O hábito é inimigo porque nos traz expectativas. Pelo seu percurso com Linda Martini, Pedro Geraldes está automaticamente associado à sua presença naquela que é uma das bandas mais marcantes do rock alternativo português, mas nem só de guitarras é feita a sua música. Introdução à Ressurreição é o seu primeiro trabalho a solo enquanto Lázaro, aglutinando vários singles soltos lançados ao longo de 2020 a duas remisturas, numa comunicação mútua com o músico João Vairinhos.
Há uma afirmação de liberdade neste trabalho do músico português, que além da sua produção a solo e de integrar o celebrado quarteto, ainda figura na discografia de Aline Frazão ou nas actuações ao vivo de Carminho. Se as cordas são o que normalmente nos liga a Pedro Geraldes, Lázaro é mais disforme, entre o orgânico e o electrónico. A etérea guitarra eléctrica não desaparece e é bem-vinda nesta produção que abraça o spoken word, nas palavras de Eugénio de Andrade e de Almada Negreiros. O artista conta-nos sobre esses textos: “Ambos querem romper com um padrão (ou através da revolta, ou da introspecção) e prosseguir mais leves e focados. São textos duros, escuros e fortes emocionalmente, mas na minha opinião servem para que se desenvolva uma espécie de catarse extremamente libertadora”. Tendemos a concordar.
Esta ressurreição de ideias suas de meados da década passada apontam para um Lázaro criativo que manobra sem dificuldades o som a seu proveito, independentemente se apontamos para uma introspecção outonal ou uma dança primaveril. No entanto, o lado B destoa do primeiro: composto por trabalhos mais recentes, há uma remistura de João Vairinhos para um tema de Geraldes, e o inverso, e ambos se aproximam de uma electrónica mais angular. Não há melhor maneira de introduzir Lázaro do que com toda esta liberdade.
Antes de mais, porquê uma ressurreição? E assim, inevitavelmente: porquê Lázaro?
A Introdução à Ressurreição surgiu no seguimento de Lázaro. Esse nome foi, há mais de uma década, um projeto de banda hardcore com o mano Pedro de X-Acto e Sannyasin que nunca se chegou a concretizar. Porém, o nome sempre ficou e sempre achei que na altura que decidisse lançar música em nome individual, seria esse o nome perfeito. Falei com o Pedro e ele achou óptima ideia.
Gosto de apresentar o meu trabalho como Lázaro porque na verdade já vou compondo/produzindo em casa desde os tempos das cassetes. Em casa dos meus pais tinha uma aparelhagem de duplo-cassetes e já nessa altura gostava de praticar a magia do overdub. Com o advento do digital abriu-se todo um novo mundo de possibilidades. Portanto, estas três músicas que reúno em Introdução à Ressurreição, no lado A, são temas que são de 2014, a “Darque” e a “Hosoi” e, já não me lembro bem, talvez 2012, a “Almada”. Ou seja, já vou fazendo música sozinho há algum tempo, mas não tinha até agora o hábito de a mostrar, a não ser a alguns amigos muito próximos. Lázaro surge com a intenção de inverter esse ciclo. Passa a ser a entidade responsável em pegar nessas músicas antigas e ideias inacabadas e fazer com elas algo concreto para as revelar ao mundo.
A Introdução à Ressurreição é, portanto, esse acto de reanimar coisas “mortas” (música que não viu a luz do dia) e lhes dar vida. É o primeiro acto, que se iniciou com algumas músicas avulsas a serem lançadas durante o ano de 2020 e que agora culmina com o lançamento desta k7, à qual acrescentei mais dois temas no lado B.
Há alguma ligação entre essa temática e Eugénio de Andrade ou Almada Negreiros, que aparecem recitados em Introdução à Ressurreição?
Sim, sem dúvida. Na minha opinião, os textos escolhidos para esses dois temas têm em si uma espécie de força partilhada. Ambos querem romper com um padrão (ou através da revolta, ou da introspecção) e prosseguir mais leves e focados. São textos duros, escuros e fortes emocionalmente, mas na minha opinião servem para que se desenvolva uma espécie de catarse extremamente libertadora.
Qual é a diferença essencial entre Pedro Geraldes e Lázaro? Porque foi para ti importante separar os teus lançamentos a solo nestes dois nomes?
São a mesma pessoa, mas uma tem mais poderes que a outra. Foi importante separar os lançamentos nestes dois nomes, no sentido em que Lázaro é o meu alter-ego. E desta forma, abre mais possibilidades, ainda por cima tendo o poder da ressurreição.
Este Lázaro – e o seu renascer – surge na sua íntegra durante a pandemia ou é um trabalho que vem de ideias e projectos pré-gravados também?
Como disse antes, é um trabalho que já vem de há bastante tempo. Contudo, foi a pandemia e o lançamento de música de amigos, como o João Vairinhos e Herói (Sérgio França), que me fez dar este passo de apresentar Lázaro de uma forma pública, independente e DIY.
Além de assinares como Pedro Geraldes e Lázaro, tens passado algum tempo a trabalhar para projectos com um fim particular – como Mão Verde com a Capicua, por exemplo –, ou a tocar para outros artistas. Quão libertador foi trabalhar em temas sozinho e como é que isso influenciou todo o processo criativo?
Nunca pensei que fosse possível, mas a verdade é que trabalho como músico. Tenho, além de Linda Martini, a banda que me deu a conhecer como músico, feito outros trabalhos. Participei no disco Insular da Aline Frazão como guitarrista, co-produzi o disco Mão Verde de música para crianças com a Capicua. Toco desde 2019 ao vivo com a fadista Carminho. Além de outros projetos mais alternativos, como o Água & Sal com a Capicua, ou o Sete Colunas, de composições feitas exclusivamente através de soundscapes da cidade de Lisboa.
Compor de forma solitária é muito libertador, mas muitas vezes também se torna mais difícil fechar e decidir pôr o ponto final. Podemos fazer o que queremos e isso é uma grande vantagem, mas temos de ser mais disciplinados e ter muito claro o caminho que queremos percorrer. Considero um óptimo escape para tudo o que fica por fazer nos outros campos onde vou estando. Permite-me também não depender à partida de ninguém para concretizar uma ideia ou conceito musical.
Na verdade, foste lançando estes temas como singles soltos ao longo de 2020. Porquê compilá-los numa cassete? Sentes que fazem parte duma mesma lógica estética ou conceptual?
A principal ideia de fazer a edição em k7 foi afirmar o surgimento de Lázaro. Senti que as três músicas que tinha lançado digitalmente serviam para marcar esse início, mas ao mesmo tempo achei que ter um objecto físico, palpável, afirmaria mais em absoluto o nascimento de Lázaro. A edição em k7 surgiu através de uma parceria com a Regulator Records. Numa altura em que o formato físico está tão posto de lado, a edição em k7 pareceu-me um formato diferenciador e interessante. O embalamento das k7s é manual e lacrado e carimbado por mim. O artwork é do Studio Dobra e a edição é da Regulator Records.
Fundamentalmente, conseguimos ouvir algo muito teu da estética de Linda Martini naquele timbre de guitarra reverberada em “Hosoi”, por exemplo. Mas as baterias, as vozes e muito do sound design demarca este trabalho de outros projectos teus. Fala-nos um pouco dos arranjos de Introdução à Ressurreição.
Sinto que o meu passado a trabalhar em música sozinho se tem relacionado muito mais com uma estética electrónica. Tem sido essa a minha maior exploração e viagem. Depois, gosto de misturar essa abordagem com sons orgânicos e acho que é assim que de alguma forma surgem estes temas. As minhas influências são muito variadas. Vão tanto da abordagem punk, como ao dancehall da trojan, passando pelo garage londrino.
O lado B da cassete constitui uma estética mais espacial neste EP. Porquê o João Vairinhos e como se deram estas reinterpretações?
O lado B são dois temas que representam uma partilha que fiz com o João Vairinhos. Ele pediu-me, antes de se pensar em lançar esta k7, fazer uma remix de uma música dele. Eu escolhi a “Vénia” e gostei muito da experiência e do resultado. Achei que seria a representação de um Lázaro mais recente. Depois, e como esta ideia de partilha, apesar de ser um projecto individual, me parece importantíssima, decidi convidar o Vairinhos para fazer uma remistura de um tema meu. Ele pegou na “Darque” e reinterpretou o tema, transformando-o num tema seu que surgiu de um meu. Esses dois temas representam de alguma forma a liberdade com que pretendo encarar o meu trabalho como Lázaro.
O que podes adiantar do teu 2021? Tens mais projectos ou colaborações em vista?
Linda Martini tem andado a trabalhar em novo material e esperamos ter oportunidade de o mostrar assim que possível. Estou também a trabalhar no Sete Colunas com o Vairinhos. A ideia é transformar essas sete composições relativas a cada colina de Lisboa em música, que para além da componente de gravação de campo, tenha também guitarras e bateria. Contamos ter esse disco fechado ainda este ano. Como Lázaro, tenciono continuar a compor e fechar o que tenho pendente, para depois decidir o que fazer com as músicas, se lançar em disco, se experimentar uma outra abordagem. É uma viagem que se inicia e é todo esse novo mundo por explorar que me entusiasma.