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Fotografia: Rosana Soares
Publicado a: 17/08/2024

Libido em manifesto musical de vanguarda.

Melífluo: “Gostamos da ideia de chocar com este projecto, não tanto por ser sexual, mas por ser autêntico e muito pessoal”

Fotografia: Rosana Soares
Publicado a: 17/08/2024

No passado mês de Julho, os Melífluo inscreveram o seu nome no catálogo da eclética Profound Whatever com um novo disco, ao Vivo no GrETUA.

Sob a forma de sexteto, aqui composto por Gonçalo Tavares (voz, baixo eléctrico), Arianna Casellas (voz, looper, percussões), Ana Catarina Vigário (voz), Ricardo Vieira (teclado, electrónica), Catarina Estácio (guitarra, baixo elétrico, voz) e Luís Ferreira (bateria), a banda do Porto cruzam jazz e rock de cariz vanguardista com uma componente performativa em que a música se alia à dramaturgia neste que é o seu terceiro trabalho editato, sucedendo ao EP homónimo de estreia, dado a conhecer em 2017, e a N​ã​o há Maria que Aguente, projecto que trouxeram ao mundo em 2020. Nas letras, ora cantadas, ora recitadas em jeito de spoken word, o grupo explora o lado íntimo da relação entre os seus músicos e a pulsão sexual, promovendo neste ao Vivo no GrETUA “uma experiência autêntica, intensa e imersiva, colocando o público em confronto com a sensação libidinosa, uma manifestação humana essencial.”

Já com novas composições a serem delineadas, com vista à edição do seu próximo registo de estúdio, os Melífluo, aqui representados por Gonçalo Tavares e Catarina Estácio, trocaram algumas impressões com o ReB sobre o disco ao vivo que lançaram há um mês e que tem como base um concerto que está também registado numa série de vídeos realizados por Kauê Gindri que podem encontrar quer no Bandcamp, quer no YouTube.



Podem começar, por favor, por me falar na génese deste projecto, Melífluo? Como é que estas pessoas se reuniram e de onde vieram?

[Gonçalo Tavares] Os Melífluo partem do conceito de libido e da minha relação com o mesmo. Era um adolescente constrangido com o sexo oposto e canalizei esse contrangimento para letras e ideias musicais. Estas ficaram a marinar até o arrancar do projecto, em 2016, quando convoquei o resto do colectivo, todos amigos ou amigos de amigos. Achei importante ter uma voz feminina a se cruzar com a minha, sendo que acabamos por assumir a voz cantada da Arianna e o registo teatral da Ana. O projecto nasce oficialmente em Julho de 2017 com o lançamento do Melífluo EP.

[Catarina Estácio] Sim, já foi em 2016 que ele nos atirou um primeiro tema para as mãos, a “The Shower”, inspirada sem pudor algum na “In My Time of Dying” dos Led Zeppelin, e depois nos disse “‘bora brincar com isto e ver o que daqui sai”. A partir daí percebemos que, apesar deste primeiro tema ter sido muito à base de improvisação, se as restantes ideias que o Gonçalo trouxe para cima da mesa fossem para andar para a frente, o espaço dado à palavra teria de ser absolutamente primordial. E aí começou o spoken word, intercalado por pequenas contracenas e monólogos que começaram a dar ao projeto um cariz mais necessariamente performativo e até teatral. Nós em específico viemos de círculos próximos de amigos o que fez com que fossemos praticamente todos da mesma cidade, do Porto, e mais curioso ainda, todos da mesma faculdade (da ESMAE), se bem que de pelo menos quatro cursos diferentes. Foi uma junção bonita e um bocado inesperada.

A designação deste colectivo remete para a doçura do mel e para a sua fluidez, mas esta música soa-me um pouco a antítese disso. Quer dizer, não soa doce (aos meus ouvidos…) e parece-me mais feita de ângulos rectos do que de matéria viscosa e fluida…

[GT] Melífluo é algo que se move como o mel ou outro líquido espesso. Achámos que esta sensação imprimia o carácter estético que pretendíamos associar ao projecto, mas também um movimento a explorarmos no palco, e que ainda estamos a explorar. Ainda que esta música também se faça de abrasão e ângulos rectos, acredito que essa sensação reside no centro, entre a catarse e o sussurro. O movimento lento, espesso, cheio está lá.

[CE] Muito bem visto. Se calhar esta palavra acabou por servir mais como uma espécie de “guia inalcançável” que nos mantinha sempre à procura de algo mais dentro da nossa própria sonoridade. À procura de provocar essa sensação de fluidez espessa e lasciva quando tocada ao vivo e que se aproximasse da experiência que cada um tem da sua própria libido. E sempre, sempre com a mira na performance ao vivo. O porquê de te soarmos a ângulos rectos é que eu já não sei. Talvez isso fale mais de ti do que de nós, mas é certo que as libidos podem ter mil e uma interpretações, sendo intensa ou cortante uma delas, claro.

A natureza erótica dos textos também me parece bem oposta à música, embora alguma violência repentista dos arranjos possa remeter para um lado mais selvagem do acto sexual — uma vez mais, isto pode dizer mais da minha (pouco fértil) imaginação do que da vossa intenção…

[GT] Tanto nas letras como na música procuramos um confronto entre o explícito e o implícito, o frágil e o animalesco, a manifestação pessoal e a explosão do grupo. Esse lado selvagem impõe-se por vezes, mas no âmago dos Melífluo está a certeza de que a potência erótica vem mais da sugestão do que da exposição. Tentamos que todos estes elementos brinquem na imaginação de quem nos vê.

[CE] Olha que, na verdade, até me soa a elogio isso que agora referes. Porque prefiro achar que a nossa música é assumidamente feita de opostos e de relações não imediatamente óbvias, ao invés de representações mais fechadas daquilo que pode ser a estética do erotismo. E tens razão, nós fazemos para que seja selvagem.

Parece-me também — e permaneço no domínio das suposições — que há por aqui alguma intenção de choque. Como reagiu o público a esta performance no GrETUA? Houve algum tipo de manifestação de desconforto?

[GT] Não há uma intenção de choque explícita, mas sabemos que uma performance desta natureza pode ser inusitada. No entanto, o público do GrETUA é trabalhado e já lidou com manifestações mais chocantes. Aliás, senti que quem nos viu se relacionou mais com a performance do que se afastou dela.

[CE] Desconforto só mesmo porque, pelos vistos, a guitarra estava alta demais, para não variar. Mea culpa. Mas de facto, existe algum espaço para desconforto. Os assuntos que trazemos a palco já são em si potenciais razões de choque porque vêm de lugares íntimos e falam de coisas que todos nós sentimos muito intensamente. Pode tornar-se muito pessoal, especialmente ao vivo. Daí algum potencial desconforto, sim. Mas até o reconhecer disso a malta tem tendência a guardar para si.

A tensão masculino/feminino é explorada na dinâmica contrastante dos arranjos e da performance: entre as vozes encenadas, insinuantes, sensuais, expressivas, e a secção rítmica muito vincada, dada a explosões, mais, digamos, convulsas. Houve alguma directriz conceptual nesse sentido?

[GT] A directriz foi o conceito de libido e a vontade de o aplicar no projecto. Há composição musical, dramaturgia e elementos de encenação, mas todos estes são posteriores à tentativa de pureza conceptual a que nós os seis nos obrigamos quando tocamos. O projecto tem que ser pessoal para todos nós individualmente e acho que isso se manifesta nos elementos referidos.

[CE] Claro e completamente. Está na génese do projecto. Ele depende da intenção conceptual com que trabalhamos cada texto. Diria, no entanto, que se trata sempre de um conceptualismo totalmente assente num lado sensorial, sendo isso que queremos que prevaleça — aquilo que os conceitos provocam ao nível dos sentidos. Quanto às dinâmicas masculino/feminino, elas começaram por surgir naturalmente. No entanto, podemos revelar que estamos neste momento a trabalhar num novo tema (dos vários que já estão a dar forma a um novo disco), onde intencionalmente decidimos começar a inverter a nossa tendência natural para um certo male gaze, para agora procurarmos novas formas de olhar a figura masculina sob um olhar assumidamente feminino e por isso mais amplo.

Numa era em que a “moralidade conservadora” assume uma certa violência, como percebemos pelas notícias, e é usada como arma de arremesso político, pode ler-se alguma dose de luta e resistência e de exercício de liberdade neste projecto?

[GT] Acho que sim, apesar de não ter sido intencional. Todas as manifestações artísticas, sendo eminentemente únicas, podem destoar discursos colectivos, que se querem unos e impessoais. Eu gosto da ideia de chocar com este projecto, não tanto por ser sexual, mas por ser autêntico e muito pessoal. A arte pode ser uma lufada de ar fresco dentro de uma conjectura. Eu quero viver numa era em que muitos Melífluos são possíveis, e que podem de alguma forma contrabalançar as vontades de sossego e uniformização.

[CE] Bem, acho que ficaríamos incrivelmente satisfeitos se tal acontecesse. Porque as nossas posições políticas nunca foram muito assumidas, até porque éramos pouco conscientes. Mas o projecto teve de crescer, ele connosco e nós com ele. E assim surgiu, através de mais um inacreditável texto do importantíssimo membro extra de Melífluo, Henrique Teixeira, um novo tema em que vamos até à época dos descobrimentos — para não sermos demasiado originais —, falando de um passado político bem próximo do país. Uma espécie de coming of age do espírito adolescente que deu origem ao projecto.

Este espectáculo foi apresentado em mais lugares?

[GT] Infelizmente não.

[CE] É verdade. Nós assumimos que os esforços colectivos que se reuniram para fazer aquilo acontecer no GrETUA valeram a pena por si só e por aquilo que aprendemos durante aquela residência. Agora seguimos caminho com tudo isso, mais o olhar atento do Kauê Gindri que registou tudo e editou o vídeo-concerto que agora podem ver.

Este disco sai com selo da Profound Whatever, um selo bastante prolífico. Como é que isso aconteceu?

[GT] Ao contrário dos nossos dois EPs anteriores, decidimos publicar este registo com a ajuda de uma editora, para termos apoio nas necessidades do lançamento e acedermos a uma audiência já fidelizada. A Profound Whatever foi-nos recomendada por amigos que achavam que se relacionava connosco. Foi impressionante perceber que há uma editora no Fundão orientada para a música experimental e spoken word com dezenas de LPs publicados. Sinto que são um dos grandes segredos musicais do nosso país, e deu-nos uma vontade imediata de nos associarmos a eles. Para mim, são um bastião contra a descentralização.

Há mais performances agendadas?

[GT] Não, mas iremos voltar para estúdio no próximo ano. Mais novidades virão.

[CE] Faço minhas as palavras do Gonçalo. E é isso.


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