Se há algo que Gildas Loaëc e Masaya Kuroki sabem fazer, e bem, é o scouting de novos talentos para editarem através da sua Kitsuné Music, editora francesa, sediada em Paris, que desde o ano de 2002 tem estado na linha da frente de tudo o que esteja ligado a música eletrónica distinta, com um toque pop, ou pura martelada 4/4. Achamos por bem começar esta história por aqui, pois foi através da Kitsuné que a banda de Louie Swain, Patrick Hetherington, Noah Hill, Jules Cromellin e Anatole Serret começou a ganhar alguma notoriedade a nível mundial. E que banda é essa? Os Parcels, claro!
Cinco rapazes australianos com uma enorme paixão por música — seja ela funk, disco, folk, rock ou bluegrass — formam o grupo em 2014. Com fome de crescerem e se expandirem, partem rumo a Berlim, após terem visto um vídeo no Youtube da banda do norueguês Erlend Øye, os The Whitest Boy Alive, a darem um concerto junto a uma janela de uma loja em Mitte na Alemanha.
O sucesso não bateu logo à porta, mas não tardou por chegar, e muito graças ao facto de Gildas e Masaya apostarem na banda após o lançamento independente do EP Clockscared. Seguiram-se uma carrada de singles que acabaram por levar os Parcels a Paris para um concerto no bar Les Bains, que por acaso contou com a presença no público de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo — esses mesmos, os Daft Punk. Em 2017, os Parcels estavam em estúdio com a afamada dupla francesa para gravar o single “Overnight”. A partir daí, a carreira dos cinco rapazes de Byron Bay ficou definitivamente consolidada. Dois álbuns de originais, Parcels e Day/Night, dois álbuns ao vivo, Live Vol. 1 e Live Vol. 2, dois EP’s, Clockscared e Hideout, uma lista extensa de faixas avulso e concertos um pouco por todo o mundo.
Eis que os Parcels regressam pela quarta vez a Portugal para um terceiro concerto em Lisboa, no festival NOS Alive [decorrido no passado dia 11 de Julho]. Um retorno muito aguardado pelos fãs e festivaleiros desde que assinaram um concerto apoteótico na edição de 2022 do festival. E foi precisamente antes desse concerto que trocámos umas palavras com o baterista e membro da banda, Anatole Serret, enquanto seguiam a caminho de Cascais para uma tarde de relaxamento junto à praia antes de tomarem conta do Palco Heineken. Uma conversa introspetiva sobre o passado e o presente dos Parcels, futuros lançamentos, as memórias do último concerto em Lisboa e outras curiosidades para ficarem a conhecer nesta pequena entrevista para o Rimas e Batidas.
Em primeiro lugar, bem-vindos de volta. Já passaram dois anos desde o vosso último concerto em Portugal e, curiosamente, o vosso regresso é na mesma cidade, no mesmo festival, no mesmo palco…
E estamos a tocar quase à mesma hora! [Risos] Nada mudou.
Vocês lembram-se da última vez que estiveram aqui? Ficaram com boas recordações do último concerto?
Sim, sem dúvida. Foi um concerto incrível. Na verdade, tocámos um pouco mais tarde da última vez, lembro-me que subimos ao palco por volta das 01:00 da manhã ou algo assim, e foi simplesmente fantástico, o concerto foi incrível… O Caribou ia tocar depois de nós, e ele esteve na lateral do palco a assistir ao nosso concerto, e lembro-me de ter ficado um pouco vaidoso por ele nos estar a ver. Foi um momento realmente memorável no NOS Alive, da última vez.
Já que falaste no Caribou, que é um DJ e produtor electrónico bem conhecido: vocês têm feito um espectáculo ao vivo mais orientado para o ambiente clubbing, principalmente em festivais, e parece-me que vocês refizeram o vosso alinhamento de modo a ser mais fluido, contínuo, quase como um set de DJ, certo?
Sim, fizemos! Hum… Agora, nesta tour, estamos a voltar mais a um espectáculo pop, mas ainda há alguns momentos de dança, mas… Sim, estamos a trabalhar num novo álbum, por isso estamos a testar algumas novas músicas ao vivo e, honestamente, estamos a afastar-nos novamente do tal set mais club — isso terá sido apenas um momento da última tour e do Live Vol. 2.
Então, o vosso álbum Live Vol. 2 foi uma espécie de término desse ciclo?
Um pouco, sim. Definitivamente!
Relativamente ao novo álbum de Parcels, recentemente vocês fizeram upload de um vídeo do vosso concerto em Red Rocks, no Colorado, EUA — local incrível, nunca tinha visto nada assim — e vocês estrearam uma nova música chamada “Ifyoucall”, correto?
Sim! Oh, uau… [parece surpreendido] Sim, a “Ifyoucall” foi a que ficou mais fácil de tocar ao vivo, e definitivamente estará num novo lançamento. Hum… O que mais queres saber? Que eu possa contar, claro! [Risos]
Vamos lá… [Risos] Mas a sério, depois de ouvir a “Ifyoucall” não pude deixar de sentir uma certa nostalgia e notar alguma reminiscência daquele som mais antigo dos Parcels, da época em que lançaram na Kitsuné Music; mas também notei algumas semelhanças com um vídeo que vi uma vez de uma banda chamada Lifeline, não sei se será uma observação justa ou não…
Lifeline?! Sim…
Vocês tinham uma vibe bastante diferente na altura, não é nada fácil de descrever — talvez porque nem todos vocês faziam parte dos Lifeline na altura…
Sim. Olha, estamos definitivamente a voltar ao início dos Parcels, no sentido em que estamos atraídos a… Como já dissemos algumas vezes: “Uau! Isto soa a eles [aos Parcels em início de carreira].“ Há uma espécie de energia juvenil na banda neste momento, e sim, sentimos que estamos bastante revigorados. E tivemos um ano sem tour no ano passado, por isso acho que todos tivemos algum tempo para viver um pouco a vida. E sim, o som está definitivamente… Estamos a voltar à frescura e energia que tínhamos quando começámos a banda, por isso… Bem visto por teres notado isso, porque sim, temos definitivamente estado a falar sobre isso também!
Seria justo dizer que vocês começaram a cansar-se da sonoridade mais club, da formatação dance/techno de construir algumas das faixas, e começaram a abrandar e a optar por um som mais groovy e descontraído?
Acho que estamos sempre a mudar. É como se tivéssemos de fazer um check-up uns aos outros de vez em quando: “Como está o ambiente no momento? Hum… Vamos seguir isso!” Não queremos ficar parados!
Consideram-se uma banda em constante evolução? Os Parcels estão sempre a evoluir, a mudar, mas…
Digamos que… Sim, mas ao mesmo tempo é sempre o mesmo! [Risos]
Oh sim, claro [risos]. A essência mantém-se sempre a mesma! Numa nota mais técnica, quando vocês estão a criar novas músicas, costumam começar a tocar no estúdio e ver o que surge, o que pode ser usado dessas sessões de jam? Ou é mais do tipo, alguém tem uma ideia de uma melodia ou groove e depois começam por colocá-la num piano ou numa guitarra… Como costuma começar o processo?
Hum… A composição definitivamente começa com o Jules ou o Pat, e depois… Este álbum tem sido realmente interessante de fazer porque é a primeira vez que fazemos as coisas de forma um pouco diferente. Alguns dos rapazes juntaram-se só para escrever e compor, e depois reunimos-nos todos no México — é o álbum em que estivemos menos tempo juntos [para o fazer], diria eu. Quando estamos juntos, focamo-nos mais em captar gravações ao vivo, e depois meio que saltamos a parte da edição quando estamos todos juntos, porque é um pouco desnecessário estarem cinco pessoas no estúdio a ver uma pessoa a trabalhar no computador. Percebes o que quero dizer?
Totalmente.
Estamos a dividir-nos mais, e a pensar: “Ok… Tu vais para aqui, eu vou para ali.” Sim, tem sido mais assim.
Work smarter, not harder? [Risos] Podes falar um pouco mais sobre o novo álbum em que estão a trabalhar? Ou pelo menos sobre os planos para a “Ifyoucall”. Vai ser um single? Ou vão começar com um EP ou algo assim?
Ainda não decidimos os singles! Estamos a levar o nosso tempo… Nada está terminado, não mixámos nada ainda… Mas já temos bastantes músicas, e depois desta tour voltaremos ao estúdio e, com sorte, acabamos [o disco].
Então a versão da “Ifyoucall” que tocaram recentemente ainda pode mudar um pouco.
Sabes que mais? Já mudou um bocado, em relação à gravação [do concerto em Red Rocks]! [Risos]
Isso é que foi rapidez! [Risos] Só por curiosidade, que artistas vocês estão a seguir mais de momento? Já que mudaram um pouco a vossa sonoridade, o feeling no geral, digamos.
Hum… Para ser honesto, não oiço música pop faz um bom tempo — eu pessoalmente. Tenho ouvido umas coisas estranhas de momento… Mas sabes qual foi o último álbum que gostei realmente? Foi o álbum da Caroline Polachek — já tem alguns anos. Tenho ouvido também algum rap britânico… Deixa-me ver o que tenho ouvido recentemente. [Anatole vê as suas playlists no Spotify] Tenho ouvido muita música de dança!
Não fico nada surpreendido, porque vi algumas das vossas playlists no Spotify e as músicas que escolheram são muito versáteis, mesmo dentro da música de dança. Tens nomes como Sound Stream, Ian Pooley… É como uma viagem completa, do techno ao disco, mas também algum trance… Quase que consigo sentir algumas das influências subtis em algumas das vossas faixas como a “EDM” [renomeada “Ascend”] e “Transcendental” [renomeada “Trascend”]. A propósito disso: planeiam no futuro lançar oficialmente essas faixas?!
É disso que se trata o Live Vol. 2! [Risos]
Sim [risos]. Estava apenas curioso porque os nomes são diferentes e ainda tinha esperança em ouvir uma versão de estúdio.
Sim. A “EDM” está no Live Vol. 2, só que está com um nome diferente — mudámos o nome porque “EDM” é um nome bastante mau [risos].
Por outro lado, a mudança de nome de “Lordhenry” para “Lordhenessy” foi um grande trocadilho — honestamente fez todo o sentido para a vibe do “remix”.
Sim! [Risos]
Tens algo que gostasses de partilhar sobre o concerto de hoje no NOS Alive? Têm algo especial preparado, alguma coisa nova a caminho?
Ohhhh… Acho que todos chegámos ao backstage esta manhã, ao meio-dia, e todos olhámos à volta e pensámos: “Oh meu deus… Este lugar?!” Tipo… Acho que todos temos uma memória muito especial deste festival, por isso… Às vezes pergunto-me como será o nosso concerto. Mas acho que este vai ser muito divertido! Acho que algumas pessoas que estavam aqui há alguns anos [vão voltar] e acho que vai ser um estouro!
Além de seres baterista dos Parcels, sei que também és DJ e produtor, e geres uma editora, Hydrangea Records. Como consegues separar os dois projectos? Fica difícil por vezes?
Hum… De momento é mais, tipo, a banda vem primeiro. Foi realmente uma forma de fazer algo no ano que tivemos sem fazer tour, por isso foi algo divertido de fazer. Mas agora estamos de volta à tour e à banda. A banda tornou-se novamente o meu foco.
Deixa-me dizer que vocês são uma banda difícil de fazer perguntas pertinentes e diferentes. Além disso, devem estar um pouco cansados de vos fazerem sempre as mesmas perguntas, especialmente sobre os Daft Punk e a vossa colaboração — vi muitas das vossas sessões de Q&A no Discord e Reddit, por isso sei da quantidade de perguntas repetidas com que vocês já foram “bombardeados”. Mas há uma pergunta que preciso de fazer, embora possa já ter sido feita antes, ainda assim me deixa um pouco curioso. Qual é a razão de não usarem espaços nos nomes das vossas faixas? É porque passam tanto tempo a trabalhar nas vossas músicas e a aperfeiçoar a vossa arte, que já nem se querem dar ao trabalho de pressionar a barra de espaço do teclado?
[Risos] Hum… Originalmente, a barra de espaço estava avariada, quando fizemos o primeiro EP, por isso… Mantivemos assim! Mas gosto de pensar que há um significado mais profundo, ou algo como quando juntas duas palavras e crias uma nova palavra, com uma nova personalidade e um novo significado, percebes o que quero dizer? Mas sim, é mais do que uma barra de espaço avariada, embora possa ser apenas uma barra de espaço avariada! [Risos]
Como definirias os Parcels, de momento, em três ou quatro palavras?
Hum… Três ou quatro palavras?
Ou cinco!
Acho que estamos num momento muito bom. Há, de momento, uma espécie de energia na banda… É como se a banda sempre tivesse sido prioridade na vida de todos, percebes? Todos sempre colocaram a banda em primeiro lugar. E talvez agora seja a primeira vez que estamos, tipo: “Ok, passaram dez anos… Ainda estamos todos aqui, todos nós ainda amamos o projeto!” Há uma espécie de tranquilidade, uma certa paz na banda de momento, que é tipo: “Ninguém vai a lado nenhum! A banda sobreviveu a grandes dificuldades, estamos todos aqui e ainda gostamos de aqui estar.” Por isso, há uma mudança de atitude, tipo: “Vai ficar tudo bem!” Percebes?! Embora sempre tenha sido assim, mas era algo como: “A banda tem de vir primeiro!” E agora é tipo: “A banda vem primeiro mas…” Não sei… Não sei como descrever, mas há muito amor entre nós ainda. Talvez estejamos a amadurecer, não musicalmente mas…
Pessoalmente?
Sim, pessoalmente! E a nossa relação uns com os outros, é tipo… Estamos a tornar-nos… Bem, estamos a envelhecer, a crescer!
Portanto sentem-se bem com vocês mesmo, e sentem que estão na banda mas ao mesmo tempo podem seguir e ter as vossas próprias aventuras a solo sem aquela pressão adicional?
Talvez… Sim, com menos pressão, um pouco. É como se fosse um dado adquirido agora, por isso é tipo: “Adoramos isto!” Todos adoram isto.
Vou ser honesto: estava à espera que tivesses um deslize pelo meio e dissesses uma frase ou um nome relacionado com o futuro álbum, nas tais “quatro ou cinco palavras”.
Ohhh… Vou dar-te essas quatro palavras: “Leave Your Love”!
Muito obrigado Anatole pelo teu tempo, e envia o meu amor aos outros rapazes! Mal posso esperar para vos ver esta noite! Boa sorte e aproveitem o sol e a praia de Cascais!
Obrigado por falares comigo, amigo. Tem um bom dia!