No final do novo álbum de Maria Reis é impossível não largar um Suspiro…. Há um sufoco aconchegante que se alivia ao longo dos onze passos do expurgo. Uma retirada do dióxido de carbono em direcção ao oxigénio, como se da falta de ar se gerasse um novo canal de respiração através do qual podemos filtrar as toxinas com que a vida nos envenena lentamente. E uma delas, a maior causa de morte, o amor (claro) volta estóico, pronto a derrubar e preparado para reconstruir — nem que seja por obrigação. Tomara que as consequências (por mais árduos que fossem os caminhos) soassem todas a Suspiro….
Até ao início do Outono, a artista vai andar na estrada para apresentar este disco ao vivo por vários pontos do país e até em Espanha — as suas próximas datas são no Lux Frágil (25 de Julho), Veranos de la Villa (9 de Agosto), Sabura Festival (30 de Agosto) e na Lovers & Lollypops (27 de Setembro), sendo que para trás ficaram passagens por Salão Brazil, SMUP ou Casa da Música Jorge Peixinho. Entre concertos, falámos com Maria Reis sobre esta sua mais recente aventura discográfica.
Oiço tanta dor no teu album, chegou para a mandar embora?
Hum… Sim… Não é necessariamente o propósito da música. Acho que as canções cristalizam… coisas reactivas. Não é necessariamente uma coisa que tem a ver comigo. Até posso, se calhar, já nem estar naquele lugar quando as escrevo, mas depois parece que quando as canto volto para aquele lugar. Mas às vezes, quando estou a compor, já nem estou na dor, estou só a pensar na emoção. No fundo, a canção é um lugar onde eu estou a pensar sobre o que estou a sentir e é como… cristalizar uma emoção, não expurgar. Às vezes também é, mas não é necessariamente só isso.
Achas que não é preciso angústia para criar?
Não, não… Acho que há um sítio da angústia que nos obriga a ir para um sítio de solidão onde pode ser mais fácil criar. Porque quando estamos sozinhos temos mais tempo para pensar o que é que nós somos, mas não acho que seja preciso sofrer para criar. Isso é uma ideia romântica um bocado demodé. E não é muito saudável pensar assim. Eu tento não pensar assim. Mas acho que, de facto, há uma coisa na tristeza que nos permite estar mais sozinhos e essa solidão pode potenciar a acção criativa.
Consegues escrever sobre coisas boas?
Hum… A minha cabeça é sempre muito negativa. Tanto para os outros como para mim. Acho que sim, sei lá. Tenho canções para as minhas sobrinhas. Acho que já consegui escrever sobre coisas felizes. A minha cabeça não tende para aí naturalmente. Estou sempre a falar de mim e quando falo de mim falo sempre mais dos meus defeitos do que necessariamente das coisas que eu faço bem. Mas já escrevi sobre as minhas sobrinhas e foi mesmo só amor e só alegria e esperança (quando elas nasceram).
Está circunscrito ao contexto?
No fundo, àquilo que acontece quando entra uma nova vida. Isso é uma emoção…
Tão forte quanto a dor?
… Diferente. Não tem tanto a ver contigo. A dor é uma coisa um bocadinho egoísta. O amor e a esperança é uma coisa que não tem tanto a ver com o teu ego. O amor não deveria ter a ver contigo puramente. Acho que é uma coisa muito mais expansiva, principalmente quando é uma nova vida. É uma coisa muito mais libertadora do ego… Tipo tomar ácidos [risos].
Apesar de termos sempre a tua versão mais honesta, neste álbum pareces mais vulnerável, mais exposta até. Como é que se fala para tantas pessoas sobre estas coisas difíceis que são a ansiedade, a depressão, a insegurança e o medo de falhar?
A cena é essa. Quando escrevo canções não penso que estou a falar com todos ou que me vão todos ouvir, porque isso seria uma coisa que alimentaria uma insegurança e eu deixaria de praticar esta actividade. Acima de tudo, o que acontece é que quando eu canto e as pessoas ouvem, a música também é delas e, no fundo, estamos a partilhar aquela canção todos. Quando eu canto ou quando edito um disco, eu sinto mesmo que a música está a existir. Eu estou a servir a canção, não estou a servir a minha emoção ou a minha dor, ou a dor dele ou dela. E a canção contém em si coisas que toda a gente consegue também torná-las suas. E acho que é isso que faz de uma canção uma boa canção.
E há alguma música em que te sintas mais nua?
Sim. O final da “Holofote” é sempre um bocado… Hum… Frágil.
Um soco no estômago.
Ya. E eu sinto ao vivo. O pessoal fica tipo [som de pancadas]… Não sabem reagir, eu também não. Ainda não percebi bem como a pôr ali no set ou no alinhamento.
Eu adoro essa parte.
Eu acho que quando estamos a ouvir em casa é diferente. Ao vivo eu sinto mesmo que o pessoal [som de pancadas] “ah, foda-se”. Porque também não posso partir para o outro lado quando estou a tocar essa. A primeira vez que a toquei ao vivo foi no Porto e acabei o concerto com essa música e… Nunca mais. Não é uma boa música para acabar o concerto. O pessoal fica bué mal. Parece que amanhã é o primeiro dia de escola ou assim, sabes aquelas emoções horríveis? [Risos]
E quem é que é “a gaja que querias ser com 13 anos no quarto”?
Em retrospectiva eu também posso mentir. Ou posso não me lembrar bem. Mas acho que tinha um ideia qualquer romântica de pertencer às bandas e de pertencer à “actividade profissional” e de ser cool…Comecei a tocar guitarra e a escrever canções com 13 e a conhecer-me melhor com essa idade. Descobri a minha forma de cantar muito cedo, ou pelo menos o lugar onde eu me construí de uma forma criativa. E foi sorte ou acaso (ou também trabalhei para isso), mas com 13 anos não é muito diferente de agora no sentido em que é o mesmo lugar criativo. O mesmo sítio para onde a minha cabeça tem de ir para eu estar a falar a verdade, ou pelo menos a verdade do momento, a ser honesta comigo.
Daquilo que oiço, até pode parecer que gostas mais da pessoa que és agora do que aquela que idealizavas ser com 13.
Não sei se gosto mais. Acho que a desilusão faz parte da vida. E se calhar, com 13 anos, se me visse agora ficava tipo “a sério?” Mas acho que, ao mesmo tempo, havia pouca expectativa, mas bué ânsia. Não sabia o que é que estava à espera, mas queria. Muito. E acho que é uma cena que eu continuo a ter. Não gosto de me sentir estagnada (olha, lol), não gosto de me repetir, não gosto de ficar muito tempo sem escrever… Acho que escrevi essa música [“Holofote”] em 20 minutos, assim de repente, tipo stream of consciousness. Começar num sítio e acabar noutro, começar a falar dos outros e acabar a falar sobre mim. Ou seja, no fundo também desmarcar-me, quando eu na realidade começo a canção muito julgadora, a apontar o dedo à sociedade em vivemos… Mas espera aí: aqui também há alguma hipocrisia da minha parte, para comigo e para a minha actividade. Há coisas que eu faço que com 13 anos se calhar levantaria a sobrancelha.
Em termos de valores?
Sim, se calhar. Coisas que eu não digo, coisas em que eu colaboro… Acho que há coisas que, se calhar, tens de não dizer só para manter a diplomacia. Coisas que me incomodam. Não me é permitido enquanto pessoa, como eu sou, ser totalmente como eu achava que devia ser com 13 anos. Acho que às vezes temos de dar o benefício da dúvida (lol, i’m quoting myself) no que diz respeito aos outros. Se estás sempre com as armas postas, também não consegues entrar em lado nenhum, não consegues permitir que alguma coisa aconteça nem que sejas surpreendida. Se calhar aprendi a ser mais… não vou dizer tolerante, que é uma palavra uma bocado católica, mas mais consciente e simpática. E empática.
Quando oiço a “Metadata” oiço empoderamento. Sentes que ele existiu neste processo?
Sim, sim, sim. Não só no processo da própria canção: escrevi a “Metadata” ainda não tínhamos começado, mas estávamos quase a começar a gravar, e já estava noutro sítio mentalmente e também me apareceu assim de rajada como a “Holofote”. Claro, é uma música power. Em tudo. E mesmo quando a toco agora ao vivo. Para já, é aquela de que o pessoal gosta mais. Eu não estava à espera. Quer dizer, estava mais ou menos à espera, mas só quando o pessoal começou a partilhar é que percebi que era toda a gente a pôr a “Metadata”. Porque apesar de não ter refrão, o pessoal reage muito àquela música. Tem bué conteúdo energético e caminha sempre para a frente, uma coisa que não pára e isso tem power.
Como é que se explicam estas coisas todas que se sentem e que surgem de um só jorro como uma música que se escreveu em 20 minutos no quarto?
A “Metadata” por acaso foi. Foi num dia em que eu senti que tinha muita coisa para dizer e aquela canção permitiu-me dizer aquilo tudo que se calhar eu nem sabia que tinha de dizer. Mas também os acordes (eu começo sempre a canção pelos acordes), estavam a construir-se de uma forma que me permitia dizer muita coisa.
Whatever works. E como foi o feedback do novo álbum e dos concertos?
Acho que nunca tive tanta… Acho que conheço mais o meu público (aqui no contexto lisboeta). Fizemos aqui o meu concerto de lançamento (na Trienal) e havia bué gente que eu não conhecia, que começam a ouvir a minha música com este disco e para mim é fixe, porque depois podem ouvir todos os outros. Acho que o pessoal se relaciona com a minha música de uma forma muito particular. Há sempre uma forma muito emotiva — “ajudou me neste processo” ou “estava mesmo a precisar de ouvir e não sabia de que estava a precisar”. É bué fixe, porque no fundo é o que procuro na música com que me relaciono, com a música de que eu gosto (que não é minha)… E ver as pessoas relacionarem-se de uma forma tão profundoa valida bué. É a única razão pela qual eu acho que é uma actividade fixe de ter. Não é o dinheiro, não o glamour de ir a festivais ou de ter entrevistas, é as pessoas ouvirem e sentirem a música. E eu saber que isso acontece.