“A gente nasceu para isso mesmo: para ter poder, poder de transformar”
— Gal Costa
A 26 de Setembro de 1996, no Norte de Minas Gerais, começava a história de uma chama ainda por arder. O seu nome era Marina Sena. 51 anos antes, em 1945, na Bahia, acendia-se a centelha da brasilidade com o nascimento daquela que viria a ser a musa do tropicalismo: Gal Costa.
Coincidência ou destino, os astros cumpriram o seu papel: Marina Sena é a confirmação da afirmação de Gal. Os caminhos que a música popular brasileira cruzou criaram uma rede de influências e inspirações que transcendem o tempo e o espaço.
Se em De Primeira, primeiro álbum a solo, Marina Sena surge de um vermelho ardente para tomar o pódio de assalto e sem pedir licença, em Vício Inerente, seu mais recente álbum, apresenta-nos a composição do seu ADN: o mundo como o seu recreio, casa como porto seguro e uma identidade que se desdobra em géneros musicais distintos para alcançar o todo que é Marina Sena. O resultado é uma artista que se catapulta sobre o céu de si mesma enquanto o seu trabalho nos recorda de nós.
O magnetismo de Marina Sena poderá ser sentido no festival Ageas Cooljazz, no dia 27 de Julho. Nesta entrevista, exploramos como mantém os pés no chão enquanto levanta voo, criando um som que é, ao mesmo tempo, familiar e inovador.
Neste álbum, Vício Inerente, a brasilidade com que nos habituaste assume outras formas ao afastar-se de variantes mais tradicionais da música popular brasileira e aproximando-se de géneros mais modernos como a eletrónica e o rap.
Hoje em dia, estamos na era da Internet. Toda a informação se cruza. Os timbres, os ritmos, o modo de produzir música. Somos influenciados por culturas e músicas de todo o mundo, o tempo inteiro. Claro que existem músicas que dominam, por exemplo, as músicas dos Estados Unidos da América são muito populares na América Latina. No Brasil somos muito bairristas, gostamos das nossas músicas, pelo menos as cantadas em português, que ganham outro significado por conseguirmos entender. Existem géneros que não são naturalmente brasileiros, como o trap, mas o brasileiro consegue fazê-lo. O trap é fortíssimo aqui. Temos uma cultura muito forte de pegar em música pop cantada em inglês, transformá-la em forró e dançar muito. Isso é uma capacidade de “abrasileirar” qualquer tipo de coisa e eu sinto que faço isso no meu trabalho, mesmo quando uso referências de ritmos que não são naturalmente brasileiros. Por exemplo, não se associa a música electrónica à música popular brasileira, mas a MPB pode ser electrónica também, principalmente em 2024, [talvez] no passado não. Sou muito brasileira, o modo como componho também. A métrica, as notas que uso para cantar, tudo o que fizer vai ser sempre brasileiro, mesmo com influências de fora.
Como é que se consegue um equilíbrio entre a experimentação e a pop de massas sem perder a identidade musical?
Houve uma mudança na produção musical, foi a mesma pessoa que produziu ambos os álbuns e quisemos essa mudança. Usar auto-tune, ousar nos timbres. Havia alturas em que havia um timbre limpo e nós pensávamos “’tá, então vamos sujá-lo”. Nós queríamos trazer uma estranheza ao timbre e brincar com a pop de massas, com o qual eu antes não brincava. O De Primeira era mais ligado à MPB clássica, apesar de ser novidade e algo jovem; em Vício Inerente, senti a necessidade de brincar com a pop, de usar uma linguagem mais de “massas”, e pensei em como iria fazer isso sem perder a minha identidade. Gostei de poder brincar com isso porque também faz parte de mim. A base da composição, o lugar de onde ela sai é o mesmo. Brincar com o que agrada às massas, falar de sarrada — tal como muita música brasileira fala. Queria esse contraste de começar com menções ao universo do cinema e depois terminar a falar de algo tão banal como sarrada.
Musicalmente falando, o início do teu percurso remete-nos para bandas como Rosa Neon e Outra Banda da Lua, que se aproximam mais do que ouvimos no De Primeira. Com este novo álbum, ao abranger novos géneros, alcançaste um novo tipo de público que pode entrar em confronto com o tradicionalismo dos fãs da música popular brasileira. Sentes que ainda há um preconceito com a música pop?
Eu entendo o preconceito, inclusive. Todos os lugares têm musica muito boa. Existe MPB muito boa e outra que não o é; existe pop que é péssima e outra que é incrível, que te faz pensar “a pessoa foi muito sagaz, conseguiu inventar dentro da pop.” Acho incrível trazer novidade para dentro da pop porque essas “massas” gostam de ficar na zona de conforto. O meu critério é só esse, a pessoa ser original e eu perceber que aquilo é um grito que ela precisa de trazer cá para fora, é o principal critério para eu ouvir um artista. É o que me faz entregar-me a um artista: ver o quanto ele se entrega. Não ligo se é pop de massas ou não. Mas eu tenho uma tendência a coisas que não são de “massas”, porque eu vim de um lugar do underground, basicamente sou uma underground que ficou rica. Apesar de querer ficar famosa, também gosto de ficar no underground, ser contra as massas, sempre fui assim, mas estou a gostar de brincar dentro do que pode ser considerado das “massas”.
Ao longo da tua discografia, é comum encontrar-se temas como o desejo, a paixão, o erotismo e a sensualidade. No teu caso, parece-me que os utilizas como uma arma a teu favor. Claro que se pode dever ao facto de seres do signo balança, mas qual é o papel da sensualidade no teu processo de auto-conhecimento?
[Risos] Acho que ser balança ajuda muito! Mas é uma coisa tão forte em mim, a sensualidade, e eu acho que tem de ser em qualquer pessoa. Tem tudo a ver com a tua auto-estima, e eu não falo sobre sexo, não é sobre isso. É sobre ti e para ti, é sobre olhares-te ao espelho e veres alguém sexy, que atrai. O sexy tem muito mais a ver com o ser capaz de atrair, de se sentir linda. É maravilhoso. Todos temos de ter isso dentro de nós, ter um ritual diário de nos olharmos ao espelho e dizer “nossa, sou gostosa demais” e sair de casa. Eu faço isso, entender cada parte do meu corpo, e dizer “eu sou isto e isto”, é quando olhas pra ti e te conheces. Ninguém pode falar nada de mim, eu sei quem eu sou, o que a pessoa fala de mim não importa porque é o que ela acha. Quando eu descobri a minha sensualidade, porque nem sempre tive noção dela, e a tomei como algo natural, foi empoderador, senti-me capaz de qualquer coisa. Senti-me mais inteligente, até isto mudou quando me permiti ser sensual. É o chakra básico — o da criatividade — que garante que a teremos em qualquer situação. Temos de movimentar o quadril. Sou embaixadora do chakra básico.
A crítica é uma constante na vida de qualquer artista, mas ao acompanhar o teu percurso, recordo-me de que foste alvo de muitas no início e sempre fizeste questão de falar abertamente sobre elas. Numa altura em que se debatem mais temas relacionados à saúde mental, parece existir um consenso que exclui os artistas do direito a serem considerados também.
É duro. Não sei porque é que as pessoas sentem que podem dizer essas coisas, parece que pensam “escolheste isto, agora aguenta”. E eu penso: “Só queria cantar para pessoas que gostam do meu trabalho, para quem quiser, não quero obrigar ninguém.” No Brasil ainda há um desconhecimento do trabalho do artista, as pessoas acham que somos vagabundos, que não fazemos nada da vida e ganhamos rios de dinheiro. Eu digo isto porque vim do interior e achava isso também. Quando entrei no mercado e vi o quanto tinha de trabalhar, fiquei completamente assustada. Nunca pensei que tinha de trabalhar tanto, renunciar tanto. Sim, porque renuncias a uma vida, ficas muito mais tempo presa dentro de um quarto de hotel, viras atleta e tens de regrar toda a tua vida com base nisso. Pensar tudo, ser criativo e ainda tens de executar.
Numa entrevista concedida ao festival Turá, mencionaste a importância de ampliar a realização de festivais de música popular brasileira. Há uma desvalorização dos artistas brasileiros no Brasil?
A quantidade de pessoas que um artista emprega é inimaginável. Para fazer um videoclipe são precisas 50 pessoas, muita gente se mobiliza e o brasileiro em geral não compreende isso. O artista é visto como esta figura que está a “mamar na teta do governo” sem se entender o impacto que um artista tem na economia do país. Fazemos um show, empregamos imensa gente, há muitas famílias a serem sustentadas por um festival, desde a pessoa que vai limpar até à que trata do som. Por exemplo, a minha equipa são 24 pessoas. Além dos críticos que já vão criticar o teu cabelo, o teu corpo e etc., ainda há essa questão do posicionamento do artista no mercado, o que significamos para este país. Eu vou falar sobre isto sempre que poder.
Numa publicação para o teu Instagram, partilhavas uma memória com a descrição “tudo o que eu mais amava quando era criança: ir pra roça, cantar, ballet e a minha mãe.” Do interior de Minas Gerais para São Paulo, como é que estas vivências moldaram a tua perspetiva enquanto artista?
É algo que ainda estou a tratar em todas as sessões de terapia, a síndrome de impostor. No De Primeira eu ainda era uma matuta, emocionada, era tão iludida, tão romântica quando eu sonhava… Achava que tudo era um grande mar de rosas e aí percebi que não era, foi aí que surgiu o Vício Inerente. Percebi que estava a ser afetada, bateu alguma coisa ali. Morar numa cidade grande distancia-te muito do teu contacto com a terra, que importa muito, e as pessoas tratam isso como se fosse conversa de hippie. Nós precisamos de ter noção de que somos a própria terra. Tive isso presente a minha vida inteira e não sabia como era não ter esse contacto direto com a terra. Fui para São Paulo a achar que estava tudo bem, depois percebi que a fama, o meio do entretenimento, estavam a deixar-me doente e isso assusta, principalmente para uma matuta. Cheguei a São Paulo com medo de atravessar a rua… Agora estou mais forte e a conseguir trazer de volta algumas coisas que me tinham sido tiradas, como ir mais para o mato, e entendi porque preciso tanto disso e o efeito disso no meu corpo e espírito. A vida vai-te levando e vais deixando as tuas paixões de lado, e aí peguei nelas e não abri mão delas enquanto me fui recompondo — por exemplo, não abro mão de estar com o meu violão em todas as cidades nas quais eu estiver.
Partilha connosco uma memória que guardes com o teu violão.
A “Por Supuesto”, o meu primeiro maior hit, eu compus nessa época em que não abria mão do meu violão. Uma vez, fomos para o sul da Bahia, para Cumuruxatiba — lugar que recomendo muito! Éramos três amigos e as nossas mochilas: eu, a Sara e o Vítor. Apanhámos boleia de carro, andámos de autocarro, nem sabíamos onde íamos ficar, só tínhamos uma tenda para os três, uma mochila que tinha as roupas de todos e o violão. Íamos alternando quem levava o quê porque não dava para não levar o violão — mesmo que logisticamente fosse complicado. E chegou comigo ao destino final!
Sei que já estás a trabalhar num novo álbum. O que significa ele para ti?
É um álbum que reflete este momento no qual estou: de não abrir mão de certas coisas, e estou a retomar certas paixões, sem dó, sem medo. Inclusive o violão. Todas as músicas estão a ser feitas com ele. Não abrirei mão dele, nem da minha regionalidade, da minha história de quem saiu do norte de Minas Gerais, na cara e na coragem, não tinha família, nem relação com o meio dos famosos, nem um real no bolso, só tinha um violão. É a minha história e faço questão de tê-la atrelada a mim o tempo inteiro e que as pessoas vejam isso. Este álbum traz essa energia.