O calor parece ter vindo para ficar e nem a proximidade do mar faz com que Algés deixe de apresentar temperaturas insuportáveis. A torrar dentro do carro e às voltas por mais de meia-hora, miraculosamente lá encontrámos um lugar para estacionar, a quase dois quilómetros do NOS Alive. Depois da dolorosa caminhada, chegamos ao recinto com os pés a latejar, mesmo a precisar da terapia soul que Celeste e Jorja Smith tinham tinham para nos dar naquele final de tarde.
A primeira subiu ao palco às 19h30. Celeste Epiphany Waite apresentou-se ao público português com um vestido às riscas, umas luvas verdes e umas botas em pele castanhas de cano (muito) alto, como se aquele nervosinho de estar a actuar num grande festival a tivesse feito esquecer dos mais de 30 graus que se faziam sentir. Sem cerimónias, arrancou logo com “Ideal Woman”, munida de uma banda de grandes dimensões, da qual apenas a bateria ficou em silêncio quase total — ouviram-se as primeiras batidas já no final do tema, como parte da transição para a canção seguinte, “Father’s Son”.
Durante as primeiras quatro ou cinco músicas, a cantora que cresceu em Brighton adoptava a pose de uma diva. O corpo estava quase estático em frente ao tripé que segura o microfone, enquanto gesticulava com os braços e as mãos consoante o momento. À sua frente tinha uma plateia bem composta e via-se que, pelo menos aqueles colocados mais perto do palco, muitas daquelas pessoas eram fãs aguerridos dos talentos daquela que, entre 2019 e 2020, “limpou” umas quantas distinções de relevo no seu país, com um BRIT Award e um BBC Sound of… à cabeça. Uns cantavam as letras que sabiam de cor, outros filmavam cada segundo com o telemóvel e havia até quem tentasse “vender” os dotes de Celeste aos amigos que podiam não estar tão inteirados da sua música — “Ela vai ser gigante daqui a um ou dois anos. Garanto-te!”, previa um desses admiradores que se situava mais perto de nós.
Foi ainda antes do concerto chegar a meio que a cantora inglesa começou a ficar fisicamente mais activa. Apesar das limitações espaciais que o cabo do seu microfone lhe colocavam, foi com a ajuda de alguns técnicos que desceu da estrutura montada para as actuações e se fez passear por entre aquele mar de pessoas, aproveitando para distribuir sorrisos e alguns apertos de mão. A partir desse momento, Celeste acabaria por passar mais tempo fora do que dentro do palco, para gáudio dos presentes. Até à despedida ainda conseguimos escutar um par de temas inéditos, bem como “Stop This Flame”, “Love Is Back” ou “Strange”, todos pertencentes ao seu último Not Your Muse.
A seguir, no mesmo local, Jorja Smith estava escalada para iniciar o seu espectáculo às 21 horas. Os instrumentos e o cenário — umas estruturas de madeira que seguravam uma espécie de cortina foram dispostas em semi-círculo, em torno dos lugares reservados para os músicos — ergueram-se rapidamente em cima do palco mas ainda tivemos tempo para nos abastecermos de água. No regresso àquela zona, a quantidade de pessoas já tinha duplicado ou, talvez, triplicado. A expectativa para ver a autora de Lost & Found novamente no NOS Alive era muita, ela que é uma das vozes que estão a traçar uma nova ponte entre a soul mais tradicional e o universo da pop — uma distância grande, capaz de gerar resultados tão dispares quanto “Rose Rouge” (um cover para a compilação Blue Note Re:imagined) ou “Get It Together” (o seu contributo para More Life, de Drake).
“Teenage Fantasy”, “Be Honest” e “Addicted” foram aquelas que se fizeram ouvir durante os seus primeiros minutos em cima do palco NOS. “Ainda mal começou e já tocou as mais conhecidas todas”, ouvimos nas redondezas por parte de alguém que estava a tentar convencer os amigos de que a cantora de Walsall já tinha gasto os trunfos todos daquela noite. Terá sido lapso ou tratava-se apenas de falta de domínio da matéria, até porque Jorja tem ao seu dispor uma quantidade considerável de êxitos, conforme haveria de nos confirmar mais adiante, quando cantou “Bussdown”, “Gone”, “Blue Lights”, “Where Did I Go?”, “February 3rd” ou, claro, a incontornável “On My Mind” — a canção que deu o concerto por terminado começou com uma abordagem mais lenta e despida, antes de juntar à mistura o infalível breakbeat de Preditah que meteu toda a gente em êxtase total.
Colocando as duas artistas numa balança, Celeste foi o espelho de uma execução exímia, enquanto Jorja levou à letra a definição de entertainer, com mais argumentos para nos meter a dançar. A primeira foi sinónimo de colocação, afinação e amplitude vocal, enquanto que a segunda pautou pela doçura que nos derrete os corações. A voz e até mesmo a postura de Celeste rapidamente nos fazem lembrar de Amy Winehouse, mas foi mesmo Jorja quem arriscou em interpretar uma versão de “Stronger Than Me”, o tema inaugural de Frank, álbum de estreia da malograda diva da soul dos 2000s.