É com agudo sentido de humor que João Nuno Teixeira Vilaça (bateria), Gonçalo Cravinho Lopes (baixo), Francisco Carneiro (teclados, produção) e Tomás Alvarenga (teclados) marcam o arranque de Oceano-Mar, expondo uma colagem de uma série de excertos de locução de rádio com diferentes apresentadores – e a voz de Henrique Amaro, da Antena 3, é imediatamente reconhecível – a procurarem resolver o óbvio problema da correcta enunciação da palavra que os bracarenses escolheram como nome: OCENPSIEA. Na verdade, esclarecem-nos os próprios, trata-se de um acrónimo que significa “Oh Chefe Eu Não Pedi Sumol Isto É Água”, que é, de resto, a letra que Mafalda BS canta “delicadamente” (o advérbio é do grupo e consta das notas de capa da edição caseira em CD).
Para lá – muito para lá, aliás… – do toque de humor absurdo que se revela no nome e que se estende a alguns títulos (“Tens Fome, Come Um Home”, “Já Zé?”, “Goucha’s Eleven”), está, no entanto, a musicalidade do grupo que se revela, deve sublinhar-se, logo na faixa de abertura, “Isto é Água”: na segunda parte do tema, quando Mafalda BS resolve o enigma do nome, depois de uma mudança de cadência e de texturas, percebe-se que há um claro sentido lúdico e exploratório na ideia musical que o grupo reclama como sua. Uma ideia que lhes permite cruzar hip hop e jazz, electrónica e algo mais num estimulante edifício de sons, grooves, melodias e harmonias que se apresenta com sólida construção e engenhosa arquitectura.
Os OCENPSIEA recrutam alguns aliados para a sua aventura “cómico-marítima”: PZ adorna com a sua hipnótica dolência o tema “Bicho Mau”; Diogo Abreu e Luís Araújo cedem as suas guitarras a “Dança Teixeira”, o mesmo tema em que surgem ainda Henrique Ramos com vibrafone e Simão Duque com trompete; José Pedro Coelho, nome firmado da nossa cena jazz, faz soar o seu saxofone em “Já Zé”; David Bruno investe, como é sua marca registada, pelo lado mais kitsch da nossa cultura em “Goucha’s Eleven”; e, finalmente, Gileno Santana trompetiza como quer e sabe a “Utopia” que remata este álbum.
A secção rítmica é elemento fundamental na sonoridade dos OCENPSIEA e talvez esse estatuto seja exposto de forma mais clara em “Dança Teixeira”, tema que o grupo explica ter inspiração africana, mas que, em toda a sua gloriosa brevidade, deixa claro que é uma mais abstracta noção de ritmo – que pode surgir mais escaldante ou, pelo contrário, feito de leves brisas…. – que lhes serve de principal propósito, uma qualidade que podem ter herdado do óbvio amor que sentem pelo hip hop e que se se sente na forma como estruturam os temas e também na gestão dos diferentes elementos musicais.
Há, aliás, uma vénia clara a Mac Miller, com a voz do malogrado rapper a fazer-se ouvir em “Catch-22”, quando explica, no concerto que deu em Portugal em 2016, as qualidades curativas da música, uma cultura universal. Por baixo da voz de Miller, há uma bateria que se apressa, um baixo de inventiva sinuosidade e camadas e camadas de textura melódica fornecidas pelos teclados, sempre dispostos em exuberante filigrana.
Aproximando-se bastante da estética JazzNãoJazzPt explorada por bandas como YAKUZA, Bardino ou Mazarin, os OCENPSIEA trazem consigo a originalidade de uma leveza descomprometida que, no entanto, nunca os faz perderem o norte da assertividade musical, aditivando cada um dos seus temas com argumentos de musicalidade pura capazes de entusiasmar com a promessa de soluções musicais inesperadas em cada esquina dos diferentes arranjos. É o que acontece, por exemplo, em “Oceanografia”, com o piano acústico a expor uma coda melódica que se entrelaça de forma bastante fluída com a bateria, antes de uma injecção de electricidade no piano nos atirar para o lado mais cromaticamente explosivo do fundo do mar, soando o tema como a banda sonora de um filme que explora a exótica beleza doas recifes de coral, carregados de vida multi-colorida.
O tema final, “Utopia”, é talvez o que mais promete e que, eventualmente, mais projecta o futuro do grupo, retendo a tal exuberância rítmica que os caracteriza, mas extraindo da colaboração de Gileno Santana uma tangente mais nítida à cena jazz, com um improviso que os coloca em órbita, quase assomando a território “quarto-mundista” como o que em tempos foi mapeado pelo recentemente malogrado Jon Hassell. Uma pequena maravilha que serve de perfeito remate a um disco que é uma surpresa mais do que agradável e muito bem-vinda.