É justo pensarmos em Tiago Novo como um dos arquitectos mais influentes do hip hop nacional durante a primeira década deste milénio. Aliado da Matarroa na concepção de alguns dos clássicos da editora portuense que deixaram marca na cultura — quer fosse na gravação, na produção ou na mistura — o tempo que dividiu com Demo nos Expensive Soul talvez tenha ofuscado parte de um reconhecimento que lhe é mais do que devido. Foi o próprio “irmão” de grupo, durante a apresentação ao vivo de Phalasolo, no passado dia 7 de Maio, que fez questão de sublinhar isso quando entrou em cena para a sua parte da “Marcha” e soltou algo como “este gajo respira música”, enquanto tentava explicar à plateia o quão merecida era esta espécie de homenagem informal que estava a decorrer no Cineteatro Capitólio. Afinal de contas, não é todos os dias que um músico consegue reunir tanta gente numa sala para o ouvir reinterpretar um conjunto de canções que ficaram arrumadas numa “gaveta”, daquelas lá bem no fundo — o único álbum a solo de New Max tinha saído sorrateiramente em 2009, valeu-lhe apenas um par de concertos e acabou por ficar esquecido em detrimento da escalada que os Expensive Soul estavam a protagonizar, conforme relembrou durante uma conversa com o ReB.
Entre esse pequeno mar de gente sentada estavam alguns dos rostos que assistiram de perto à intensa jornada que Tiago trilhou, tanto nos bastidores como já debaixo das luzes da ribalta — Xeg, Dino D’Santiago, Sir Scratch, Kika Santos, David Cruz ou Héber Marques quiseram assistir de perto à reactivação da carreira a solo de New Max. Outros quiseram até contribuir de forma directa para o espectáculo: Manu Idhra e Bruno Macedo mantiveram a estética de Phalasolo intacta, numa banda que também albergava alguns dos novos talentos que foram inspirados por esse disco, como Sérgio Alves (aka AZAR AZAR) ou Pedro Santos; no lado dos convidados, Sam The Kid, Regula e Virgul não perderam a oportunidade para recordar versos raros com mais de 10 anos de vida, enquanto AMAURA ofereceu novas texturas vocais a “Pagas um Mundo”. Na primeira parte do concerto, B.E.R.A. e YANAGUI, músicos de Pimenta Caseira, prestaram a sua vénia ao artista de Leça da Palmeira como descendentes que são desse funk que Phalasolo quis instaurar em 2009.
Enquanto esteve em palco, New Max percorreu todos os 14 temas que compõem o alinhamento do LP e não se cansou de exibir aquele que é um dos falsetes mais singulares entre as vozes da música portuguesa. Os arranjos, apesar de funky, eram híbridos o suficiente para se desdobrarem a outros terrenos — a incontornável batida de “We Will Rock You” num renovado “Vai Joe” e os solos de Macedo davam ao grupo uma certa fragrância rock, semelhante à que pairava em torno dos Da Weasel. O público, ora sentado ora de pé, manifestava-se ao fim de cada canção, mas ficou bem claro o apreço especial que existe por “Quero Mais” e “América Eléctrica”, os dois singles do álbum, ou por “Fumo”, a única repetida do set — escutámo-la mesmo no início, logo após “Crime Perfeito”, e também no fim, já durante o encore e antes da despedida, que culminou com o cantor entre os seus admiradores para uma fotografia em família. Além das memórias que nos trouxe desse projecto com 13 anos, New Max ainda nos deu um vislumbre do futuro, ao estrear “Como És”, uma faixa de contornos soul, muito ao encontro do que Phalasolo representa, e que deverá ser editado como single “nos próximos meses”.