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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 31/05/2024

O rapper angolano toca no Musicbox a 7 de Junho.

MCK sobre Sementes: “É um álbum que mostra como pequenos gestos podem alterar toda uma realidade”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 31/05/2024

Nome maior do rap angolano, MCK lança esta sexta-feira, 31 de Maio, um novo álbum, Sementes. Trata-se de um disco conceptual, baseado na ideia da semente de abóbora, que, embora pequena, apresenta um alto valor nutricional. MCK olha para os seus actos as suas mensagens, os seus versos, as suas acções criativas e cívicas como essas pequenas sementes que podem gerar uma floresta inteira de transformações positivas na sociedade.

Como sempre, olha para os diversos planos da realidade angolana a corrupção, a falta de dignidade laboral, o valor da paternidade mas sobretudo da “mulher inteira”, entre outros assuntos para fazer um retrato social do seu país, agora com uma perspectiva mais madura, num disco construído com diversos instrumentistas e convidados.

MCK apresenta o álbum mas acima de tudo faz uma retrospectiva da sua carreira a 7 de Junho no Musicbox, em Lisboa. Leva consigo Valete, Bia Ferreira e o humorista Gilmário Vemba. Os bilhetes estão à venda por 13€. O Rimas e Batidas encontrou-se com o rapper angolano na Casa do Comum, em Lisboa, para uma conversa em torno do disco.



Qual foi o ponto de partida para este álbum? Tens um processo criativo constante, em que vais escrevendo e ouvindo beats, vais fazendo músicas e a coisa depois começa a compor-se e a tornar-se um disco? Ou, neste caso, houve um ponto de partida antes de começares, de perceberes o que querias abordar, que tipo de sonoridades é que querias explorar? Como foi?

O álbum foi todo concebido com a lógica de: vou fazer um disco para o MCK. Porque é um disco que faço com uma maturidade artística, em que já tinha a noção daquilo que queria fazer. Os outros discos são muito de afirmação, de experimentação, e sem o conhecimento real daquilo que eu quero. Foram sempre processos criativos muito dependentes do beat que recebes do instrumentista ou do beatmaker. Mas, para este disco, foi estar com um feeling e ir falar com instrumentistas, que é algo mais expressivo e forte. Há um tema que fiz com o Daniel Nascimento, o “Mercados Aéreos”, que é ir ter com um guitarrista, um baterista, um percussionista… que foi o Dalú Roger, que por acaso é pai do T-Rex e muita gente não sabe, e é uma relação de intimidade completamente diferente com cada som que entra no álbum em relação ao disco passado. 

E mesmo em termos sonoros existem muito mais possibilidades quando trabalhas com instrumentistas.

Há mais possibilidades. Em vez de reproduzires um som africano com um sample, é chamares alguém que executa uma guitarra ou um instrumento… Por exemplo, o Dalú Roger tocou cinco instrumentos na música em que ele participa. Para mim, foi um seminário de cada instrumento. O cota é tão criativo que ele fabrica e pesquisa sobre instrumentos… Fiquei muito feliz por contar com estes profissionais. Por isso, sim, ao contrário dos outros álbuns, neste criei primeiro o conceito. É um álbum inspirado no valor nutricional da semente de abóbora. Na capa que fiz com o Nando Pontes, um artista brasileiro, vais reparar que tem sempre a semente ou o desenho da abóbora. Inspirado pelo valor nutricional dessa semente, com pequenos gestos enquanto artistas ou activistas, na provocação, com acções cívicas, mostrar como pequenos gestos podem alterar toda uma realidade. Como é que pequenos feitos nossos podem contribuir para a transformação de uma grande sociedade. O álbum é inspirado nisso, de que um acto menor… Rapidamente a palavra “menor” se transforma em “enorme”. É pegar em exemplos pequenos, no ciclo natural de uma planta…

Porque escolheste a abóbora?

Porque é uma semente com um valor nutricional elevado, que tem muitas proteínas e valores para a saúde humana. Como é que um pequeno machado pode derrubar uma grande árvore? Como é que um movimento de pequenos activistas e artistas conseguiu, por exemplo, sacudir o poder político e criar discussões públicas em Angola? Como é que o impacto de uma música pode ser útil para a transformação de uma sociedade? Esse é o grande objectivo e todo o processo criativo do álbum desenvolveu-se em cima disso. Ou seja, não tenho convidados expressivos, não queria ter nenhuma figura super expressiva… Até abri mão do meu companheiro de trincheira que é o Luaty Beirão, o Ikonoklasta, um artista enorme, para pegar em artistas quase desconhecidos do grande público com um potencial artístico muito forte. Tive também esse cuidado em chamar apenas artistas pequenos no nome, mas grandes na profundidade artística.

Mais um acto que representa essa semente.

Sim, e eles vão ser árvores depois de o álbum sair [risos]. Vão ser ouvidos como uma voz no disco. A inspiração e a dinâmica de criação foi esta. Depois, outra coisa que fiz na escolha de temas foi pegar em assuntos fracturantes da nossa sociedade, que, apesar de os vivermos todos os dias, não há discussão em torno deles. Como é o “Gérmen, Pobreza Reproduzida”, em que falo da questão da empregada doméstica e do segurança, que são das personagens mais desrespeitadas da nossa realidade jurídico-laboral. E até nós que temos alguma consciência cívica e jurídica acabamos a cometer o mesmo erro de reproduzir a pobreza, mantendo aquele imaginário colonial de quem tinha uma Mariazinha, uma empregada doméstica em casa, e lhe pagava mal ou a humilhava, sem respeitar a sua dignidade. Continuamos a reproduzir isso em pleno século XXI, a ter uma profissional sem dignidade salarial, que apesar de ter estabelecidas garantias e direitos jurídico-laborais fundamentais, quase ninguém os respeita. A empregada doméstica quase nunca tem um cartão da segurança social. Ou seja, vai trabalhar toda uma vida, mas quando se reformar não tem nada. Ela abre mão das suas coisas para tratar da vida de outras pessoas e tem um mísero salário. Pode trabalhar duas vidas que não consegue ter um mínimo para cuidar da saúde, da educação ou para se alimentar em condições. Não lhe é assistido o respeito do direito às férias, quase nunca gozam férias, não têm subsídio de férias nem de Natal. Quando são despedidas, na maior parte dos casos não são indemnizadas. E em muitos casos são abusadas. Trabalham mais do que as horas estabelecidas por lei e quase nunca celebram um contrato escrito. Tudo isso são direitos e garantias constitucionalmente consagrados, tanto pela lei geral do trabalho como pela Constituição da República de Angola, que violamos todos os dias e não há discussão sobre isso. Trazer isso para a música é estimular os académicos, os juristas, as universidades, a sociedade civil, os partidos políticos, todas as pessoas que influenciam na legislação, que podem denunciar, alterar o quadro e discutir isto. Primeiro, é preciso admitir que estamos todos errados.

Primeiro é necessário apontar o problema para depois se identificarem as soluções.

E encontrar caminhos. Com o segurança privado é exactamente igual. Tem um objecto de contrato que, basicamente, é guardar o património da entidade patronal, mas, por ganhar muito mal, é outro profissional que é humilhado. É obrigado a fazer outro tipo de trabalhos, a lavar o carro do patrão, a levar o miúdo à escola, a fazer as compras do patrão, quando o seu objecto de contrato diz outra coisa. Mas ele faz isso porque está numa situação humilhante, de falta de dignidade salarial. Trazer isso para a discussão é colocar uma semente que pode provocar transformações geracionais. Se essa profissão puder ter uma reforma estás a assegurar mais de seis pessoas em cada caso, porque é a média por família em Angola. 

São duas profissões que ilustram bem essa falta de protecção social e de dignidade que existe para com a generalidade da população.

Exactamente, e trazer isso para a discussão é provocar um debate que pode alterar esse quadro. Há um outro tema que é “A Corrupção Venceu”, que é onde tento mostrar que o combate à corrupção é uma necessidade soberana do povo. Porque o povo é o titular do poder político. Os estados são constituídos, tecnicamente, por um poder político e um espaço geográfico. Então, esse combate deveria ser do estado, deveria ser um dever das pessoas, de protegerem os interesses de prosperidade de todos e não um capricho do presidente da república, que faz no seu tempo, com os seus critérios políticos. E dizer sobretudo que esse combate não pode ser levado pura e simplesmente como um combate de justiça penal mas sobretudo como um combate ético e de exemplos, de transparência, de modelos comportamentais que inibem essas práticas de corrupção. Estou a falar, por exemplo, de dar maior dignidade aos próprios profissionais do sector público; se eles tiverem os salários miseráveis que ganham, o estado vai fingir que paga e eles vão fingir que trabalham. E a vulnerabilidade dos salários baixos leva as pessoas a cometerem o crime de peculato. Se não tivermos uma imprensa livre que consiga fazer programas de dar lugar à liberdade de expressão, de denúncia de práticas lesivas ao erário público, de desvios, quando um político está em conflito com a lei, quando um político tem a sua função e os seus negócios em conflito, se não se denunciar isso publicamente estamos vivamente a contribuir… Enquanto não estabelecermos programas rigorosos de controlo contabilístico, de gestão da coisa pública, e não só a justiça penal mas também os moldes não penais, estaremos sempre a contribuir para a reprodução da corrupção. Eu digo que a corrupção venceu se o critério não for de legalidade, se não for de imparcialidade, da escolha de quem vamos constituir arguido. Se for um capricho político e não um combate aberto para quem está numa situação de conflito com a lei, então vai ser um charme político e não propriamente um combate efectivo que venha surtir efeitos e benefícios colectivos para a população.



Quando falámos pela última vez, estava a acontecer a transição do poder em Angola. Hoje, oito anos depois, sentes-te mais livre para expressares o que queres na música? Ou acreditas que a situação está idêntica, nesse sentido da liberdade de expressão e artística?

A liberdade de expressão e artística, neste momento específico em Angola… Até tens mais liberdade de expressão, mas tens menos liberdade de imprensa. Porque, no âmbito do combate à corrupção, houve a recuperação coerciva de activos. E boa parte daquela imprensa que pertencia aos PEPs Pessoas Expostas Politicamente e ligadas ao regime por conta dos processos judiciais muitas passaram para a esfera pública. Ou seja, nesse espaço não têm liberdade de actuação. 

Ou seja, há muito menos imprensa livre. Mas, enquanto músico, sentes que tens mais liberdade de expressão?

Nós temos a grande vantagem de termos o contrapeso que são as redes sociais. Mas uma música como “A Corrupção Venceu” não tem espaço nenhum na imprensa angolana sobretudo na imprensa pública. É uma coisa que nem se equaciona em Portugal. E vou ao Brasil e posso tocar essa música em qualquer sítio. Em Angola não ela só toca na Rádio Despertar, uma rádio afecta ao partido da oposição, a UNITA. Mas é uma música que faz uma reflexão normal, daquilo que é a minha perspectiva, sobre a forma como está a ser conduzido o combate à corrupção em Angola.

E num país com menos presença da Internet, essa imprensa os intermediários entre o público e quem cria tem um peso maior do que aqui. Porque em Portugal é muito mais fácil para um artista comunicar directamente para o seu público através das redes sociais ou das plataformas digitais. Não necessita tanto da rádio ou da imprensa, ao contrário de Angola, onde esse gatekeeping ainda existe.

E, fundamentalmente, o facto de teres um conflito de interesses em Angola… O empresário é o político em Angola. Apesar de ter responsabilidades públicas, é árbitro e jogador. Os detentores das empresas de comunicação são pessoas ligadas ao estado. E essas pessoas, obviamente, escolhem os conteúdos a passar. Isso determina muito o que é a cultura geral colectiva. A imprensa em Angola continua a ser muito partidária, então aqueles artistas mais alternativos, mais independentes ou com um discurso mais político e mais incómodo, não têm espaço para a divulgação em Angola, infelizmente. Essa é a realidade.

Não é algo, então, que se tenha alterado particularmente.

Não, continua igual. E é mais agressivo ainda porque boa parte daquela imprensa “privada” deixou de o ser e passou para o estado. Hoje temos uma imprensa completamente amordaçada em Angola. Não tens espaços para divulgar conteúdos contrários àquilo que é a vontade do governo. 

Em termos de processo criativo, há pouco descrevias esse contacto com os instrumentistas e a forma como os instrumentais nasceram. Tendo em conta que tinhas esse ponto de partida temático para o álbum, já tinhas letras que depois foste juntar a esses instrumentais? Ou, apesar de já teres os temas, acabaste por escrever já quando tinhas os instrumentais mais compostos?

Dependeu muito de cada música. Há muitas que foram criadas no processo do álbum… O “Mercados Aéreos”, por acaso, era uma que já tinha na cabeça há algum tempo. É uma música inspirada na venda informal e ambulante muito presente em Angola, que é feita nas pontes pedonais. Aquilo sempre me fez uma grande confusão, a figura da zungueira, que é a vendedora ambulante, que acaba sendo um elemento transversal a todas as famílias em Angola. Há muito desemprego e as pessoas que estão empregadas estão maioritariamente no comércio informal. E essa figura da zungueira é tão criativa que até desafia leis económicas de Adam Smith ou de John Maynard Keynes, porque a sobrevivência leva-as a serem criativas, a criarem sempre fórmulas para alimentarem os filhos. A “Mercados Aéreos” é uma homenagem a essas profissionais, a essas zungueiras que são das maiores amostras do nosso continente: uma mulher com material na cabeça e um bebé nas costas. É o maior exemplo de sobrevivência, resistência e luta indefesa dos seus. É uma homenagem.

E olhando para o álbum e para as diferentes temáticas que acabas por abordar ao longo das músicas, obviamente há temas em que já tocaste anteriormente, mesmo que de forma distinta, com outras perspectivas e agora também tens a tal maior maturidade que te permite ir mais longe ou fazer um aprofundamento diferente, mas sentes que há algo aqui que ainda não tinhas abordado de todo, mas que desta vez ousaste ir por aí?

Sim, por exemplo, nos álbuns anteriores não tinha filhos. E a terceira faixa, “Sémen, Extensão Humana”, é uma música que dedico aos meus filhos, sobre a relação que estabeleço com eles, o facto de não viver com eles, o sofrimento que tem a ver com a distância, é a extensão humana que não está em mim, e como aproveito o momento útil que tenho com eles. É uma música de explicação, de tradução afectiva daquilo que sinto… É uma exposição híbrida de sentimentos, culpa, amor, tristeza, alegria, preocupação com o futuro delas… E como lutar para defender o interesse deles, e apesar de não viver com eles conseguir deixar-lhes uma semente de valor educacional.

E suponho que tenha sido terapêutico para ti reflectir sobre estas questões.

Essa é a expressão certa. É uma música de introspecção e terapia. É cura através das rimas. Tenho também a música “Terra e Estrume”, para gozar com a cena das sementes, que para serem jogadas numa terra têm que ter estrume, e nesta faço uma espécie de homenagem aos humoristas de stand-up comedy de Angola, que é algo que está a crescer muito. O Gilmário Vemba está muito forte, mas também há o Tiago Costa, da produtora Goz’Aqui, que usa o humor para fazer uma crítica social muito forte. E são super expressivos. Neste tema quis dar uma contribuição sobre como, através da ironia ou da comédia, podemos passar mensagens extraordinárias para mudar a consciência ou para alertar ou para denunciar determinadas coisas da nossa sociedade. 

É uma actividade e uma arte complementar à música de artistas como tu.

Exactamente. Depois tenho o tema “Mulher Inteira”, onde vou buscar um rapaz chamado Lurhany, diferente da minha geração e do Luaty, mais old school, mais ligados à letra e à mensagem; ele é de uma geração de artistas extraordinários mais preocupados com a musicalidade, com a vibe, a wave, o feeling. E eu queria fazer esse contraste, porque o Lurhany é um artista que vende bem isso, e fizemos uma música onde falamos do valor da paternidade. Falar de um pai não como um mero progenitor, mas como alguém que cuida. E sobretudo destruir aquelas ideias feitas e super preconceituosas contra a chamada mãe solteira. Estou a entrar aqui ao ataque contra todas as pessoas que tratam a mulher… Ela até pode ser casada, mas como as nossas sociedades são muito machistas, se a mulher casada se separar e ficar a cuidar do filho, tornar-se numa família monoparental, ela é vista como mãe solteira. Quando solteiro é só um estado civil… Estou a falar disto e da fuga à paternidade, que é algo que nunca abordei nos outros álbuns, e estou a dar uma perspectiva muito mais jurídica ao disco, estou a chamar a atenção para este que é um dos grandes males que existem em Angola, o facto de existirem muitas pessoas que fazem filhos e depois abrem mão das suas responsabilidades. Falo fundamentalmente da prestação de alimentos, e da assistência de um modo geral com os miúdos. Depois tenho o “Açúcar Mascavo”, que também tem uma perspectiva que eu não tinha feito antes. É uma música que comunica muito a pensar no Brasil, onde existem estas discussões cada vez mais presentes.



Há pouco falavas dos convidados, de quereres ter nomes mais discretos, as tais sementes por representarem esse conceito… Foram nomes que surgiram de forma orgânica tendo em conta aquilo que cada música pedia?

São artistas que sempre acompanhei e admirei. No acto criativo fui encaixando-os, em função dos temas. A música com o Tio Hossi fazia todo o sentido porque ele faz-me lembrar um artista que trabalhou muito comigo e que já cá não está cá, o Beto de Almeida. Eu queria ter alguma coisa numa língua nacional de Angola que é umbundo, e ninguém melhor do que ele. É um artista com esse valor patrimonial, que domina a língua, que é das melhores para serem ouvidas em canto. E tem aquela musicalidade do canto sofrido africano. Escolhi o Tio Hossi por causa disso. O Rezo Luto, na música “Direitos vs Favores”… Na verdade a música era dele, foi ele que me convidou para participar no álbum dele. Mas eu ouvi o som e disse-lhe: “Porra, brother, este som faz todo o sentido no meu álbum.” Na altura ele disse que não, que ia para o projecto dele, eu fiz o meu verso e mandei, e ele depois ligou-me a dizer: “Porra, K, faz mais sentido esta música estar no teu álbum.” Ele lançou um disco no ano passado e é um dos artistas que eu mais estava a ouvir na altura. É um puto com menos de 30 anos, muito talentoso, que tinha tudo para fazer o caminho dos outros, fazer uma coisa que toca e vende mais… Mas ele tem uma educação musical que o leva a ter uma preocupação estética que eu valorizo muito, tem aquela fome da escrita, preocupa-se com o conteúdo e com a escolha da palavra a empregar. Então fazia todo o sentido.

Tocas no Musicbox, em Lisboa, a 7 de Junho. O concerto vai ser muito focado no álbum, é uma performance clássica de apresentação?

Não, vamos passar em revista os cinco discos, porque é importante fazer uma fotografia do que foi feito até agora. Tenho convidados muito especiais, como a Bia Ferreira, que se tem apresentado aqui com alguma regularidade e eu sou fã dela, fiquei muito feliz quando aceitou participar no espectáculo; já nem vou falar do Valete, temos uma ligação, é dos artistas que mais respeito e admiro; e talvez a grande novidade seja trazer o Gilmário Vemba. Muita gente não sabe, mas ele tem uma personagem de rapper que é o MC Esquecido. Vamos ver se ele consegue ressuscitar essa personagem [risos]. 

Será um momento humorístico dentro da performance?

O Gilmário é muito bom a fazer freestyle, então ele vai fazer comigo um tema e depois terá um momento de stand-up dele. 

Sentes que é importante fazer essas pontes entre diferentes áreas artísticas que, no fundo, remam para o mesmo lado com as suas características distintas? Imagino que o humor, mesmo quando é mais crítico, talvez consiga chegar um pouco mais longe em Angola, pela natureza da arte, por não depender tanto das rádios nem da imprensa…

Neste projecto tive a preocupação de reunir profissionais das mais diversas áreas artísticas, que comunicam com essa visão preocupada com o conteúdo. Os artistas que fizeram as duas capas o Nando Pontes fez a digital, é um writer pesado do Brasil, que já trabalhou comigo e com o Valete noutras coisas, e é dos que mais respeito e admiro… Gosto de artistas que comuniquem com conceitos funcionais e que tenham um valor artístico forte. Depois, fiz uma segunda capa com outro artista plástico, o Horácio Dá Mesquita, especificamente para o vinil, que foi feito à mão com aguarela. Acho que vai ser o primeiro vinil de rap em Angola. Eu tenho uma ideia do consumo humanizado… Pelo facto de não termos tanta Internet, ainda há a cena de a música criar laços de cumplicidade entre o artista e o ouvinte. O pessoal ainda quer ter o disco assinado, quer fazer a fotografia, nós ainda valorizamos esse processo. O pessoal ainda quer ler a ficha técnica. Acho isso fixe e meter isto num vinil pode ser vaidade artística, mas dá a sensação de que as poucas pessoas que comprarem vão comprar porque sentem aquilo e irão achar aquilo precioso. Valorizo bué esses pequenos detalhes. Também será uma edição limitada de 200 cópias. Noutra área, o videoclipe do “Gérmen, Pobreza Reproduzida” fiz com o Edgar Cláudio. Ele fez uma curta-metragem para traduzir todo aquele conteúdo. Porque também acho importante comunicar no cinema aquela realidade adormecida de Angola. E em vez de fazer um videoclipe tradicional de rap, escolhi alguns actores que respeito e admiro muito, para traduzirem aquilo que era a mensagem que eu queria passar… Tenho essa preocupação em jogar com as mais variadas artes para comunicar a nossa mensagem, para transmitir esperança e essas sementes de mudança que acho fundamentais. Dá outra perspectiva, outra dimensão para a minha arte. Felizmente, o álbum tem isso.


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