Dona Céu serve-nos uns petiscos tardios por conta da casa, já ao cair da noite sobre a Rua Joaquim Casimiro, endereço para o qual André Ivo, há quase uma década, se mudou com o seu pai — também ele músico de vocação —, que mais tarde nos viria a mostrar as origens do yé-yé à portuguesa com uma gravação audiovisual de 1965 da banda lisboeta Ekos. Sessenta anos depois, o rock português continua a germinar na capital, mas no caso dos Miss Universo essa génese parece vir de uma Lisboa cristalizada precisamente na década de sessenta. E o ponto de encontro que nos dá a conhecer o duo que se apresentou no início deste ano em “Ser Português” leva-nos, desde logo, a crer que o cenário emprestado a esse single inaugural não foi, afinal, mero adereço narrativo, antes fez e faz parte da génese do próprio par formado por André Ivo e Afonso Branco.
“Desde então, vi que havia aqui um pequeno mundo dentro desta rua que vive muito à volta da Dona Céu, que é quem toma aqui conta do estabelecimento com o Sr. João”, explica-nos André, que ainda antes de se mudar para Nova Iorque, para estudar cinema, já convertia amigos e vizinhos à taberna-drogaria do Sr. João, sediada no topo da escadaria que desce à Avenida Infante Santo. E não é preciso muito tempo para ver esse “pequeno mundo” ganhar vida. Cedo aparece vizinhança conhecida, a começar por um jovem estudante de Direito que traz debaixo do braço um embrulho sugestivo. “O que é que estás a ler?”, pergunta Afonso, inquisitório, adivinhando antecipadamente a resposta do inquirido: “Identidade e Família?”. Nem mais. “Eu quero escrever sobre isso, então precisava de o ler”, assegura o novo interlocutor. Ossos do ofício, já se sabe. E bem avisava Afonso ainda o gelo se principiava a quebrar: “Só uma coisa: vamos ser muito interrompidos…”.
Afonso Branco recorda a noite em que conheceu o parceiro, justamente à Infante Santo, como se fosse ontem. “Falámos logo do meu avô, de Tim Maia e de Martinho da Vila, até. Houve uma ligação muito repentina…” E da troca de influências à troca de ideias foi um pulo: “O André saiu dessa casa onde estávamos para vir aqui a sua casa buscar a guitarra, para começarmos a tocar na noite em que nos conhecemos.” É caso para dizer que foi composição à primeira vista. E nem um oceano pelo meio (onde é que já vimos isto…) os distou o suficiente para que a vontade de comporem juntos esmorecesse. No regresso da big apple, em Agosto de 2022, André e Afonso voltaram a congeminar ideias a duas cabeças e quatro mãos já com um fim à vista. “Começámos a levarmo-nos mais a sério, e isso fez com que as coisas avançassem”, esclarece o segundo.
Quiseram os astros que os netos de José Manuel Rato — reconhecido fadista lisboeta — e José Mário Branco — bom, que dizer de José Mário Branco… — se alinhassem em Miss Universo. Um da escola guitarra blues, outro da viola bossa nova, eternos alunos com “mais perguntas que respostas” ainda a descobrir para onde, juntos, querem ir. E porquê Miss Universo? “A história do nome Miss Universo inventou-se depois de escolhermos o nome Miss Universo”, começa por explicar André. Mais uma vez, lembram-se ambos do dia — ou neste caso da noite — em que, juntos, chegaram ao derradeiro nome: serviu a fachada da sede da EDP para lhes iluminar o espírito quando uma notícia sobre uma Miss Portugal entabulava conversa trivial.
Do baptismo à vocação, os desígnios perdem esse carácter arbitrário e ganham uma força vinculativa. Para cada um deles, fazer música não foi nem é uma decisão deliberada, antes uma condição que os define. Agora, lançar música é outra história. E aí Afonso revela-se peremptório: “Eu não tenho uma necessidade de lançar canções, tenho uma necessidade de coisas para dizer. (…) Não é uma escolha, eu não escolhi ser assim.” Até porque, sendo neto de quem é, essa inclinação era quase uma inevitabilidade. “Eu fui criado num meio com muita música, onde se falava de música, onde se ouvia música, onde se fazia música. Tinha instrumentos em cada divisão, tinha — e tenho — quadros no corredor… a ir à casa-de-banho, com 10 anos, eu tenho o Zeca Afonso ali. O meu irmão, com nove anos, sabe as músicas do Zeca Afonso, do Fausto…”
Mais do que o legado de um só nome, pesou o modus vivendi de toda uma família, extensível para lá da genealogia, na infusão da veia artística de Afonso. Só mais tarde, com o falecimento do avô, em Novembro de 2019, tiveram ele e os irmãos plena noção do significado desse legado. “Nós sabíamos uma data de canções de cor, e depois de ele morrer houve ali uma coisa qualquer que nos aconteceu que foi: «Eu sei de cor, mas sei o que se está a passar nesta canção?» — e não sabíamos. Eu não sabia; não me importava em saber sequer. E aconteceu o mesmo ao meu irmão que está a estudar psicologia, que não sabe tocar instrumento absolutamente nenhum e, se pedes para ele bater palmas no tempo, ele não vai conseguir.” Nem tanto o caso de “casa de ferreiro, espeto de pau”, mas mais o de que o que nasce connosco se dá por adquirido. Mas, por outro lado, essa consciencialização que resultou da perda não se traduziu, porém, numa ideia de sucessão: “Não há obrigação absolutamente nenhuma. O filho do Zeca Afonso é biólogo marinho. Não é uma questão de ser neto do Zé Mário Branco ou não ser, tem a ver com o meio onde eu cresci. Ser neto do Zé Mário Branco trouxe-me outras coisas…” E que coisas? “A técnica, a estética e a ética”, por exemplo. “O José Mário Branco falava do tripé da arte”, recorda Afonso Branco. “Se não o tens, para mim não é bom”, remata por fim, categórico, como lhe é característico.
No caso de André, a herança até acabou por ser-lhe imposta, uma vez que o pai, guitarrista desde que o filho se lembra e irremediável fã do “corridinho” a la Ekos, foi forçando a prática do instrumento até que o primogénito, enfim, se rendesse aos encantos das seis cordas. “Desde aí, é aquela espiral: uma coisa que te consome e nem percebes que estás a ser consumido por este bicho.” E o bicho, até ver, manifesta-se sob diferentes formas, do tradicional ao progressivo, de “Ser Português” à “Canção de Rua”, com a promessa de que num futuro álbum de estreia — praticamente fechado, segundo nos confidenciam os próprios autores — a indefinição será a melhor forma de identidade. “O que mais me fascina nisto é não ser nada”, sintetiza Afonso. “É muito difícil eu imaginar um mundo onde haja uma sonoridade Miss Universo”, acrescenta André.
Confirmá-lo-á quem já os viu tocar ao vivo, eles que antes mesmo de terem material divulgado já o tocavam — fossem originais ou reportório alheio —, com esse alinhamento em constante reformulação à boleia de um processo de amadurecimento, também, em palco. “O que é que eu estou aqui a fazer? Temos de estar constantemente a perguntar-nos isso”, nas palavras de quem dá voz a estas canções. “Para mim, não é entretenimento, não é um espectáculo; para mim, há ali uma coisa diferente”, concretiza, imediatamente complementado pelo parceiro: “É sobre responsabilidade”. Desde logo, a responsabilidade de não cair em deslumbramento na ressaca do sucesso instantâneo e inusitado de “Ser Português” — e nesse sentido “Canção de Rua” até veio pôr alguma água na fervura ao impulso mediático.
Nesse aspecto, os amigos, não obstante serem os primeiros a celebrar essas vitórias, ajudam a beliscar a realidade. E é Gaspar Varela — outro que bem sabe o que é isto das ressacas bailadas — quem, pelos contornos peculiares da sua popularidade precoce (juntem-lhe o parentesco a Amália Rodrigues com o cargo de guitarrista de serviço de Madonna, e está o fenómeno explicado), lhes vem, a título de exemplo, à cabeça em matéria de aconselhamento. “É muito importante nós rodearmo-nos de pessoas em quem confiamos.” Nesta sede, artisticamente, bem entendido. Porque, para quem agora se propõe a fazê-lo publicamente, há verdade objectiva no valor de uma canção: “Eu acredito que existe música boa e que existe música má”, declara Afonso. Por cá, não vamos tão longe. Ficamo-nos pela primeira parte da observação. E é com essa lente que temos visto os Miss Universo entrar em órbita, rumo a Manifesto do Jovem Moderno.