Juliette Pearl Davis é, obviamente, a pérola e Joachim Polack a ostra. Juntos são a dupla Pearl & The Oysters a quem deve ser creditada Coast 2 Coast, a sua discreta estreia na californiana Stones Throw que aterrou no mundo há algumas semanas, dilatando um pouco mais uma ainda mais discreta discografia iniciada em 2017 com um álbum homónimo na francesa Croque Macadam. O que faz pleno sentido porque os Pearl & The Oysters são franceses. Quer dizer, comme ci, comme ça. Como nos revelam na curiosa entrevista que nos concederam, também têm mães americanas e gozam de dupla nacionalidade, facto que os levou a rumarem à América, baseando-se inicialmente na Flórida antes de se estabelecerem em Los Angeles — de costa a costa, portanto —, cidade onde, com uma série de aliados — americanos e também, uma vez mais, franceses — criaram aquele que é já o seu quinto longa duração.
Combinando uma refinada sensibilidade pop com um apetite voraz pelo passado solarengo do Brasil, o jazz de fusão feito a pensar em iates construídos para as tranquilas águas tropicais, e o lado mais experimental da sunshine pop psicadélica britânica que tem em Broadcast ou Stereolab importantes referências, os Pearl & The Oysters podem muito bem ter-nos dado um dos mais surpreendentes registos do ano. Façam o favor de confirmar.
A primeira vez que ouvi falar de vocês foi quando a notícia do vosso single pela Stones Throw veio parar à minha caixa de e-mail. Eu achei que o vossa banda era nova, mas pelos vistos vocês já andam por aí há algum tempo. Ainda assim, a vossa comunicação refere que esta é uma nova fase do vosso projecto. Querem explicar porquê?
[Juliette Pearl Davis] Bem, ambos crescemos em Paris, França. Somos amigos europeus [risos]. Foi aí que crescemos, que passámos a nossa adolescência, que começámos a fazer música — juntos, aliás. Mudámo-nos para os EUA em 2015. E sim, parece mesmo que iniciámos uma nova vida nessa altura.
[Joachim Polack] Foi aí que a banda começou, portanto…
[JPD] Sim. Houve um antes e um depois na forma de fazermos música juntos e de darmos concertos. Começámos a ter digressões pela América, que era algo que nunca tínhamos feito.
A minha próxima questão é um bocado óbvia: o que é que vos levou a perseguir o sonho americano quando se mudaram para a Flórida?
[JP] Na verdade, a Juliette queria viver nos EUA e creio que a ideia inicial era fazer isso apenas por alguns anos. Mas continuamos por aqui, oito anos depois.
[JPD] E ambos temos mães americanas.
[JP] É verdade. Eu esqueci-me disso.
[JPD] Portanto temos dupla nacionalidade e durante o nosso crescimento habituámo-nos a vir aos EUA algumas vezes para visitar as nossas famílias. Acho que esse elemento tornou as coisas fáceis para nós. Nós temos o passaporte, podemos circular por aí e passar bastante tempo nos EUA sem termos de nos preocupar com um visto.
Não têm de andar naquele hustle para terem o vosso visto de trabalho.
[JP] Exactamente. Sem dúvida que isso nos tornou as coisas muito fáceis, o facto de termos dupla nacionalidade. Nós podemos ficar cá o tempo que quisermos. De início, o plano não era esse. Mas a banda começou a ocupar cada vez mais espaço nas nossas vidas e sentimos que este era o sítio para estar e perseguir o sonho de fazer disto uma carreira.
[JPD] E tu também concorreste…
[JP] Exacto [risos]. Preciso de voltar atrás na história. Basicamente, termos vindo para a Flórida foi meio aleatório, mas ao mesmo tempo não. Uma das razões pelas quais eu aceitei esta ideia louca de me mudar para os EUA com a Juliette foi porque estava interessado em prosseguir aqui os meus estudos em musicologia. Eu já estudava musicologia em França, mas estava inclinado para a ideia de fazer o programa de PhD. Nós os dois temos ambos o mestrado em musicologia, tirado em Paris. Também estudei música clássica durante um par de anos em Paris, mas eu queria mesmo voltar a escrever sobre música. Fiquei obcecado — e ainda hoje sou – pela música do Tom Jobim. Queria encontrar um lugar onde pudesse tirar o meu doutoramento ao lado dos peritos em música brasileira. Isso, de alguma forma, trouxe-me até Flórida. Historicamente, a Flórida tem uma das maiores diásporas do Brasil. É um dos locais com mais brasileiros fora do Brasil. Principalmente no centro da Flórida, existem muitos brasileiros. Há aqui um grande foco nos estudos do Brasil — da música, literatura e cultura brasileira. Especialmente na universidade em que eu estudei, a Universidade da Flórida, em Gainesville, que foi onde ficámos a viver durante quase cinco anos — a Juliette passou o primeiro ano em Nova Iorque, depois juntou-se a mim. Mas foi espantoso. É claro que aprendi um pouco de português. É o português do Brasil, mas pronto.
É português na mesma! Mas isso deixa-me curioso: essa paixão pelo Tom Jobim traduziu-se nalguma tese? É possível ler isso em algum lado?
[JP] Claro que sim. Eu escrevi a minha dissertação de doutoramento em torno do Tom Jobim, especificamente naquilo que ele produziu durante o início dos anos 70, os álbuns pela CTI Records — o Stone Flower, o Tide… Mas sim, isso está online e pode ser consultado gratuitamente. Se digitares o meu nome e procurares há-de aparecer.
Espantoso. Vou certamente fazer isso. Mas deixa-me continuar a seguir a informação que obtive pelo vosso press release: lá dizia que trocaram Flórida por Califórnia devido à insónia e ansiedade. Isso está de algum modo ligado ao facto da Flórida ser um estado profundamente problemático a nível político? Tenho lido as coisas mais estranhas sobre o Ron DeSantis no Twitter. Uma delas é o facto de querer construir uma prisão ao lado do parque temático da Disney. Isso teve algo a ver com a vossa mudança para uma Califórnia mais liberal?
[JPD] Sem dúvida que isso teve impacto. Nós sentíamo-nos muito enclausurados na cidade onde vivíamos. Aquilo é uma cidade universitária, mas mesmo assim há coisas muito, muito horríveis por ali a nível político. Mas também há uma comunidade de gente muito fixe.
[JP] É provavelmente na Flórida que encontras a maior bolha conservadora. E o Ron DeSantis é maluco [risos]. Ele só diz e faz coisas doidas.
[JPD] A mudança para a Califórnia foi como uma lufada de ar fresco. Nós conseguimos entender melhor as políticas daqui. São melhores, mesmo que não sejam as ideais. Nós falamos disto muitas vezes, do quão estranha foi esta escolha de virmos viver para…
[JP] Um país problemático.
[JPD] Um país problemático. É essa a expressão.
Eu deduzo que Los Angeles seja um lugar bem diferente, obviamente. Nunca visitei L.A., mas conheço alguns músicos e produtores portugueses que tiveram algumas experiências por aí, e todos eles me falam que é um sítio que respira criatividade, com um circuito muito diferente daquilo a que estamos habituados na Europa. Como é que vocês se encaixaram em L.A.?
[JPD] Tudo o que te disseram é verdade. Este local é muito único para os músicos. Nós não tínhamos visto nada assim em lado nenhum do mundo.
[JP] É verdade. É único. Uma enorme concentração de talentos. Há músicos incríveis em todo o lado, imensas cenas diferentes. Não existe uma só cena homogénea, como tu costumas ver noutros sítios. E é um conjunto de diferentes cenas que comunicam entre si, sabes? A malta do jazz vai fazer música com o pessoal que está nos domínios da indie-pop. Existe esse diálogo, o que é excelente. As pessoas têm uma mentalidade muito aberta. Há uma energia que emana a partir de Los Angeles. Em termos de criação musical, toda a gente quer colaborar uns com os outros. No que toca à nossa experiência, é muito à base disso.
[JPD] E há trabalho! O que é raro.
[JP] Esse ponto é muito importante [risos].
[JPD] A nossa primeira baxista, quando cá chegámos, demitiu-se do trabalho para ser artista a tempo inteiro. Nós experienciámos isso. Ela é super-talentosa e, obviamente, merece-o. Mas ver que ela tem convites para tocar vindos de todo o lado… A transição dela para baixista profissional foi muito rápida. Há muitas bandas por aí à procura de talento e as pessoas valorizam o talento, a criatividade, e ajudam-se umas às outras. Quando nos mudámos para cá, ainda éramos uma banda pequena.
[JP] Éramos relativamente desconhecidos.
[JPD] Mas as pessoas levaram-nos a sério instantaneamente e empurraram-nos.
[JP] A malta da cena local demonstrou interesse desde o início. Vinham ter connosco, davam-nos oportunidades para tocar ao vivo, colaboravam connosco… Nós tivemos dois meses bastante sólidos antes do COVID [risos]. Foi uma coisa interessante, porque mesmo durante o início do COVID — estivemos retidos em casa, basicamente — fomos desenvolvendo amizades, mesmo que de forma digital, claro. Mas os músicos locais tornaram-se bons amigos. Só o facto de estar fisicamente em L.A., mesmo que numa altura em que se meteu uma pandemia pelo meio, permitiu-nos conhecer tanta gente. Foi muito interessante e estranho, honestamente. Mas tem sido uma história de sucesso, como o nosso baterista diz [risos]. Nós mudámo-nos mesmo antes de um evento catastrófico a nível mundial que poderia ter parado a banda por completo, fazendo-nos reequacionar a coisa toda. De alguma forma as coisas correram-nos bem. Depois, em 2021, as pessoas voltaram a das espectáculos e, de algum modo, isso também deu certo para nós. Chegámos aos ouvidos do Peanut Butter Wolf e…
Eu queria perguntar-vos precisamente sobre isso. Foram vocês que foram lá bater-lhe à porta, na Stones Throw, ou foi um processo mais digital?
[JP] Creio que através de amigos em comum. O nosso amigo Shags, que misturou os últimos dois discos, trabalha para a Stone Throw ocasionalmente. Ele é bastante próximo do Chris [Peanut Butter Wolf]. Mas provavelmente há outros factores. Eu já estava, de algum modo, na órbita dele, porque toquei teclas numa banda chamada Mild High Club em 2021. Não sei. Diria que houve uma data de coisas meio que conspiraram para nos colocar debaixo do radar. Nós sempre quisemos conquistar a atenção deles, isso é garantido, porque somos fascinados pela Stones Throw desde que descobrimos o catálogo deles. Isso foi ainda em França. Lembro-me de ouvir o Mayer Hawthorne em 2013/2014. Depois veio Mild High Club, que me causou um choque imenso ao nível da estética. Nós conhecemo-los em 2017 num dos nossos primeiros espectáculos na Flórida. Lembro-me que ficámos muito eufóricos. Depois descobrimos o resto do catálogo deles, das coisas mais antigas, que são incríveis.
Eu tenho uma secção inteira dedicada à Stones Throw na minha colecção. Sou um grande, grande fã. Eu não sei se eles lá no escritório têm um grande quadro na parede com uma lista de “tudo o que uma banda precisa de ter para estar na Stones Throw”, mas, se houver, vocês devem preencher todos os parâmetros. Vocês misturam todos os ingredientes necessários para que gente como o Peanut Butter Wolf não deixe de reparar em vocês.
[JP] Tínhamos essa esperança [risos].
[JPD] Mas não sei. Ainda assim…
[JP] Demorou algum tempo, sim. Demorou até eles repararem em nós. Não foi assim muito tempo. Nós mudámo-nos para L.A. e o nosso primeiro concerto após a pandemia foi através de uma amiga que também conhece o Chris e o resto da Stones Throw. Ela insistiu muito para que eles lá fossem ver-nos, porque sabia que eles iriam gostar.
[JPD] Sim. Eu acho que eles também estavam à espera para nos ver tocar ao vivo.
[JP] Isso é verdade. Foi importante eles verem-nos tocar. E eu acho que nenhuma editora deveria contratar uma banda sem antes a ver tocar ao vivo [risos]. Se existe o objectivo de mandar a banda em digressão, isso faz sentido.
Já iremos conversar sobre o formato da banda ao vivo mais para o fim da entrevista. Falem-me da Lætitia Sadier. Os Stereolab são uma das minhas bandas favoritas. Também estou a reparar na tua t-shit dos Broadcast e eu ainda agora comprei as últimas reedições deles, porque também os adoro. Eu vi os Stereolab actuarem há alguns anos no Primavera Sound e eles continuam maravilhosos. Também sou um grande fã dos álbuns a solo que a Lætitia lançou pela Drag City. Como é que vocês chegaram até ela para uma colaborarem juntos?
[JPD] É engraçado mencionares a t-shirt que o Joachim traz vestida. Ele veste sempre t-shirts das bandas mais cool [risos]. Essa é a forma que ele tem para fazer amigos.
[JP] Pois é. Eu vou assistir a espectáculos com estas t-shirts e elas acabam por motivar as pessoas a meter conversa comigo.
Dá-me um par de exemplos.
[JP] Isso começou a acontecer no liceu. Foi assim que conheci um dos meus melhores amigos de sempre, que acabou por se tornar num colaborador musical nos anos que se seguiram. Tudo porque eu estava a usar uma t-shirt que ele reconheceu instantaneamente. “Hey!” Nessa altura ele estava a usar uma t-shirt da CBGB e eu estava embrenhado na cena do punk rock. Eu era adolescente e, ao ver aquilo, “vamos fazer música!” [Risos] Quando és mais novo é tão fácil fazer amigos, mas eu nunca deixei totalmente de ter essa habilidade, porque sempre continuei a ser um fanboy que usa t-shirts com nomes de bandas ao longo de toda a vida. A segunda vez que isso aconteceu foi quando conheci a Lætitia. Eu fui a um dos concertos do Source Ensemble dela — apesar de ter banda, é um projecto a solo dela. O baterista da banda, Mario — que também produz sob o alter-ego Astrobal; ele é um óptimo produtor e faz música maravilhosa —, foi quem reparou em mim entre a multidão. Ele disse: “Uau! Que t-shirt espantosa. Vamos falar desse álbum.” Eu estava a usar uma t-shirt de White Noise, não sei se conheces.
Claro que sim. Da Delia Derbyshire.
[JP] Isso mesmo. Eles têm um dos meus álbuns favoritos de sempre e eu tenho a certeza que foi um disco que ajudou una formação da Lætitia.
[JPD] Foi, de certeza.
[JP] E foi isso. Nós começámos a falar com ele e entretanto: “Espera! Tenho de te apresentar à Lætitia! Ela vai amar o facto de estares com isso vestido.” Falámos muito por alto nessa noite e, mais tarde, eu estava a ajudar na organização de um festival em Paris, em 2018, e queríamos um cabeça-de-cartaz. Pensei logo no Source Ensemble e tentei agendar esse projecto da Lætitia através da ligação que já tinha com o baterista dela. Ele disse-me: “É pena, porque o nosso baixista, Xavi, é de Espanha e ele nesse Verão já vai estar ocupado e não pode fazer o concerto.” Por falar nisso, creio que o Xavi hoje em dia é o baixista dos Stereolab. Mas lembro-me de pensar para mim: “Talvez pudessemos desafiar a Lætitia a fazer uma cena a solo, caso ela esteja interessada.” O Emmanuel Mario disse: “Não custa perguntar. Quem sabe ela até está afim.” Ele colocou-me em contacto directo com ela e começámos a falar dessa possibilidade dela tocar no festival. Isso acabou por acontecer e ela tocou na primeira edição do Ostreoid Festival — o festival teve duas edições. Foi aí que nós nos conhecemos melhor e ficámos em contacto. Eu acho que ela gostou genuinamente da música que nos ouviu tocar nessa noite.
[JPD] Essa noite foi muito fixe.
[JP] Sim. Eu acho que ela se divertiu. E mantivemos o contacto. Em 2019 vimos Stereolab ao vivo por duas vezes. Estávamos em Paris quando eles tocaram lá e, depois, quando regressámos aos EUA, eles iam tocar em Atlanta na mesma semana em que nós tínhamos sido convidados para um programa da Adult Swim. Então estávamos com esperança de conseguir fazer as duas coisas. Contactei-a, ela meteu-nos na lista de convidados. Foi muito simpática. Continuámos a falar e, quando chegou a altura de fazer o Coast 2 Coast, eu e a Juliette pensámos: “O que seria realmente fantástico era ter a Lætitia a cantar aqui.” Quando lhe perguntámos, ela aceitou. Sentimo-nos muito honrados, mas ao mesmo tempo também nos sentimos incrivelmente sortudos por ela ter aceite a ideia. E isso significou muito para nós, porque nós adoramos Stereolab, adoramos a música dela, e também porque a trajectória dela, enquanto artista repatriada… O facto de ela se ter mudado para o Reino Unido é muito idêntico à nossa história, e isso significa muito, é uma grande influência para nós. Não sei. Sabe-nos a um grande momento, a uma grande conquista.
Muito bem. E o que mais me podem dizer acerca dos restantes convidados do disco?
[JP] Ele são tantos [risos].
[JPD] Temos alguns solos…
[JP] Pois é. O Alex Brettin, de Mild High Club, fez um par de solos de guitarra que estão bastante… Eu diria espantosos! E é engraçado, porque eles surgiram tarde no disco, mas trouxeram algo tão fixe a cada uma das duas faixas. Ele é um cientista da guitarra. É um génio dos sons de guitarra. Não conheço muita gente com um som tão único como o dele. Quem mais temos?
[JPD] Temos o Dent May.
[JP] O Dent May é um amigo nosso que também tocou um pouco de guitarra e cantou. Ele é um amigo bastante chegado e foi muito bom trabalhar com ele.
Como é que vocês geriram todo esse processo? Tiveram de alugar um estúdio ou isto parte de gravações caseiras?
[JP] Eu diria que foi maioritariamente feito em casa, excepto, talvez, as baterias. Alguns overdubs foram feitos em estúdio. Fizemos coisas no estúdio do Dent, em L.A., chamado Honeymoon Suite. Mas fizemos a maior parte do trabalho em casa.
[JPD] Quando vivíamos na Flórida tínhamos o hábito de… Não sei se reparaste, mas nos nossos discos anteriores tínhamos muitos convidados, em especial no Flowerland. Nós éramos super-colaborativo e fomos ganhando este hábito de gravar os nossos amigos e colaboradores à distância. Nós pedimos por certas partes e eles enviam-nos, para nós as integrarmos nos álbuns. Nós continuámos a fazer isso. Portanto, quando veio o confinamento… O nosso processo já era este, de qualquer das formas. O meu pai, por exemplo, é vibrafonista e gravou algumas coisas a partir do apartamento dele em Paris, enquanto nós estávamos em Los Angeles. Temos um amigo harpista na Flórida que também nos mandou uma pista muito bonita e que integrámos no disco. Nós também temos experiências em estúdio, em que convidamos malta para vir tocar, maioritariamente baterias.
[JP] Diria que neste álbum as colaborações aconteceram mais fisicamente, por estranho que pareça.
[JPD] Talvez…
[JP] Em discos anteriores, por estarmos na Flórida, não tínhamos ninguém por lá além dos nossos amigos locais. Não sei. Parecia uma cena mais natural, pedir a pessoas mais distantes para nos enviarem overdubs. Quando chegámos a L.A., mesmo apesar da pandemia, muito rapidamente demos por nós em estúdios, de máscaras postas, a gravar baterias e assim. Parece estranho, mas muitas das colaborações deste disco aconteceram em pessoa. Mais do que é habitual, pelo menos.
Quando estava a ouvir o vosso novo álbum, pude encontrar alguns paralelismos com experiências que têm sido feitas no lado mais criativo da pop portuguesa. Uma cantora chamada Margarida Campelo, com quem falei recentemente, diria que partilha algumas das mesmas referências que vocês. Ela utilizou esta expressão — “Eu perdi a minha vergonha” — para se referir à música em que estava interessada — do yacht rock ao smooth jazz, o r&b dos anos 90… Parece que há um movimento internacional de pessoas que estão a produzir música que, provavelmente há alguns anos atrás, seria visto como não cool, e que nos dias de hoje soa a algo realmente cool. Vocês conseguem indentificar-se com isso?
[JPD] Sim. Totalmente [risos]. Nós chegámos a dizer um ao outro: “Uau! Este é o nosso momento!” Isto porque aquilo que nós queremos fazer é algo que é apreciado.
[JP] É isso. Existe um elemento zeitgeist. Demorou uns 10 anos, mas a música que nós realmente amamos fazer… Não é a cena mais pop do mundo, mas há de facto um largo interesse por parte da malta que compra discos.
[JPD] E é como tu dizes: já não é vergonha nenhuma fazer isto, é uma coisa fixe.
[JP] Houve realmente um ponto de viragem. Especialmente connosco, eu lembro-me de estar em França a tentar convencer toda a gente que a música brasileira era demasiado valiosa para cair naquele clichê da “música de elevador”. Grande parte dos meus amigos mais chegados que também eram músicos, eles não conseguiam gostar disso. Lembro-me de estarmos na universidade e adorarmos bossa nova, aqueles discos brasileiros dos anos 70. Essas cenas não eram vistas como algo cool. Demorou um tempo até isso cair nas graças dos miúdos, que basicamente são quem dita as tendências.
[JPD] E mesmo a cena de integrar acordes de jazz nas nossas canções pop. Em França fazíamos isso e todos os jornalistas diziam: “Isto é música para músicos. Não é acessível.” Não sei. Parecia que não valia a pena promover. Isto foi há uns 12 anos. O cenário era muito diferente nessa altura.
[JP] É por isso que descobrir o Alex e os Mild High Club, naquela altura… Nós mudámo-nos para os States quando já existia o Mac DeMarco, Vulfpeck… Todos os miúdos já estavam interessados nos acordes de jazz, no funk e no r&b. Isso já era fixe num contexto de música indie, de indie-pop. Era uma cena grande.
[JPD] Mas recorda-me como se chama essa artista de que falaste.
Se calhar é mais fácil eu pegar num par de links para vos enviar.
[JPD] É isso. Obrigado. Nós temos falado sobre isso e eu costumo chamar-lhe de “revolta dos nerds” [risos]. Dos nerds do jazz.
[JP] Ao longo de muito tempo, na música pop, as bandas não tinham formação em escolas de música. As pessoas obtinham a sua formação fora das escolas de arte. Eram as pessoas que tinham as ideias fixes para o rock ou para a pop. Durante muitos anos as coisas funcionavam assim. Agora começamos a ver esta tendência de bandas fixes e malucas a surgir das escolas de música. É uma coisa nova. Na cena de L.A. há muita malta que vem do departamento de jazz da Universidade do Sul da Califórnia, como o Louis Cole e assim. É engraçado que eles venham de uma escola de jazz e não de uma escola de artes, porque têm toda aquela dupla linguagem — é meme music, com muito humor, mas com ideias muito interessantes. Ao mesmo tempo, é música sofisticada e sábia. Isso é muito interessante para nós, porque andamos a alimentar-nos da música pop dos anos 70 que, provavelmente, não tinha a mesma riqueza ao nível do jazz. Só que o nosso amor pelo jazz e pela música brasileira, pelos acordes e harmonias no geral… Ambos estudámos muito isso. Eu estudei composição enquanto estava em Paris. Nós sonhamos uma música pop que é muito elaborada e, ao mesmo tempo, cativante e intemporal.
Se é isso que vocês sonham, estão a conseguir cumprir. Está a funcionar. Para terminar, digam-me: como é que isto se resolve em cima de um palco? Que tipo de banda montaram?
[JP] É interessante, porque a banda que temos actualmente é formada por pessoal que vem mais da cena DIY da indie-pop mais underground e estranha na Flórida. O nosso baterista, Ben Varian, faz música maravilhosa e não é um músico com formação clássica. Mas é um baterista fantástico e tem o seu próprio estilo, que nós adoramos. Já o nosso guitarrista estudou Guitarra Jazz na faculdade. O baixista anda ali pelo meio. Ele basicamente cresceu a tocar rock, mas entretanto passou para o funk começou a fazer algumas manobras mais arrojadas no baixo [risos]. A nossa banda ao vivo é um encontro entre dois mundos, o do DIY e o dos músicos com formação. Tem sido muito fixe. Somos um quinteto.
Têm concertos agendados para a Europa?
[JP] Temos sim. Infelizmente não temos nada em Portugal. Eu adorava. E nós até pedimos para tocar em Portugal. Eu tenho família em Espanha e também não conseguimos concertos para lá. Vamos tocar maioritariamente em França e Reino Unido.