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Fotografia: Beth Freitas
Publicado a: 22/03/2023

Imaginar terra e tempo.

Nzungu: “Tive a possibilidade de me pôr num lugar vulnerável e explorá-lo”

Fotografia: Beth Freitas
Publicado a: 22/03/2023

Não é, de todo, invulgar depararmo-nos com artistas que esculpam a sua identidade através de uma vivência de absorção transcultural (na verdade, tem sido cada vez mais comum nos dias que correm), mas o caso de André Xina é particularmente cativante. Português de ascendência cabo-verdiana, do lado materno, transitou para Macau ainda em criança, tendo desenvolvido o seu interesse pela prática musical neste período. E após concluir um mestrado em Antropologia, aquando do seu retorno a Portugal, ruma para Timbuktu, no Mali, onde nutre o interesse pela recolha sonora localizada em diferentes culturas do mundo, tão presente no trilho criativo que desenvolve a partir daí – seja colectivamente (com Imidiwan, XAFU, ou Rickshaw) ou individualmente (enquanto Há Kwai ou com o projecto de field recordings Sontato), as suas aventuras criativas têm partilhado entre si os mais diversos vértices da música electrónica e a evocação de sons dos quatro cantos do globo.

Após seis anos a residir no Brasil e ter efectuado a sua paragem seguinte em Itália, Xina testemunha neste último país um processo de reconfiguração social imposto pelo confinamento pandémico da Covid-19, e o seu ethos musical é também reconfigurado à sua maneira, com o surgimento do seu mais recente alter-ego a solo, Nzungu, que, influenciado pelo sentimento de isolamento e introspecção trazido por este período, ruma em direcção ao ambient através de composições onde as fontes instrumentais se diluem de modo a priorizar a sua resposta emocional. O primeiro disco deste projecto, Dark Night Of The Soul, é composto após o seu regresso a Portugal e editado em 2021, e a sua sequela, Stimmung, que procura contemplar “(…) as obsessões sociais compulsivas com a realidade nostálgica e a retrotopia(…)” e levar o artista “a libertar-se do peso em pensar constantemente no futuro e no que pode acontecer amanhã”, será editado pela Zabra e apresentado ao vivo no espaço físico da editora no dia 25 de Março, pelas 19h.

O músico e produtor residente entre Lisboa e Quarteira conversou com o Rimas e Batidas sobre um trilhar criativo nomádico no seu sentido espacial, e, como se pode evidenciar no seu mais recente feito discográfico, agora também temporal.



Considerando o perfil que tens vindo a construir tanto do ponto-de-vista musical como geográfico, podemos descrever-te como um verdadeiro “cidadão do mundo”. Foi a tua experiência pessoal multicultural que influenciou esse princípio transfronteiriço encontrado na música que fazes? Ou fora o oposto? Ou os dois factores complementaram-se naturalmente?

Bom, imagina, eu fui para Macau bué puto, devia ter uns 10 anos, e sempre tive a influência cabo-verdiana por parte da minha mãe, apesar dos bloqueios emocionais, porque a minha família veio em ’75 por circunstâncias políticas. Em Macau, foi um choque cultural gigante. Isso influenciou o que se calhar era a minha relação com aquilo que eu vim a descobrir com 10 anos, quando comecei a ter aulas de guitarra e piano, e a partir daí comecei a relacionar-me com a música de uma forma muito ampla, porque eu gostava de coleccionar instrumentos tradicionais desde puto, ao mesmo tempo que, quando os meus pais iam a Hong Kong, comprava CDs de música electrónica, house, trance, sem saber que havia festas de trance ou cenas assim — tipo, eu curtia. Era uma relação de digging muito pessoal, porque a malta na altura escutava aquilo que eu também escutava, que eram os Nirvana, grunge… eram coisas que nos influenciavam, mas depois eu tinha esse lado em relação à música electrónica, que me puxava, não sei porquê. Comecei a trabalhar muito com softwares aos 12 anos, e aí eu comecei a perceber que a minha cena não passava necessariamente pelos instrumentos (embora gostasse de tocar), mas sim pela produção, porque eu tinha capacidade para fazer arranjos e criar de uma forma muito mais elástica e não tão condicionada com as limitações que depois eu teria com o instrumento em si ou pela capacidade de tocá-lo. E a partir daí, eu percebi que as viagens influenciavam a minha criatividade, através de tudo o que acabei de mencionar.

A dada altura, quando terminei o meu mestrado em Antropologia, o meu trabalho foi sobre casos de ruído em Lisboa, e, num aspecto reflexivo enquanto antropólogo de querer ter uma experiência extrema em relação ao que é silêncio, achei que tinha de ir ao deserto, por isso decidi ir até Timbuktu. Comecei a fazer muitas gravações e a ter essa vontade de gravar tudo aquilo que pudesse, fossem sons domésticos, fossem conversas, etc. Foi uma experiência muito forte para mim, tanto ao nível da relação humana que eu tive com a comunidade de lá como da minha percepção daquilo que eu queria trabalhar com som. Então, quando voltei a Portugal, comecei a mexer com o [Ableton] Live, porque comecei a perceber que o sampling era uma coisa bastante interessante — como, por exemplo, gravar uma conversa entre dois senegaleses a falar wolof, pegar nesse som e trabalhá-lo de maneira a que possa ser plástico e entender quantos mundos existem ali. Eu não sei bem se sou “cidadão do mundo”, sei que realmente tive experiências muito profundas nos lugares onde estive, e depois existe esta minha relação com África que é contínua. Agora meti-me num doutoramento por causa de Cabo Verde – fiquei lá uns meses a visitar família e, quando voltei, achei que tinha de fazer um projecto relacionado com o crioulo, e aí percebi que tinha que voltar para a universidade, onde estou a trabalhar com língua, identidade, descendência, perceber como é que os afrodescendentes se apropriam da língua e da música enquanto forma de afirmação identitária. Vemos muito esta malta que, ao viver em contextos urbanos muito ilhados e segregados, e por causa também da discriminação, se apropria daquilo que é uma relação com um lugar onde nem nasceram, mas é um lugar do qual se calhar se sentem muito mais próximos do que aqui, onde nasceram; isso é uma coisa que me impactou muito, se calhar porque agora é que descobri que tenho um lado cabo-verdiano que antes me fora bloqueado por protecção da minha família, foi muito doloroso terem saído de Cabo Verde, e agora ‘tou a descobrir isso e ao mesmo tempo também ‘tou a trabalhar musicalmente com estas coisas.

Muitos dos projectos ao quais te encontras associado gravitam em torno da Radio Tamashek: qual é o propósito por detrás da mesma?

A Radio Tamashek nasceu em 2012, quando vim de Timbuktu. Eu criei Imidiwan, um projecto que, antes de imigrar definitivamente para o Brasil, a gente ainda rodou — fomos a Sines, tivemos bueda concertos. Era um projecto bastante interessante, que misturava as gravações que eu tinha mais algumas remisturas, e em banda. Na altura, deu-se a guerra civil no Mali, o Khadafi foi deposto, e muitos dos seus soldados eram tuaregs, que voltaram para o Mali, mas já com a capacidade bélica para se revoltarem contra o seu governo, porque aquela região a norte do Mali sempre foi muito disputada. Foi tão grave, que praticamente todas as pessoas daquela região foram deslocadas para campos de refugiados. Ou seja, muitos amigos meus foram para lá, e depois deu-se essa guerra civil e a AQMI (a Al-Qaeda do Magrebe) aproveitou aquela desordem para se apoderar da região. Enfim, aquilo ficou o caos, e na altura eu criei a Radio Tamashek porque, embora não seja uma pessoa necessariamente politizada (ou, pelo menos, o meu discurso não é directo nesse campo), queria criar um contexto em que as pessoas pudessem observar a realidade musical de lá — também tinha tido acesso a muita música incrível. 

Eu já tinha outro projecto na altura com o Juninho, XAFU, e eu pensei: “ok, vou criar um colectivo que possa ser o ‘guarda-chuva’ dos projectos em que eu ‘tou”, e assim foi. Eu tinha alguma vontade que aquilo crescesse, e na altura comecei a agregar projectos de amigos meus, fossem do Brasil ou de Portugal — eu já ‘tava no Brasil na altura. Esta ideia não andou para a frente, porque eu era o motor criativo de diferentes projectos ao mesmo tempo e, estar a querer potenciar um colectivo ao mesmo tempo, era muita fruta para mim [risos]. Então, o Radio Tamashek passou a ser um lugar onde deposito as minhas coisas. De momento, comecei a congelar todas as coisas em que eu ‘tava, apesar de ser tudo com grandes amigos meus, então são coisas que posso reactivar, como aconteceu agora no Boom, onde toquei com Imidiwan e XAFU e criámos repertório novo… Mas depois, sendo projectos um bocado dependentes da minha posição ao nível de produção, eu preferi agora dar priviliégio, por exemplo, a Nzungu, que é um projecto que, se calhar, me faz sentido agora vivenciar. Possivelmente, em termos criativos, ‘tou a ter desafios técnicos e conceptuais que me interessam mais ter agora, em vez do lugar no qual já estou confortável, que é mexer com sampling e com música mais localizada. 

Era precisamente aí que queria chegar: Nzungu parece representar um ponto de viragem na tua carreira, no sentido de contrariar a celebração rítmica global presente na generalidade do trabalho que lançaste previamente e abraçar uma estética mais introspectiva – a única excepção será, talvez, as paisagens sonoras criadas através das recolhas registadas em Sontato. Será isto um reflexo das condições de isolamento pandémico sob o qual compuseste Dark Night Of The Soul, ou já existia um interesse prévio em enveredar por este caminho, possivelmente uma extensão lógica do que tens vindo a desenvolver com o projecto referido acima?

Foi um bocado inusitado; eu não ‘tava à espera de criar um projecto, foi só uma resposta emocional que eu fiz através da gravação de uns pianos, que na verdade eram temas muito românticos e que achei: “bem, se calhar vou pôr um beat por baixo, convidar um MC, fazer algo mais relacionado com o hip hop”, porque as peças que eu tinha estavam a puxar para uma coisa trip hop e tal… Mas a dada altura, percebi que não, que eu ‘tava a querer dizer qualquer coisa com o que depois aconteceu, quando cheguei a Quarteira.

Eu acho que houve uma sincronicidade entre o que já era uma certa frustração minha em haver uma certa dificuldade das coisas avançarem por estar em diferentes projectos – especialmente aqueles que são colaborativos, tendo uma certa necessidade de ter um foco mais pessoal – e o que se passou no mundo: nós tivemos uma suspensão a nível global que nos fez repensar nas coisas e perceber o que é que realmente era necessário a gente activar e rejeitar, em termos de comportamentos e de hábitos. Quando eu voltei de Itália para Quarteira, um lugar inóspito a nível social e cultural, eu tive uma “noite escura da alma”, como acho que muita gente teve, o entrar num clima mais introspectivo e denso, mas eu ‘tava sempre a sentir que aquele era o caminho, que tinha que entrar num ambiente em que pudesse dar espaço a exprimir aquilo que eu realmente queria exprimir e da maneira mais sincera possível, e isso, logicamente, iria quebrar com certos paradigmas que acreditava serem verdades. Acho que foi um momento de privilégio para mim, ter tido a possibilidade de me pôr num lugar vulnerável e explorá-lo. Percebi que uma gravação feita de forma improvisada, através de um piano que passasse por pedais de efeitos e cujo sinal fosse saturado, não tivesse de ser classificada como algo bonito ou feio, mas simplesmente uma coisa que precisava de exprimir; isso para mim foi um game changer, entendi que não tinha de provar nada a ninguém. Se calhar, esta música mais globalizada fica refém daquilo que é a legibilidade que depois a gente procura que as pessoas percebam, tipo: “ah, isto é música vinda daqui, com…” Aqui, eu ‘tava simplesmente despreocupado em relação a isso, é um projecto que quero que não fique refém de uma biografia, de uma estética, mas sim que vá sempre progredindo com aquilo que eu ‘tou realmente a sentir. Enquanto artistas, acho que temos que nos dar a oportunidade de ser sinceros nessa acção criativa.

No que toca a romperes com o uso de sampling etnográfico, tão presente no que produzias até então: essa decisão justifica-se apenas para evitar essa procura de traços auditivos mais legíveis ou, no caso particular de Stimmung, querias também evitar que uma viagem baseada no conceito da evocação da memória fosse corrompida ao incorporar elementos da tal “música mais localizada” que referiste anteriormente? 

Na realidade, eu uso samples que vêm de… Por exemplo, o tema-título, que é assim uma parede sonora, é uma música que vem de um músico dos Camarões, só que eu saturo tanto aquele sample que depois virou aquilo. O que eu entendo como Nzungu e que procuro com este projecto, acima de tudo, é que tenha sempre uma actividade muito subterrânea, exprime mais aquilo que vem de um lugar mais subterrâneo meu. Na realidade, está disseminado nessa geografia: por exemplo, no Stimmung, a primeira música é uma harpista sul-africana; a segunda música, “Valdemus”, é uma música que vem do canto gregoriano; a “Filho da Mãe” é uma música que saquei do Filho da Mãe – eu tenho que lhe dizer, porque eu gostava muito que ele ouvisse -, é uma música que ele gravou na altura do Covid, e acho que foi a companheira dele que filmou — pá, um tema bueda bonito, acho que ele nunca o gravou, e aí eu peguei nisso e dividi a guitarra dele, pelo menos ali uma frase, no teclado, e toquei e depois desenvolvi aquilo para um tema… Isto para te dizer que Nzungu continua a ser um projecto que está pelo mundo, só que num mundo mais subterrâneo, mais…

Mais camuflado?

É um mundo que existe, que sustenta outro mais visível, seja este um mundo meu ao nível expressivo, seja um mundo que está aí, a acontecer. Nós estamos a ver o que está a acontecer hoje em dia, e o que vemos na televisão são guerras, é a crise que eventualmente irá piorar em certos aspectos, nós estamos num momento um bocado dark ages, mas ao mesmo tempo, ao nível subterrâneo, estão a haver conversas e revoluções silenciosas, está a haver também uma transformação que nos irá levar para o lugar certo, e então eu acho que Nzungu é esse lugar também, é o lugar em que, “ok, nós estamos a viver numa retrotopia, queremos agarrar um passado para projectar um futuro”, mas simultaneamente, porque estamos incertos do que vai acontecer, a gente acha: “antes é que era, pá, fogo, grandes tempos que a gente tinha, e podíamos estar assim…” Mas se calhar, naquela altura, nós próprios estávamos incertos. A gente agora está-se a agarrar a uma coisa que ‘tamos a construir no nosso imaginário, daí essa coisa de “voltar ao normal”, como estava a acontecer na altura do Covid, é uma frase que considero extremamente perigosa – antes não era normal, e também não vamos voltar àquilo que a gente acha que vai voltar, porque vamos criar uma coisa imaginada para sustentar uma coisa que também ela é imaginada, que é um futuro. 

Eu acho que o que quero com este projecto é ter sempre uma visão do agora, do que é que eu ‘tou a sentir agora. Claro que vai ter uma ressonância com as pessoas que ‘tão a sentir a mesma necessidade de escutar e de observar o momento, e não estarmos sempre nesta angústia do que é que vai acontecer amanhã – são coisas que também têm um lado real, mas ao mesmo tempo, há outras coisas que se calhar podemos estar a perder simplesmente por nos estarmos a agarrar a coisas que nos estão a ser incutidas e que estão muito emolduradas numa televisão, num noticiário. Pá, na altura do Covid, quando eu ‘tava em Quarteira, eu simplesmente desliguei-me de tudo, e acho que ter a oportunidade de criar e conseguir suspender tudo aquilo que ‘tá à nossa volta começa a ser um privilégio para nós, artistas, porque estamos cada vez mais implicados em circunstâncias, visualizações, likes e formas de nos expormos, que fazem com que isso também possa se intrometer na nossa realização ao nível criativo. 

A escolha do título Stimmung é justificada pelo termo descrever “o experienciar o mundo e interpretar as coisas antes de sermos capazes de articulá-lo por meio da linguagem ou do pensamento.” A tradução literal seria “ânimo” ou “humor”. Como enquadras o álbum em qualquer uma das definições acima?

Não sei, foi uma palavra que me ressoou na altura porque me tinham oferecido um livro do Kandinsky. Essa palavra surgiu por lá e eu achei-a interessante. Acho que era a palavra que conseguia descrever aquilo que se passou na altura em que criei este álbum – especialmente por ela ser a relação entre duas palavras, isto em alemão, claro.

Foi aquilo que eu também tinha dito: é um nome que me transmite essa não-necessidade de pensar no que vem aí, não é? Esta questão de ser uma palavra que está entre o ânimo e a atmosfera é, para mim, sinónimo de contemplação, e isso implica a contemplação daquilo que está a acontecer não apenas à minha volta, mas também dentro de mim. E sim, se calhar isso vai para lugares mais subterrâneos, meus, mas, no fundo, essa viagem é necessária para também caminhar no exterior, no que ‘tá cá fora. A sensação que tenho quando escuto este álbum é sempre essa, é sempre esse duplo movimento entre o que é uma contemplação daquilo que eu ‘tou a sentir e os aspectos que não são visíveis (tipo, nessa relação entre eu próprio com outro e com tudo), falando assim de uma forma um bocadinho mais abstracta, e essa palavra, pelo menos para mim, consegue transmitir-me isso, conseguiu resumir aquilo que se passou comigo naquela altura – comigo e com toda a gente, na realidade. Acho que foi isso.


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