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Fotografia: Fábio Poço
Publicado a: 17/05/2024

Transdisciplinar e elementar.

Pulsar — Companhia do Corpo na Casa da Música: soar para unir

Fotografia: Fábio Poço
Publicado a: 17/05/2024

Vir para ver e ouvir como uma coreografia desenvolve uma sonoplastia de que se alimenta para existir, com o coro de vozes que dançam se revelam feitas de um corpo de som, no mesmo tempo concreto que o som dá ao corpo o que precisa para ser.

A convite da Antena 2 a Pulsar — companhia multidisciplinar que junta linguagens entre a dança contemporânea, a música corporal e coral e o teatro — abriu a programação do festival que a emissora de rádio trouxe à Casa da Música no Porto — Festival Antena 2. Para esta ocasião o compositor e baterista Marco Santos, cujo nome associamos ao universo jazz, assume a criação e a direcção de “Corpo do Tempo” – em estreia de espetáculo pela recente companhia artística por si idealizada. Santos é a expressão da inquietude criativa, de músico, instrumentista e compositor a coreógrafo e bailarino, assume as ferramentas da arte disposto a transmitir uma necessidade que afinal é de tantos, como revela nas palavras: “É preciso saber / é preciso sentir / é preciso saber sentir! / Porque às vezes a gente sabe e não sente, e outras vezes, a gente sente e não sabe”.

O elenco surge e atravessa a plateia, expressa o colectivo humano, uma sociedade neste tempo concreto, multicultural, multilinguística, multidisciplinar e nisso diversa. São tantos como nós e vêm para soar a nós, e são Ana Sofia Sequeira, André Tasso, Denys Stetsenko, Marco Santos, Mariana Frazão, Margarida Soares, Nazaré Pinto Leite, Poliana Tuchia, Rafaela Amodeo, Rui Aires e Ulisses Ruedas. Chamar-lhes dançarinos, músicos ou cantores revela-se performance adiante um desafio constante, são isso e tudo o mais que revelem. Entram para pisar o linóleo que os espera, apetrechado de múltiplos microfones, no chão e no ar, céu e terra, para que dos corpos soe o detalhe preciso e necessário para melhor definir o ritmo do tempo que os corpos desvendem. Afinal é disso que se trata nesta prestação, assumir a criação e o desgaste do tempo no corpo e com isso dar a conhecer o que se ouve do corpo no tempo. O mote é assumido e serve-se da expressão corporal na sua integral composição, com cabeça-tronco-membros, na expressão sonora da voz-ressonância-percussão. O corpo emissor, uma linguagem transversal no tempo, nas culturas, elementar na comunicação primordial e imemorial. É aqui e agora mas pode ter sido outrora algures no tempo, esse de que estamos separados. Estes corpos estão dispostos a unir. Neste tempo, ainda a tempo de escutar e ler Joana Sá intervindo na temática conexa com A Body As Listening, a lembrar-nos isso mesmo um elemento comum nas duas vivências e imprescindível na excelência do som, Suse Ribeiro, uma e outra vez.

Aqui no linóleo tempo adiante, desenvolvem-se conjuntos de quadros coreografados, revelando corpos emissores sonoros que se entrelaçam uns nos outros, uns com os outros e ainda uns para os outros. Em desenhos que procuram ilustrar o quotidiano, nas facetas de expressão das nossas vidas, de cada um, no ritmo do dia-a-dia, quer no deambular pelas ruas, num colectivo de que se apercebe do outro apenas quando esta cai com estrondo e faz parar para ver — nem sempre disposto a ajudar a levantar do chão. Outras vezes vigilante e até julgador, moralista e que oblitera a expressão individual, e nisto há um corpo emissor rodeado do olhar e vozes dos demais até deixar de haver. Mas também nos momentos de ligação e de amparo, em que os corpos ressoantes se deixam de ouvir e se entrelaçam para voltar a soar. Caminham desligados, outras vezes vêem-se emparelhados, em duos, em combinações possíveis e diversas, e ouvem-se a marcar o ritmo do tempo, dos dias, a comensurar o andamento dos mecanismos que marcam essa passagem por nós. Flagrante e notável é o momento com que, um atrás de outro, cada um dos elementos tenta expressar a sua voz, o seu eu, porém impedido pelo sucessor, num físico amordaçar e derrube, num desrespeito e empobrecimento pelo que fica por se ser e sem se ouvir. É preciso alguém notar que dar corpo é unir, ligar os elementos, através de um som uníssono, em contínuo no tempo. Esse alguém vindo em auxílio — fazendo pensar — é aqui o criador que se junta como dançarino-músico-cantor, pisando de volta o linóleo. Levando às vozes diversas, como numa só, a interpelarem em polifonia estimulante num permanente corpo que continuamente perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. Este tempo, que tem no corpo que o “Corpo do Tempo” contem, o tempo preciso de existir escutado.


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