LP / CD / Cassete / Digital

Oklou

choke enough

Because Music / 2025

Texto de Filipe Costa

Publicado a: 26/02/2025

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Em 2012, o produtor italiano Lorenzo Senni introduziu o termo “trance pontilhista” para descrever os padrões de sintetizadores que sustentavam a teia cirúrgica de arpejos de Quantum Jelly, a irrequieta e inventiva estreia do produtor italiano pela Editions Mego (do malogrado Peter Rehberg). A filosofia pegou e, nos anos consequentes, uma nova geração de músicos e produtores adotava essas mesmas bases conceptuais para conceber novas paisagens sintéticas, inspiradas pelas limitações auto-impostas que marcaram a música de dança na transição para o novo milénio. Mais de uma década depois, a estética pontilhista continua a servir o princípio orientador de um contínuo representado por Gábor Lázár, Beatrice Dillon e Rian Treanor.

Marylou Mayniel, francesa que o mundo conheceu por Oklou (lê-se “ok, Lou”), estudou de perto as pegadas deixadas por estes signatários, transportando-as para um quadro pop poroso em que as reconfigurações trance de Senni se desdobram em padrões circulares de eletrónica liquefeita. Foi isso que fez ao longo da última década, lançando vários trabalhos avulsos e de curta duração, alguns sob a égide do colectivo NUXXE, de Coucou Chloe, Sega Bodega e Shygirl, antes de partir para o R&B lúbrico de Galore, o primeiro registo longo da cantora e produtora de Poitiers. Remisturas para Dua Lipa e Caroline Polachek, mais tarde, viriam a cimentar a sua posição enquanto caso sério — ainda que marginal — da pop contemporânea. 

No seu primeiro álbum de estúdio, Oklou reúne os talentos de A.G. Cook, Danny L. Harle e Underscores para um registo que vai muito além das credenciais hyperpop. Resgatando a euforia da pista de dança para a intimidade do quarto, choke enough afirma-se como um bálsamo necessário para a geração terminalmente online. É música para escutar de olhos fechados e ouvidos bem abertos, entoada com a delicadeza de um anjo a sussurrar. Fosse Oklou um rio e quase poderíamos jurar ter ouvido a sua voz no murmúrio da corrente. 

A faixa titular é exemplo da herança pontilhista de Senni, aplicando a mesma precisão cirúrgica do italiano ao serviço de uma canção reduzida à essência de um refrão, sem caprichos ou subterfúgios maneiristas. “take me by the hand” é igualmente orgânica e sintética, navegando entre o compasso bifásico do garage e a emoção congelada de Bladee (mais um dos expoentes da produção pontilhista). As letras não são nem profundas, nem profundamente vazias, com voz da francesa a funcionar mais como instrumento do que como veículo de expressão pessoal. A bateria é muda e as teclas elípticas e tonais. 

“thank you for recording” é uma polifonia de flautas, vozes e clarinetes digitalizados, sempre em busca da elevação. Da melodia sibilante de um trompete, escutada nos primeiros metros de “ict”, esculpe-se uma catedral barroca em estado de sublimação: três minutos entre o êxtase e a emoção incontida, impulsionados pelo gáudio irrefreável de uma petiz a cantarolar. Quando chegamos à pop sem máculas de “blade bird”, redução purificada em balada acústica, já a nebulosa de texturas e subgraves foi totalmente dissipada, resguardando-se entre as fissuras de um tempo sem pressa. 


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