Não se está mal em Braga. No remate deste ciclo de quatro dias no Theatro Circo, o olhar também vai para o que se passa em redor: Dua Lipa, por exemplo, actuou ontem no Altice Forum Arena, naquele que foi certamente um dos momentos altos da cidade em Junho; anteontem, antes de mais uma (e última) sessão do MUSA, o Parque de Guadalupe recebia vários concertos de entrada gratuita. O único que apanhámos, já mesmo no final, foi de Vaiapraia, que, antes de fechar a actuação, atirou algo como: “não é tocado com a melhor das técnicas, mas é com muito amor”. Anotado.
Foi com esta frase na cabeça que fomos para a sala bracarense que, durante a semana que passou, recebeu actuações de The Weather Station, Silvana Estrada, Sílvia Pérez Cruz, Maria Arnal i Marcel Bagés e María José Llergo. Para o encerramento, Ángeles Toledano e Rocío Márquez, duas figuras de diferentes gerações (a primeira prestes a celebrar o seu 27º aniversário, a segunda com mais 10 anos) do flamenco, trouxeram a técnica e o amor, fazendo aquela que se calhar foi a maior aproximação de todas à nobre arte espanhola que em tantos pontos se toca com o fado.
Houve muitas semelhanças nas prestações das duas (o a capella longe do microfone no final, por exemplo), mas nas diferenças é que se viu o que cada uma era. Toledano, rodeada de tocaor e dois palmeros, levou-nos até à raiz, reavivando-nos a memória para o facto de existirem certos géneros que só podem ser realmente capturados ao vivo — e uma bulería cai sempre bem. A cantora (com uma belíssima e rouca voz) e companheiros foram soltando “olés” à medida que iam abordando a obra de outros — Gabriel Moreno foi um dos nomes que mencionou. Numa conexão completamente infalível, o quarteto tirou proveito das capacidades de cada um — mais uma vez, a ligação entre quem canta e quem toca guitarra resultou às mil maravilhas — e terá certamente agradado aos grandes defensores da tradição pura e dura. Que seja a mais jovem a fazê-lo é, claro, um bom sinal de que o interesse por renovar também passa por manter a coisa perto da origem.
“Não estava à espera que este concerto fosse tão bom. Nem sei agora o que esperar do próximo”, dizia alguém perto das casa de banho na pausa entre Ángeles Toledano e a autora de Visto En El Jueves (2019). A segunda tinha realmente uma tarefa complicada depois da energia e prestação da primeira, mas para performers desta categoria isso não passa de mais um desafio (superado, mais tarde).
Em formato trio, alinhada com o guitarrista e com o apoio na rectaguarda de um percussionista, Marquez focou-se nesse mesmo disco lançado há três anos, deixando o novíssimo Tercer Cielo, álbum colaborativo com BRONQUIO, de fora e demonstrou mais teatralidade nos movimentos. Não foi tão flamenquista (apesar de também terem existido uns “olés” mais timídos), porém, a diferença interessante passou por aí: a exploração dos elementos de percussão e a interação mais coreografada em momentos individuais com cada um dos músicos acrescentou valor ao espectáculo.
Tanto uma como a outra reforçaram a importância de se ter uma programação destas, feita de mulheres talentosas e, na grande maioria, representantes desse grande chapéu que é cantar em espanhol. No entanto, não deixa de ser curioso que, à excepção da canadiana, um caso à parte no programa, aquelas que se apresentaram com banda o tenham feito somente com homens. Um dado que deve encarado apenas como uma nota de rodapé. De 1 a 4 de Junho, as musas tomaram conta do Theatro Circo e todas a um nível excepcional. Que se repita mais vezes no futuro.