Começou por dar que falar em diferentes concursos de televisão, entretanto foi aparecendo aqui e ali nos créditos de alguns temas, e ultimamente tem sido bastante referenciado enquanto professor de canto de artistas como iolanda, Maudito e Navalha, entre tantos outros que guardaram segredo.
Agora, Matheus Paraizo apresenta-se em nome próprio com um single de estreia, “Nada Muda”. É o primeiro avanço de um álbum que está a caminho, que tem vindo a ser construído ao longo dos últimos anos e que irá reflectir uma honestidade e transparência em relação aos sentimentos e pensamentos do artista.
O Rimas e Batidas aproveitou o lançamento do single, um registo R&B com co-produção do próprio, para entrevistar Matheus Paraizo sobre “Nada Muda”, o disco que aí vem e o seu percurso até aqui.
Obviamente, já fazes música há bastantes anos. O que é que te leva só agora a apresentares-te com um single de estreia? Qual é o contexto?
Foi um processo de: “Tem de ser agora.” Bem, isto já acontecia há muito tempo. Escrevi a “Nada Muda” há cinco anos e tive que passar pelo processo de deixar ir. Tal como um pintor pode sempre adicionar mais à sua pintura, mas depois tem que decidir, em certo momento, que já acabou e tem de ser. Foi o meu caso. Sou muito perfeccionista. Esta música poderia ter sido lançada há três anos. Mas foi agora que consegui arranjar uma equipa e tudo o resto, em que cheguei a um estado da música — e de todas as outras — em que acho que: “Ok, agora já está pronto.”
E como é que esta música nasce? Havia a ideia de explorares este tema? Começou com o instrumental?
Fui eu a produzir no Logic e tinha um sintetizadorzinho e uma ideia de um beat na minha cabeça, e basicamente foi quando me obriguei a sentar-me e a escrever alguma coisa. E escrevi exatamente sobre isso, sobre ter que me obrigar a fazer coisas.
Houve algum motivo em especial que te levou a escrever sobre isso?
Uma amargura muito grande de me sentir estagnado, porque tenho ambições, não de chegar a certos sítios ou de cantar em certas coisas, não tem muito a ver com a minha carreira, mas mais a nível pessoal, de querer ser sempre melhor e ver-me a não estagnar na minha vida. Na altura estava tão estagnado, tão, sei lá, derretido, numa rotina que não me acrescentava nada. Sentei-me e obriguei-me a escrever a música porque disse a mim mesmo “faz qualquer coisa”. Acabei por escrever sobre isso mesmo.
Uma forma de também processares isso que sentias.
Sim, sim. Ou seja, nada disto iria surgir se eu não fizesse também journaling. Este projecto é todo sobre isso. Basicamente, comecei a ter muito mais awareness do que sentia e do que achava, e isso fez com que conseguisse escrever melhor algo sincero, porque antes tudo o que escrevia era numa tentativa de soar a X ou Y, e acabei por cagar nisso, completamente, e só escrever o que realmente penso, sem estar a pensar sequer se a música vai sair ou se vai ser X ou Y.
Este projecto de que falas será um álbum?
É um álbum, terá mais singles e acho que não posso dizer mais nada, por enquanto. Ainda não há mesmo uma data.
E o disco vai seguir esta linha do journaling que descrevias por reflectir os teus sentimentos e pensamentos de uma forma honesta? É um álbum que vai ter uma palete de tons diferentes mas que reflectem quem és?
Gostava de dar spoiler do nome do álbum, mas prefiro manter surpresa. É, basicamente, sobre ser extremamente honesto para que possa haver crescimento, sabes? Porque acho que, muitos de nós, tentamos convencer-nos de certas narrativas que não nos servem, e acabamos por patting the back e não assumirmos certas falhas e certas coisas, ou certos sentimentos que são feios, e eu acho que é sobre isso, é sobre a relação comigo mesmo e a minha relação com os outros. É ser extremamente sincero com o outro e comigo mesmo.
Em termos musicais, sentes que vai seguir um bocadinho a linha deste primeiro single, ou nem por isso e vai incluir coisas muito diferentes?
Não te sei responder muito bem a essa pergunta porque eu próprio não acredito muito em géneros musicais. Acho que hoje em dia é algo que está extremamente mesclado e não sinto a necessidade de colocar a minha música numa caixa, mas também não digo isto porque acho que a minha música é super diferente e que é uma mistura de tudo, sabes? Na sua génese, é R&B. Nem todas as músicas são R&B, mas definitivamente tem muita influência do hip hop e do jazz, que é isso que é o R&B, não é? Acho que a cola é realmente esse motto. E é a maneira como canto e como me expresso.
E será tudo produzido por ti?
Não. Ou seja, eu co-produzi tudo, mas temos o Kidonov, o Ned Flanger, o Luar, o miguele e o Stefan Silva, que são todos amigos do fundo do coração, e foram eles que me ajudaram definitivamente a levar este projecto para a frente. Principalmente o miguele e o Stefan, que foi na altura em que eu não queria fazer disto uma cena. Consegui começar a escrever este álbum exactamente porque deixei de querer que a música fosse algo profissional na minha vida. Foi quando me deixei disso, em 2020, e pensei: “Esquece. Esquece isto e faz por gosto. Faz porque realmente gostas de fazer e de exprimir.” Pronto. E lembro-me de, na altura, mostrar ao miguele e ao Stefan as músicas que tinha: “Olha lá esta foleirada.” E eles ficaram bastante surpreendidos e acharam: “Não, isto está bom o suficiente, ‘bora fazer um álbum. Mas sem expectativas.” E eu: “Ok, ‘bora começar.” E de repente começou-se a tornar algo mesmo muito sólido. Se não fossem eles a puxarem-me, não sei se estaria aqui onde estou a ter esta entrevista contigo.
E não te querendo, como tu próprio disseste, colocar-te numa caixinha, mas como falaste em R&B, sentes que as tuas referências sempre foram muito por aí? Ou sempre foste muito eclético e ouviste coisas muito diferentes que te tornaram o artista que és hoje?
Sim, definitivamente passei por várias fases. Ou seja, cada uma das fases de crescimento, de experimentação, de quem eu era, de identidade, aquilo que todos temos quando somos adolescentes… Cada uma dessas fases foi acompanhada por um género de música diferente. O R&B só começou a aparecer na minha vida de jovem adulto.
E o que é que ouvias antes, por curiosidade?
Tive uma altura de MPB, que foi ao crescer, o Caetano Veloso e assim, porque é a minha família, sou luso-brasileiro. E depois foi muito rock, também influenciado pelos meus irmãos, as grandes bandas de rock. Depois passou muito por pop. Depois tive uma fase, que foi pequenina mas ainda assim grande e importante para mim, de hardcore, post-hardcore, algum metal, ouvia muito isso… Era um adolescente enraivecido. E depois fui para o indie, para o folk. Ouvi muito Daughter, muito Bon Iver, e foi a partir dessa fase que começou a despertar a minha veia mais palpável e artística com música, de perceber melhor música e não ser só um consumidor. E depois é que começou a passar para o hip hop, para o jazz, para o R&B.
Sentes que és o resultado desse caldeirão musical? Ou seja, sentes que as influências, as coisas que ouviste, do rock ao indie, ainda se reflectem em ti, de alguma forma? Se calhar não directamente, imagino.
Se calhar não directamente, mas tudo na minha vida… pelo menos faço um esforço para que tenha uma influência na minha pessoa. Porque quer dizer que consegui analisar, tirar alguma conclusão e aprender com isso. Não acho que as minhas influências do post-hardcore estejam presentes neste álbum, mas talvez me tenham ajudado emocionalmente na altura para ultrapassar certas coisas que me deram uma maturidade emocional para escrever este álbum, por exemplo.
Muitas pessoas conheceram-te quando participaste nos programas de televisão. Como é que deste os teus primeiros passos como músico?
Foi definitivamente nos programas de TV. Foi aí. A música foi-me apresentada muito cedo e acho que foi só um veículo que escolhi. Porque eu gosto é de performance. Gosto de utilizar o corpo para me exprimir. Amo dançar, amo fazer acting. Just for fun, amo fazê-lo. Mas a música ficou comigo e foi uma coisa em que investi muito tempo. E eu até digo que foi por acaso, sabes? Porque poderia ter sido outra coisa, mas a música foi aquilo que escolhi. E depois começou a ser algo mais exterior, que já estava a ser testado… Eu expus-me, a partir do momento em que fiz o meu primeiro programa de televisão, em 2011, Uma Canção Para Ti. E foi aí que me comecei a aperceber de que gosto mesmo de cantar. Depois fiz o Factor X.
E essas experiências televisivas foram importantes nesse sentido de aprimorares a tua performance e perceberes o que é que de facto querias?
As primeiras duas, definitivamente, de forma inconsciente. O The Voice foi diferente. Eu já sabia interiormente que não era para mim, não seria algo que fosse artisticamente fulfilling para mim. Mas foi numa de desespero, de querer tanto ser bem-sucedido a fazer aquilo de que gostava, porque estava em empregos para pagar as minhas contas e queria desesperadamente fazer música. Tive essa oportunidade de ir ao The Voice, achei que me poderia abrir portas e fui. Mas é engraçado que, das três, foi a que foi emocionalmente mais forte e aquela que me deu uma maior aprendizagem.
Também tens aparecido no radar do Rimas e Batidas, mencionado em entrevistas com o Maudito ou o Navalha, enquanto professor de canto. É algo que também te agrada fazer, ajudar outros a explorar a sua voz na música?
O meu trabalho começou mesmo como professor de canto, que era para ter alguns trocos a mais. Mas na altura comecei-me a apaixonar realmente por aquilo que é a pedagogia musical e principalmente do canto, porque o canto é… Cantar é feito com a mesma voz que tu usas para dizer que sim, para dizer que não, para dizer um amo-te, para dizer um odeio-te, e acaba a ser extremamente emocional e psicológico. Foi isso que me atraiu muito, que certas barreiras, para serem ultrapassadas, é preciso haver uma introspecção muito grande sobre como nós queremos ser percepcionados, como nós nos percepcionamos, o que é que aconteceu na nossa vida para nós colocarmos a voz de certa forma ou não. A nossa identidade é formada também através da nossa voz. Portanto, isso acabou por ser algo que me motivou muito mais para ser professor e hoje em dia é o meu trabalho. E agora também está a passar muito por tornar os cantores independentes, ou seja, para eles conseguirem perceber o sistema musical, terem um bocadinho de teoria musical — não ler pautas, mas perceber como é que funciona a linguagem musical para poderem abrir um programa de música, conseguirem criar as suas próprias demos, conseguirem sentar-se ao piano e fazer uns certos acordes, conseguirem estruturar as coisas, porque normalmente os cantores são muito dependentes de produtores, de outros músicos, e acabam por se sentir não respeitados e até minimizados, porque eu próprio também passei por isso. Na área da música, os cantores às vezes são literalmente vistos como menos. E batalho muito para que se tornem independentes, para que isso também não aconteça e para termos um sentido de rumo e de liderança do nosso próprio projecto.
Queres mencionar outros exemplos de artistas com quem tenhas trabalhado?
Trabalhei com a iolanda, para a preparação para o Festival da Canção… Com quem trabalhei mais? Não sei se posso dizer muitos nomes, porque nem todos são públicos, e por uma questão de prática pedagógica…
Claro, compreendemos. E também suponho que gostes de trabalhar com pessoas com vozes diferentes e com abordagens musicais distintas, até porque essa diversidade é sempre positiva na música.
Definitivamente. Não é algo em que pense muito, porque, como professor, estou bem focado em criar ferramentas, seja para o que for; ou seja, criar autonomia para a pessoa, porque é isso o trabalho do professor ou de um educador, é para que a pessoa ganhe ferramentas para criar o seu próprio caminho. Então, às vezes pouco me interessa qual é realmente o caminho. Obviamente que se for algo que eu estou muito mais a par, por exemplo, se for muito mais o meu estilo de música, há-de ser um bocadinho mais fácil e intuitivo para mim, mas gosto do desafio de não ser. Se é essa a pergunta, gosto mesmo do desafio de não ser, porque para mim não é ensinar a fazer runs de 30 notas, é tudo o resto. Eu amo, com tudo o que tenho, ser professor. As pessoas assumem que só faço isto por dinheiro e é mentira, não quero nunca deixar de ser professor, isto é uma coisa que quero fazer a longo prazo, sei lá, abrir uma escola somewhere in time.