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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 16/10/2024

Flamenco, jazz e muita imprevisibilidade.

Niño de Elche & Sumrrá: “A libertação através da prática artística foi o que me salvou nesta vida”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 16/10/2024

Em palco estarão Niño de Elche, na voz, e ainda Manuel Gutiérrez no piano, Xacobe Martínez Antelo no contrabaixo e L.A.R. Legido na bateria, os Sumrrá. Este trio tem no seu particular palmarés o Prémio Jazz Espanha 2022, reconhecimento de um percurso de um quarto de século que foi sempre trilhado do lado de fora das convenções do género. Dizem-se um trio de jazz de fora do jazz, aliás.

Este encontro com uma das mais originais vozes do flamenco é por isso entusiasmante. Elche pode ter alcançado maior visibilidade pelo seu papel no disco El Madrileño de C. Tangana, mas é, obviamente, um artista com outros pergaminhos bem mais relevantes que o têm mostrado a procurar sacudir rótulos e a evitar os dogmas e as normas. 

Será certamente em modo de “fuga para a frente” que o Theatro Circo, em Braga, receberá este improvável quarteto espanhol, já na próxima sexta-feira, dia 18 de Outubro.



[Niño de Elche]

Como é que se deu este encontro com o trio Sumrrá?

Foi depois de uma atuação que fiz no festival Curtocircuíto, em Santiago de Compostela, que conheci L.A.R. Legido, o baterista dos Sumrrá, num bar onde conversámos e ele me apresentou a trajetória e a filosofia do grupo.

As ligações entre o jazz e o flamenco são profundas e antigas: basta pensar em Miles ou em Paco de Lucía. Mas este encontro soa a algo novo, porque tanto Niño como Sumrrá são reconhecidos como agitadores, artistas inconformistas, sempre em busca de surpresas. Como têm corrido os concertos?

Eu diria que as ligações entre o jazz e o flamenco podem ser variadas, mas não as descreveria como profundas nem muito menos antigas. Em todo o caso, este encontro não é concebido ou desenvolvido a partir de rótulos estilísticos, não pretendemos fazer mais uma fusão entre o jazz e o flamenco, o nosso diálogo não parte desses termos. Entendendo este ponto de partida e de encontro, os concertos têm corrido bem, uma vez que as expectativas não se comparam a uma história (a do flamenco e do jazz) que, na minha opinião, é traumática e nada edificante. 

Os espectáculos são baseados em improvisação ou em novos arranjos de peças do vosso repertório? Podem dar-nos uma antevisão do que se vai ouvir em Braga?

Há improvisação, entendendo esse termo a partir das filosofias do jazz e da improvisação livre, mas há também arranjos a partir de temas ou canções já construídos ao longo das carreiras de ambos.

A sua música é feita de uma procura de novas ideias para o flamenco, mas, ao mesmo tempo, os dogmas do género nunca o dominaram. A liberdade é o valor mais importante na sua música?

A libertação através da prática artística foi o que me salvou nesta vida. Esta forma de me relacionar com o mundo, esta forma de ouvir, gritar, comer, ou seja, de entender o poético como o ato criativo por excelência, foi o que me ajudou e continua a ajudar a desfrutar da vida e da sua incerteza.

Vai gravar com os Sumrrá? Há planos para um álbum conjunto?

É um assunto que ainda não foi discutido, pois o encontro é, para já, para uma atuação ao vivo de forma comemorativa.



[Sumrrá]

O jazz é um género com uma longa história de diálogos: com a música clássica, com a música cubana e africana, com a bossa nova, com o rock e o funk, com a eletrónica. Todos estes diálogos deram origem a algo novo. E se é verdade que os diálogos entre o jazz e o flamenco não são inéditos, não acho que seja menos verdade que é uma conversa que ainda tem muito para oferecer. Estudaram estes diálogos passados? Ainda há muito para fazer neste campo?

Não nos interessam os rótulos, as disciplinas ou aquilo a que se chamou de estilos. Não entendemos a música como um compartimento estanque e, embora gostemos e respeitemos todas as tradições, nunca entendemos que a nossa missão fosse operar na música a partir de uma determinada corrente estilística ou tradição. No fundo, entendemos que aquilo que conhecemos como jazz nos ligou a uma linhagem de talento profundo e honesto e nos deu o mandato para encontrarmos o nosso próprio caminho. A procura da nossa própria voz foi sempre inevitável para Sumrrá. E nós gostámos… e continuamos a gostar. Quanto ao facto de haver muito feito, ou algo por fazer nestas músicas… seria como perguntar se todo o ar foi respirado, ou se ainda há algo para respirar… Enquanto estivermos vivos, ainda somos música, e estamos ansiosos por ver onde este caminho nos leva…

Vocês descreveram-se como um trio de jazz de fora do jazz e o Niño como um artista de flamenco de fora do flamenco. Esta aura de “forasteiros” ajuda-vos a entenderem-se?

Sem dúvida. Foi aí que nos reconhecemos uns aos outros. A intuição foi o nosso único guia para este encontro. A nossa intuição e a nossa determinação em estar à altura do que a música nos pedia. Sem nos conhecermos de antemão, sabíamos que ia resultar. O que não imaginávamos é que este encontro iria ultrapassar em muito as nossas melhores expectativas. Estamos satisfeitos com o que está a acontecer em cada concerto, e as nossas intuições estavam certas. Ninguém melhor que Niño de Elche para dar voz e palavra ao mundo de Sumrrá.

Como descreveriam os momentos mais intensos dos vossos encontros? O que é que acontece em palco que é mágico?

É difícil de explicar, porque é subjetivo, pessoal e vivo… em processo… Já se disse que é como a quarta dimensão da Sumrrá. Que sempre esteve lá, e agora revelou-se. Para Sumrrá, foi muito fácil acolher Niño de Elche, porque trabalhamos como um organismo que escuta, lê e muda de uma forma muito enfática, ágil e definitiva. Isso foi importante para que Niño de Elche entrasse em Sumrrá de uma forma tão surpreendentemente simples e vigorosa. Não nos cansamos de o dizer: trabalhar com Niño de Elche foi e continua a ser uma dádiva. É um artista dedicado ao seu ofício, com um rigor e uma capacidade de trabalho invulgares. Foi um encontro maravilhoso, porque sentimos que este projeto está a crescer, e a crescer, e a crescer… e cada vez é maior e mais bonito.

Isto vai dar origem a um álbum ou os encontros só vão acontecer em palco?

Ainda não decidimos nada. Não temos pressa, não temos objectivos, não temos metas por agora. Apenas aproveitar cada encontro como se fosse o primeiro e o último.


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