continua a ser um predador nato. Há uma assertividade nas suas palavras, na maneira como despreza o comodismo no refrão do tema, e como previne os seus inimigos através das suas palavras disparadas a sangue-frio. 

A batida é simples, munida de um sample fantasmagórico e angelical e diálogos inaudíveis que ocupam os espaços deixados pela esparsa percussão. Staples eleva-se por cima do beat, despreocupado em equiparar a sua energia à da batida mas conseguindo-o de qualquer das formas. É caso para dizer que mais uma vez o artista prova que está acima da média. Cara ou coroa, qual será a próxima? Seja qual for a resposta com Vince Staples acabamos sempre a ganhar.

– Miguel Santos


[Tinashe] “Pasadena” feat. Buddy

É um dia triste quando a chegada do Verão já não basta para a felicidade. Os pequenos significantes diluem-se por entre alarmes e cadilhos, o desprendimento desfaz-se em compromissos; voltar a casa não significa apenas recobro, mas ponderar quais os limites que gostamos de conservar para nós. E não é que há sempre um café ao final do dia, um abraço remoto, conversas de estranhos para entreouvir, na sequência de interacções falhadas e tempo mal gerido. 

Tinashe sabe-a toda, sabe que as coisas flutuam de positivo para negativo (devia também saber que nós íamos reconhecer a mistela de influências de “Millionaire” da Kelis e “Hey Ya” dos OutKast). Se o sol nem sempre é imanente, há quem nos traga sempre formas de o voltar a cantar. Doo, doo-doo-doo-doo.

– Pedro João Santos


[SAULT] “Alcohol”

É difícil imaginar um cenário em que se ouve “Alcohol” sem uma bebida na mão, mas a ideia da canção é exactamente essa: sensibilizar-nos para os efeitos nefastos de algo que nos traz sensações boas até ao momento em que se cai no exagero e se perde o chão. São quatro minutos de neo-soul à moda britânica com arranjos simples e reconfortantes a favorecerem a voz terna de Cleo Sol, que nos embala nesta descida até ao fundo de um poço que pode pertencer a qualquer um.

– Alexandre Ribeiro


[SAULT] “London Gangs”

Escutando “London Gangs” — e, na verdade, boa parte do novíssimo NINE — percebe-se o quanto os SAULT devem ao pulso motorik de algum krautrock, especialmente o dominante eixo Neu!/Can. A depuração que o grupo apresenta nesta “London Gangs” é absolutamente excitante: aquele baixo distorcido e o break de bateria como elementos estruturantes da peça a que se junta a voz que nos remete para os universos de ESG e Liquid Liquid – impulso puro, cadência imparável, direito à veia. E depois aquele “la la la” que parece subverter o ímpeto, antes de tudo regressar à mesma corrente imparável. E há ainda o break psicadélico no último terço, como se fosse possível a um colectivo transmutar-se de célula kraut em entidade de psych folk, ainda que apenas por breves momentos. Extraordinário. Outra vez.

– Rui Miguel Abreu

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