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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 05/07/2024

À conversa com o emblemático produtor e engenheiro de som.

Mário Caldato Jr.: “Na música não há fórmula perfeita, simplesmente tens de estar aberto”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 05/07/2024

Nascido no Brasil mas criado nos EUA, Mário Caldato Jr. é hoje uma instituição da gravação, produção musical e engenharia de som. Tanto que vem ao festival MIMO, em Amarante, mais concretamente ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso, no dia 20 de Julho, fazer uma retrospectiva da sua carreira e partilhar experiências com os interessados neste mundo.

Tornou-se conhecido por ter trabalhado em quatro discos dos Beastie Boys, grupo que acompanhou durante quase uma década. Mas Mário Caldato Jr. trabalhou com muitos outros, desde Björk a Mallu Magalhães, passando por Tone Loc, Jack Johnson, Beck, Soulfly, Blur, John Lee Hooker, Manu Chao, Yoko Ono, Marcelo D2, Seu Jorge ou Vanessa da Mata, entre tantos outros que poderíamos mencionar. É um currículo impressionante.

A propósito da sessão no MIMO, o Rimas e Batidas ligou para Los Angeles para conversar com o premiado produtor de 63 anos.



Que sessão será esta no MIMO?

No festival vou falar um pouco sobre a minha vida, caminhos por onde andei na minha vida com a música, as pessoas com quem trabalhei… Algo que cubra a minha história na música e todas as pessoas diferentes com quem trabalhei. Será uma espécie de antologia do meu trabalho, das coisas que fiz, como cheguei lá e como aconteceram os processos, como é que uma coisa levou à outra. É sobre a minha viagem pela música.

E aposto que muitas pessoas o contactam regularmente para perguntarem como é que se iniciou na indústria e como é que foi trabalhar com este ou com aquele artista. Quais são as coisas sobre as quais as pessoas mais costumam estar curiosas?

É exactamente isso, sobre como é que comecei, o processo enquanto miúdo, entrar na música, tocar em bandas e depois, aos poucos, entrar na parte de gravação e, eventualmente, começar a trabalhar em produção, engenharia de som e na mistura e masterização. E sobre trabalhar com diferentes géneros de música, o que também é interessante, porque eu tornei-me popular ao trabalhar com rap, mas depois comecei a fazer coisas mais na música alternativa e, a seguir, a trabalhar com artistas internacionais, muitos brasileiros… Estilos diferentes que acabaram por se misturar todos. Há muitas histórias diferentes que me levaram a este sítio.

O seu primeiro sonho na música era ter bandas e tocar ao vivo? 

Quando eu era novo, sonhava com outras coisas. Eu queria ser um astronauta, o meu pai queria que eu pilotasse motas e carros, mas acabei por ficar agarrado à música. Não sonhava com isto, mas gostava de estar envolvido, estar numa banda, participar em festas e tocar… Gostava muito disso. E os meus pais foram os primeiros a plantar uma semente. Compraram-me um teclado quando eu era pequeno e, depois, um piano. Esse foi o meu início. E depois os meus amigos encorajaram-me.

Houve algum momento específico no seu percurso em que se apaixonou pela componente da produção, da gravação e da engenharia de som?

Havia um certo entusiasmo que sempre esteve lá, desde o início em que descobri as gravações. Eu comecei por tocar um pouco, era muito entusiasmante, e depois apercebi-me de que não era tão bom músico como queria ser, e quando descobri o lado da gravação percebi que estava mais interessado nisso. Encontrei muita alegria em produzir e fazer os sons. Para mim, isso era mais entusiasmante do que estar no palco. E sentia-me mais confortável em fazer isso nos bastidores. E poder controlar os sons, moldá-los e alterá-los… No fundo, poder criar diferentes paisagens coloridas. Isso aconteceu-me quando eu tinha 20 e poucos anos, com o meu amigo Matt, o meu mentor, que me ensinou a gravar. Aconteceu muita coisa nessa altura, mantive-me nessa viagem durante anos, até que eventualmente tive a oportunidade de trabalhar com alguém que me deu uma chance para fazer a mesma coisa de uma forma diferente, de uma maneira profissional, a fazer música rap.

O Tone Loc?

Sim, foi o primeiro. Isso deu-me muita confiança. O primeiro disco que produzi e em que trabalhei teve um grande sucesso. Foi muito gratificante e, a partir daí, as coisas só floresceram. Simplesmente cresceu. Foi um início muito bom.



E também deve ter sido entusiasmante porque trabalhar com rap naquela altura era muito diferente, era um género muito específico, ainda não totalmente generalizado na indústria. Já estava familiarizado com a música rap naquela época?

Um pouco, mas não assim tanto. Não era um especialista. Mas claro que conhecia, porque era muito popular no final dos anos 80. Onde quer que fosses, havia rap. Sobretudo em Los Angeles.

Sim, também foi quando os N.W.A. apareceram em força.

Exacto, tudo isso estava a sair e foi um tempo bonito. Estávamos no sítio certo à hora certa. Naturalmente, foi progredindo. Fizemos um disco, depois apareceu outro, e de repente apareceram os Beastie Boys. Quando comecei a trabalhar com eles, foi toda uma outra viagem. 

Em que sentido?

Bem, estive dedicado a trabalhar com eles durante quase 10 anos. Fizemos quatro discos, passámos muito tempo juntos, tínhamos muita admiração uns pelos outros e pelo trabalho uns dos outros, e fizemos experiências. Foi um tempo muito prolífico, um óptimo tempo para eles e também para mim. Foi incrível poder trabalhar e aprender com eles… 

E também terá sido interessante, imagino, passar por esse processo de trabalhar em diferentes discos com os mesmos artistas. Porque obviamente cada álbum tinha as suas próprias características, certamente era importante que cada um tivesse um som distinto, mas também havia uma linha a seguir.

Sim, claro, esse era o foco. Estávamos sempre focados na música e a tentar fazê-la o melhor possível. Estávamos sempre na mesma página enquanto equipa, toda a gente a tentar contribuir para fazer o melhor disco possível. Tudo isto é sobre colaboração. Eles eram muito talentosos nas ideias, em saber os estilos e as direcções que queriam seguir, e eu e o Mark pudemos ajudá-los ao trazer outros elementos, com os quais eles não estavam familiarizados, para que pudéssemos expandir o som. Com música instrumental, música jazzy e funky, coisas que eles não eram conhecidos por fazer. Aconteceu naturalmente e resultou. Ajudou a inspirar muitas outras coisas, outros projectos e artistas. Depois houve a explosão do John Butler Trio, Cibo Matto e todos estes grupos com quem começámos a trabalhar. Pude trabalhar com o DJ Hurricane… Expandi a minha experiência e foi uma altura bonita. O Mark fez trabalhos a solo, trabalhámos juntos nas coisas dele, e foi maravilhoso.



Há pouco mencionava que, neste ofício, tudo é sobre a colaboração. Imagino que, para si, seja particularmente interessante entrar num universo específico de um artista e poder dar a sua direcção a partir da sua experiência. É assim que vê as coisas?

Exactamente. Quando alguém te convida para trabalharem juntos, tem de ser algo respeitoso, em que estão abertos a ouvir as tuas sugestões e eu interessado em trabalhar com a pessoa. E é bonito quando resulta, quando conseguimos comunicar em prol do mesmo objectivo. Tens de ter uma sensibilidade em relação a muitas coisas, porque é um trabalho muito humano. 

Sente que já tinha essas social skills quando entrou nesta profissão, ou foi algo que desenvolveu ao longo do caminho?

Bem, estamos sempre a aprender ao longo do caminho. Mas tento ser sociável com as pessoas, sempre trabalhei em equipa, mas também sempre fiz coisas sozinho. E é bom poder trabalhar de diferentes formas. Gosto muito de colaborar, por vezes também gosto de trabalhar sozinho, e às vezes precisas mesmo de estar sozinho para poderes desenvolver algo. E depois podes partilhar essa coisa e desenvolvê-la mais além, com outros. Não há fórmula perfeita, simplesmente tens de estar aberto. Esse é o desafio e o entusiasmo de fazer música.

É essa a mentalidade que é necessária para trabalhar com artistas muito diferentes, de géneros tão diversos?

Sim, eu tento sempre estar aberto às coisas e não dizer apenas “sim” ou “não”. Gosto de estar envolvido, tentar não julgar, e se ouvir algo para o qual sinta que possa contribuir, definitivamente que vou tentar verbalizar a minha ideia e ver se podemos trabalhar juntos ou não. É sempre tentar fazer o melhor que conseguimos em cada momento, por oposição às comparações com aquilo que foi feito no passado, ou aquilo por que as pessoas esperam em relação ao futuro. Tento estar muito no momento. 

Obviamente, terá enfrentado inúmeros desafios ao longo da sua carreira. Lembra-se de algum projecto em concreto que tenha sido particularmente desafiante?

Houve uns quantos. Por exemplo, fui convidado pela Marisa Monte para fazer um álbum, com o qual estava muito intrigado e entusiasmado. E ela disse-me que queria fazer um disco de samba. E eu disse-lhe: “Mas eu não sei nada sobre samba, nunca fiz um disco de samba!” E ela disse: “É exactamente por isso que quero que trabalhes neste disco”. Entrei um bocado nervoso no projecto, sem nunca ter gravado samba, e ela envolveu-me e ensinou-me imenso. Fez com que fosse muito confortável e fácil. “Isto vai ser bom, vamos só tratar isto da mesma forma como tratamos um disco mais pop ou de MPB”. E tive de gravar cavaquinhos, surdos e todos estes instrumentos que eu nunca tinha gravado. Foi muito interessante e excitante. Acabámos a ganhar um Grammy latino. Foi uma experiência fabulosa. Era samba, mas acrescentámos efeitos e fizemos todas as coisas que normalmente não se fazem no samba. Toda a gente mantém-no tradicional, mas ela queria pôr efeitos e outras coisas… Foi entusiasmante fazermos coisas diferentes sem sabermos o que iria acontecer. Acabou por correr muito bem, a Marisa é uma grande produtora e colaborámos os dois nessa parte.



O Mário nasceu no Brasil, mas cresceu nos EUA. Sempre quis trabalhar com música brasileira, quando começou a sua carreira?

Nem sequer tinha pensado nisso. Sempre estive interessado em trabalhar com pessoas e em fazer boa música. A oportunidade de começar a trabalhar na música brasileira surgiu… O primeiro projecto que fiz surgiu porque estava em tour com os Beastie Boys no Brasil. Era a primeira vez que eu tinha ido ao Brasil em 25 anos, desde que eu tinha uns 10. Quando tocámos no Rio de Janeiro, os Planet Hemp abriram para os Beastie Boys. E vieram ter comigo, o Marcelo e o Zé: “Queremos falar contigo, queremos que produzas o nosso próximo disco”. E eu: “O quê?” Não os conhecia. Eles disseram-me que me enviavam música, eu ouvi e gostei bastante. Aceitei o trabalho. Voltei e fiz o meu primeiro disco no Brasil. E isso abriu a porta. Comecei a conhecer outras pessoas, muitas delas a perguntarem-me se eu poderia trabalhar nisto ou naquilo, e claro que, se eu gostasse da música, trabalhava com elas. Música é música, e eu adoro todos os tipos de música.

E com que tipo de artista ou de género musical é que ainda não trabalhou, mas gostava muito de experimentar?

Essa é uma boa pergunta. Bem, há sempre qualquer coisa. Eu trabalhei com um grupo africano, com artistas franceses e ingleses, com australianos… Há outros sítios pelo mundo, como, sei lá, a Turquia, o Médio Oriente ou a Índia, com artistas com quem nunca trabalhei. Estou aberto a tudo. Tem tudo a ver com a música e pode ser de qualquer sítio. 

E também trabalhou com artistas portugueses.

Sim, fiz um disco em Portugal em 1998 chamado Tejo Beat. Trabalhei com 10 artistas diferentes. E foi um projecto muito interessante e desafiante de fazer. 10 canções, com 10 artistas distintos, num par de semanas em Portugal. 

E no que está a trabalhar agora?

Acabei agora um trabalho com um grupo do Brasil, chamados Big Up, que são muito fixes. Provavelmente só vai sair no próximo ano. Também estou a trabalhar com o baterista Pupillo, que costumava ser dos Nação Zumbi, que tem um projecto com o Manoel Cordeiro, guitarrista do norte do Brasil. Material instrumental muito interessante. Tenho um disco para sair com o Álvaro Lancellotti. E misturei o novo dos Hiatus Kaiyote. E há muitas outras coisas em andamento.


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