Com começo a dia 1 de Novembro em Montemor-o-Velho, onde permanece até dia 3 para depois marcar passagens por Castelo de Paiva (dia 4), por Mondim de Basto (dia 5), com dois dias (6 e 7) em Paredes de Coura, depois em Arcos de Valdevez (dia 8) e até terminar na dupla presença em Caminha (dias 9 e 10). Assim, de terra em terra, em territórios de menor densidade populacional, reprogramando palcos em espaços com agenda cultural menos regular. Tem sido, e volta a ser, este o mote maior da existência do Space Festival contribuindo para uma mostra efectiva da música experimental e improvisada, contemporânea, inovadora em linguagens de cruzamentos inéditos, proporcionando primeiros encontros tanto entre músicos como entre estes e novos públicos. Com uma organização da Rock’n’Cave e do Space Ensemble, a edição de 2024 apresenta um cartaz feito de várias estreias e novidades.
O arrebatador Teatro Esther de Carvalho (TEC) — um dos mais pequenos e funcionais teatros em actividade do mundo — volta a ser o centro de actividade durante a permanência do Space Festival’24 em Montemor-o-Velho. Dia 1 às 21h30 haverá um rio criativo entre a voz e as electrónicas de Dullmea — alter-ego de Sofia Fernandes —, ao encontro num espaço ainda por revelar. Quando forem 23h, sobe ao palco do TEC a dupla formada por Miguel Pedro e Jorge Coelho. Dois labutadores e pesquisadores do som através das suas muitas vidas na música portuguesa das últimas décadas. Aqui chegados, entre electrónicas e guitarras, tornam imprevisível o ambiente que surgirá e que contará com Constança Soutinho na vertente visual do espectáculo. Para Miguel Pedro a sua nova guitarra “chama-se mesmo assim, chaos guitar” — “Uma guitarra estranhíssima que me apareceu nas mãos e me deu para fazer isso. E eu ando com ela ao vivo. É uma coisa cheia de feedbacks, uma coisa difícil de controlar, então cada concerto é sempre diferente. Aquilo é praticamente incontrolável”, como referiu em entrevista para o Rimas e Batidas a propósito de Sonofobia, disco que estará na base deste concerto.
Dia 2 às 17h30 no TEC, encontro marcado para o audiovisual de Boris Chimp 504, a dupla de Miguel Neto (som) e Rodrigo Carvalho (visuais e sistemas interativos) disposta a trazer o espaço sideral dos infravermelhos que o Telescópio Espacial Spitzer tem revelado. À noite, a dupla Pedro Melo Alves & Pedro Branco, apresenta-se no mesmo palco às 21h30. Eles que são dois músicos de acérrima criatividade nos campos do jazz mais livre e que dialogam em improvisação através da bateria e guitarra eléctrica. Músicos com muitas formulações jazzísticas, sendo este duo um dos menos vistos e escutados. Depois, às 23h, no espaço TOCA — casa de acumulações de memórias e objectos vários — , entra a OGBE – Orquestra de Guitarras e Baixos Eléctricos, conjurada pelo guitarrista e compositor Pedro ‘Peixe’ Cardoso. Aqui, irão juntar-se 13 guitarras a 5 baixos acompanhados por uma bateria. Será a ocasião de conferir a dimensão sonora dessa parafernália de cordas amplificadas.
Dia 3, domingo, às 15h30 será momento para se ver e ouvir Ricardo Martins com Distraimento, o seu trabalho a solo. Infatigável baterista que muito tem trazido à música moderna portuguesa. Neste espectáculo junta à bateria a voz sintetizada e os sintetizadores modulares. Mãos hábeis em mente criativa para deixar conduzir o tempo num espaço ainda por revelar. O Space Festival’24 despede-se de Montemor-o-Velho no TEC às 17h com o Living Room de Michael Formanek, trio que além do contrabaixista norte-americano traz Rodrigo Amado no saxofone tenor e João Lencastre na bateria. É um trio formalizado este ano, mas que conta com uma vida inteira de música em cada um dos seus elementos, todos eles nomes cimeiros do jazz internacional e que irão fazer do TEC a sua e a nossa sala de estar preferida desse domingo à tarde.
O segundo marco da itinerância do Space Festival’24 será Castelo de Paiva, no Auditório Municipal às 18h30, para Flora de Marcelo dos Reis, com o trio que o guitarrista — mais dado à guitarra acústica, preparada e improvisada — formulou para expressar as suas composições em guitarra eléctrica. Já com muito palco vivido, que faz com que este conjunto com Miguel Falcão no contrabaixo e Luís Filipe Silva na bateria se apresente com elevado entrosamento. É uma corrente que divaga pelas diversas paisagem enérgicas do rock sem se libertar em definitivo de ligações ao jazz. Um trio que tem na guitarra uma fonte hiperactiva.
Ao quinto dia (5 de Novembro), a caravana do Space Festival’24 chegará a terras de Mondim de Basto, para no Favo das Artes, em duas sessões dirigidas ao público escolar (10h30 e 14h30), o Space Ensemble (SE) apresentar Music For Short Films. Com estas sessões o SE inscreve mais um palco no seu já vasto conjunto de filmes-concertos apresentados em que musica ao vivo as curtas de animação projectadas. Em Mondim de Basto, o Ensemble contará com o piano de Sérgio Basto, a harpa de Eleonor Picas, a percussão de João Tiago Fernandes, a guitarra de José Miguel Pinto, as electrónicas de Nuno Alves, os saxofones de João Martins e o contrabaixo de Henrique Fernandes.
Em Paredes de Coura, o Space Festival’24 terá uma permanência de dois dias no Centro Cultural local. Dia 6 às 21h30, o palco estará montado para o espectáculo Trama, que junta a companhia Comédias do Minho ao TAC – Mais Teatro Amador Courense e ao Space Ensemble. Juntos desenvolveram uma criação na comunidade que conta com música ao vivo. Cita-se da apresentação do espetáculo onde “cada pessoa é um alicerce que se cruza com os outros que o rodeiam. Cada história e memória individual é entrançada e tramada para formar um arco. Esse arco é a casa que construímos juntos e é a ponte que nos une.”
No dia seguinte (dia 7), às 21h30, estará no mesmo palco a dupla formada por Mariana Dionísio e Clara Saleiro. Será uma exploração dialogante entre a voz e flauta partindo da peça de de Kate Soper “Only the Words Themselves Mean What They Say”, num trabalho que se apresenta como resultado da residência artística comissariada pelo Space Festival. Para depois, às 22h30, o palco ser de Vítor Castro, num concerto multidisciplinar, onde o percussionista “explora o caos e a harmonia, o silêncio e a explosão”, levando a “novos territórios sonoros nas fronteiras da música, teatro e arte visual”.
O Space Festival’24 rumará ao território vizinho de Arcos de Valdevez, dia 8 de Novembro, para a dupla passagem pelo Centro Interpretativo do Barroco na requalificada Igreja do Espírito Santo. Primeiro às 21h30 para Tracapangã, duo dialogante entre a voz de Mariana Dionísio e a bateria de João Pereira. Uma epifania a dois que se torna comensurável vista e escutada de perto com atenção. Nome dado a anagramas que leva a invenções, como a linguagem praticada em conjunto. Depois, às 22h30, será “AETHER – Cruzamento”, que é uma acção conjunta entre o trio de jazz Bode Wilson de João Pedro Brandão (saxofone alto e soprano, flauta e pedaleira de órgão), Demian Cabaud (contrabaixo) e Marcos Cavaleiro (bateria) com as bailarinas Ana Rita Xavier e Wura Moraes.
A paragem terminal do roteiro do Space Festival’24 será em terras de Caminha. No dia 9 em Vila Praia de Âncora, às 16h, no Auditório Municipal Ramos Pereira haverá um filme-concerto pelo Space Ensemble & Academia de Música Fernandes Fão. Será o resultado final de uma residência musical de curta duração, sob a direcção de Samuel Martins Coelho e Miguel Ramos (músicos do SE), com estudantes de escolas locais. O Space Festival’24 passa para Caminha onde, às 21h30 no Teatro Valadares, se poderá ver e ouvir o que traz OTTO com os tapan. São um trio de percussionistas franceses composto por Gabriel Valtchev, Pol Small e Camille Émaille que orbita de volta do instrumento tapan — uma percussão balcânica com apenas dois sons de peles. Do parco recurso muito se irá ouvir, certamente.
Camille Emaille que estará de volta ao mesmo palco na manhã seguinte, dia 10 às 11h30, no Hotel Meira para um solo de percussão que se antevê de elevada projecção, como o vivido no Jazz em Agosto de 2023, quando rematámos em crónica: “Émaille faz música para ser vista. Ouvir apenas já é um deleite sonoro, mas se há uma coreografia de idiofones em palco esta música quer-se vista.” Da parte da tarde, às 15h na Biblioteca Municipal terá lugar a conversa moderada por Catarina Machado — “Cultura e Territórios: Novos centros para a exploração musical.” Uma conversa que, nas palavras dos programadores, “pretende refletir sobre a importância da música experimental, improvisada e exploratória em vários territórios, com foco na programação, mediação/formação de públicos e criação”.
O encerramento do Space Festival — de volta ao Teatro Valadares, às 16h30 — ficará a cargo de PHONOSPERMIA, colectivo musical com produção da Sonoscopia, formado por Clara Saleiro em flauta, Angélica Salvi na harpa, Gustavo Costa na percussão e objectos, Henrique Fernandes em objectos e Tiago Ângelo na electrónica. Juntos estarão na construção de campos imaginários e poderosos do som — matéria intangível que nos fascina ao ponto de queremos estar presentes para essa partilha.
O Space Festival proporciona a entrada gratuita em todos os concertos e espectáculos, com a possibilidade livre de donativos. A reserva de lugar, para o(s) dia(s) e espectáculo(s) é possível através do formulário de reservas disponível na página do festival.