Os versos proclamados por MCs continuam na ordem do dia dentro do seio da equipa do Rimas e Batidas. Do clássico ao avant-garde, do drumless ao trap, com aproximações à pop ou ao R&B: há hip hop para todos os gostos (e um ternurento dueto de latitudes mais jazzísticas entre duas aclamadas vozes) nesta nova investida em grupo com selo ReB. Deixem-se levar pelas malhas que mais nos captaram a atenção ao longo do passado mês de Julho.
[JPEGMAFIA] “Exmilitary”
É preciso coragem para abordar samples com história. Mas felizmente que JPEGMAFIA não se afasta de um desafio. Em “Exmilitary” — um dos destaques do seu mais recente álbum I LAY DOWN MY LIFE FOR YOU — o rapper norte-americano utiliza como sample “After Laughter” de Wendy Rene, popularizada em “Tearz” dos célebres Wu-Tang Clan. Mas tendo em conta a música guerreira do artista nascido Barrington DeVaughn Hendricks, o desafio está à sua altura.
O sample mantém assentes na terra as palavras do rapper. Há catarse misturada com veneno, numa música que tanto se mostra calma como consegue ser um assalto sonoro que dá gosto desvendar. Mostra-se incisivo, disparando farpas no meio de confissões, mas o seu instrumental é regrado, até que deixa de o ser. A melodia 8-bit que se faz ouvir em algumas partes do tema cavalga para a frente, sem abrandar, ao estilo do seu autor, estabelecendo um contraponto interessante com o resto do instrumental. Ouvimos também guitarras rasgadas, a fumegar numa caldeirada musical que é maior que a soma de todas as suas partes. Termina com um final contemplativo, um outro adornado de cordas antes de retomar o famoso sample. Ainda que esse brilharete sonoro nos transporte instantaneamente para outros tempos, Peggy prova que o que está a fazer é muito diferente do que aquilo que o antecedeu.
— Miguel Santos
[9 Miller] Freestyle @ More Bars
Um acontecimento relevante nos últimos meses no hip hop em Portugal foi a estreia de More Bars na Cidade FM, uma rubrica de Mizzy Miles que será um dos primeiros formatos do género por cá, sobretudo numa rádio nacional. Ao longo dos anos, habituámo-nos a ouvir programas norte-americanos de rádio conduzidos por DJs do movimento, que conversam com rappers e recebem-nos para autênticas demonstrações de talento, em momentos exclusivos e ímpares. Fazia todo o sentido que existisse algo idêntico deste lado do oceano, e coube, mais uma vez, a Mizzy Miles concretizar esse feito. E uma das maiores provas de que um programa deste género acarreta valor acrescentado é que podemos ouvir freestyles — não necessariamente improvisos — como este de 9 Miller no segundo episódio do programa.
Bem ao seu estilo, nasty e despreocupado, também certamente misógino, o rapper da Apelação dá uma aula de punchlines e egotrip, mostrando mais uma vez o valor da sua caneta, mas também a forma intrépida e convidativa como entrega cada barra por cima de um beat cativante. Numa era em que muitas vezes os rappers — sobretudo aqueles com uma dimensão considerável — estão focados nas suas carreiras, nos lançamentos esporádicos e estratégicos, e nas canções elaboradas que melhor constituem a sua obra, fazem falta projectos ou espaços onde possam, de forma mais livre e descomprometida, explorar a arte e o exercício criativo conhecido como ritmo e poesia.
— Ricardo Farinha
[BLK ODYSSY] “CHANGES”
Há qualquer coisa que não parece bater certo quando olhamos para os números de BLK ODYSSY. Talvez BLK VINTAGE, o seu primeiro álbum de estúdio a solo, nos tenha dado a impressão errada no que concerne ao público do artista nascido em Nova Jérsia e criado no Texas. Quem sabe se não terá sido mesmo essa “sorte de principiante”, que em Abril de 2022 Miguel Santos identificava sobre o disco de estreia do cantor e compositor nascido Sam Houston, a manifestar-se. A verdade é que esse primeiro trabalhou arrecadou tracção assinalável e BLK ODYSSY veio a revelar-se um nome a reter para lá dos nichos ou da crítica especializada; uma figura um tanto ou quanto enigmática, até, na apresentação da sua música. Mas não foi propriamente a “rasgar alcatrão” — como finalizava à data o autor da rubrica Abram alas para… — que a carreira de BLK ODYSSY se veio a desenvolver a partir desse rombo na porta.
A atenção recolhida pelos longa-durações sucessores haveria de ser bem menos expressiva, sem que estes trabalhos merecessem esse tempo de antena francamente aquém das expectativas (das nossas, pelo menos…). Aliás, foi precisamente a partir desses projectos consequentes que BLK ODYSSY veio a consolidar a sua valiosa e verdadeiramente distinta identidade artística — para enfim chegar a uma obra do calibre de 1-800 FANTASY. E, volvidos estes primeiros anos, Houston apresenta um terceiro álbum de originais (com versões live e deluxe pelo meio) que, perto de completar o primeiro mês de vida, parece ter passado ao lado do grande público.
Musicalmente riquíssimo como todos os seus antecessores, 1-800 FANTASY afigura-se especialmente fascinante do princípio ao fim, extremamente persuasivo ao ouvido, cirurgicamente incisivo em cada uma das 13 canções que o compõem. Autêntica banda-sonora idílica para um Verão por se cumprir. E, no fim do dia, a população continua alheia à melodia desta Family Frost. Inexplicável. Como tantos — incontáveis — fenómenos da música, que nos levam a crer que não há TikToks que valham com tantos segredos ainda por descobrir. Há coisas que, para o bem e para o mal, nunca mudam. E esta “CHANGES” é o rasto pelo qual essa mudança, para quem até então desconhecia 1-800 FANTASY, pode finalmente dar-se.
— Paulo Pena
[Action Bronson] “KOMPRESSOR” feat. Larry June
O icónico MC de Queens está de volta aos longa-durações com JOHANN SEBASTIAN BACHLAVA THE DOCTOR e, de forma sintética, este “Kompressor” (e citando o próprio Action Bronson)… f*ck, that’s delicious! Uma produção exímia de Daringer, com um sample bem familiar para o público lusófono — sim, é esse mesmo que os Racionais MCs usaram em 1997 no clássico “Fórmula Mágica da Paz”.
Num paralelismo com a carreira culinária de Baklava, podemos dizer que, volvidas quase 3 décadas do lançamento do conjunto brasileiro, há receitas que não envelhecem, e este beat de Daringer segue exatamente esse caminho: os ingredientes de sempre de boom bap, mas com um tempero moderno a reimaginar o tradicional — referimo-nos, claro, aos versos de Bronson e Larry June.
A ligação direta entre as Costas Este e Oeste dos Estados Unidos da América funcionou na perfeição nesta faixa, com a acidez de Baklava a contrastar com a presença sempre adocicada de Larry. O rapper californiano assenta neste “Kompressor” que nem uma luva, a deslizar à sua maneira num instrumental que é, de resto, uns bons BPMs abaixo daquilo a que nos acostumámos ouvi-lo. Uma fusão de sabores para ouvir e chorar por mais!
— Carlos Almeida
[Nenny] “Normal”
Antes de lerem isto, escutem esta novidade de Nenny, caso ainda não o tenham feito. Bom, agora que já tirámos isso do caminho, apostamos que deram por vocês a dançar involutariamente com este refrão quase hipnótico da “menina” que está feita mulher, e que neste tema (que abre o seu 2024) se apresenta como gente bem, bem graúda.
Esta produção recheada de groove assenta idealmente num quase egotrip de Nenny, num daqueles temas feel good que foi solto na altura perfeita do ano — que com este calor tórrido é o bop perfeito para as sempre encantadoras noites de Verão.
E como a matemática não engana, esta fórmula de Nenny só tem um resultado possível: corpos a mexer e vozes a ecoar as palavras deste diamante da V-Block. Se 2024 tem sido um ano calmo para a artista, preparem-se que as águas vão ficar agitadas num futuro próximo: o primeiro álbum está a caminho (escrito em inglês) e há também mais alguns temas soltos (em português) prestes a ver a luz do dia, segundo o que disse ao Rimas e Batidas aquando deste lançamento. Aguardemos os próximos passos desta artista que tem feito tudo menos… o normal.
— Carlos Almeida
[Milton Nascimento & esperanza spalding] “Saudade Dos Aviões Da Panair (Conversando no Bar)”
Milton é um génio é um génio é um génio. Só para que fique claro. Em 1975, no belíssimo Minas, álbum de “Fé Cega, Faca Amolada”, gravou também a incrível “Saudade Dos Aviões da Panair (Conversando no Bar)”, tema em que nos ensina que “Tudo de triste existe, e não se esquece / Alguém insiste, e fere o coração / Nada de novo existe nesse planeta / Que não se fale aqui, na mesa de bar”.
Poeta com voz de Deus, alma gigante e resistente, Milton acaba de lançar em estreita parceria com a artista esperanza spalding o maravilhoso Milton + esperanza, álbum que foi precedido por um EP em que se revelou então a recriação desse clássico de Minas que é esta “Saudade Dos Aviões da Panair (Conversando no Bar)”, uma pérola servida por uma daquelas melodias mais leves que o ar que Milton tão bem soube criar e depois adornar com rendilhados harmónicos que são únicos e que ajudam a explicar a adoração de que sempre foi alvo por parte de gente grande do jazz.
Nesta versão, esperanza — que é a produtora de serviço nesta bela homenagem que Milton já disse que poderá ser a sua derradeira gravação — chamou para a sua beira uma equipa de luxo: Lianne La Havas, Lula Galvão, Tim Bernardes e Maria Gadú ajudam todas e todos à festa que inunda os nossos ouvidos. E há uma belíssima flauta que vai dançando arranjo fora — e que tem direito a solo e tudo — que é tocada por Shabaka Hutchings. Podemos, aliás, vê-lo e ouvi-lo no tocante Tiny Desk Home Concert que Milton e esperanza acabam de protagonizar. Percebemos que, já com os 80 ultrapassados, Milton já não tem aquela voz de beleza arrebatadora que durante décadas explorou com requintada imaginação. Mas a nobreza está lá toda, intocada, solene e brava, como sempre. E isso basta para que o nosso coração sinta tudo em dobro. Uma maravilha que Julho deu e Agosto agora confirma.
— Rui Miguel Abreu
[SALIMATA] “TAKE U DEA”
Parece quase a versão feminina de Pink Siifu de tão camaleónica e visionária que é. SALIMATA é um nome a despontar nos campos do hip hop e do R&B a manter debaixo de olho, uma pérola descoberta por MIKE, rapper de culto que lhe carimbou o álbum de estreia, OUCH (2023), pela sua 10k. Foi, aliás, ao lado do autor de Burning Desire que a vimos pela primeira vez, e as suas breves aparições nos palcos do B.leza e do gnration foram o suficiente para nos deixarmos rendidos — Paulo Pena considerou-a a “bela surpresa” da noite em Lisboa, enquanto que Jaime Manso não teve dúvidas quanto ao seu “talento raro” na passagem por Braga.
Já completamente conquistados, vimo-nos obrigados a rever toda a matéria que tinha ficado para trás. Além do já referido OUCH, SALIMATA editou no arranque deste ano o segundo LP, Wooden Floors. Apesar de não integrar as contas do seu mais recente disco, “TAKE U DEA” é quase uma extensão a esse alinhamento de 11 faixas. Quem teve olho e ouvido para a coisa foi a Nike e a Patta, marcas que lhe forneceram as ferramentas necessárias para que pudesse alcançar a sua peça visual mais ambiciosa até à data. Tanto a música quanto o videoclipe deste seu novo single estão “no ponto”, e tivessem todos os artistas um momento como este de “TAKE U DEA” nas suas carreiras e o game estava bem mais original e menos saturado face ao actual estado em que se encontra. Aplausos!
— Gonçalo Oliveira