Há 12 anos, Marcos Best lançava um disco que rapidamente conquistaria um certo estatuto de culto, Krónicas de G’z. Esta sexta-feira, 12 de Julho, volta a celebrar esse marco com um concerto no Musicbox, em Lisboa, onde irá revisitar o álbum e outros temas daquela fase do seu percurso.
Os bilhetes estão à venda online, sendo que no cartaz estão confirmados convidados como Landim e Salazar. Nos últimos anos, Marcos Best tem estado menos activo na música, tendo-se dedicado às artes plásticas e a um livro que apresentou em 2023, Uma Ferida Chamada Marcos, que motivou uma entrevista aqui mesmo no Rimas e Batidas.
Para recuarmos no tempo e contextualizarmos a relevância de Krónicas de G’z, bem como fazermos um retrato das grandes alterações que aconteceram na sociedade e no movimento hip hop ao longo desta dúzia de anos, fomos à Serra das Minas, zona da Linha de Sintra onde Marcos Best cresceu, para uma conversa em torno do disco que ali teve a sua origem.
Entre a tua primeira mixtape, Niggativo, e o álbum passaram cinco anos. Começaste logo a pensar num álbum quando acabou o processo da mixtape? Só para entender em que momento começaste a trabalhar no Krónicas de G’z e como é que se iniciou esse processo.
Não comecei logo a pensar no álbum. Sempre tive aquela visão de artista estilo Lauryn Hill… A minha artista preferida é a Sade. Nos anos 80, ela lançava muito. Mas chegou a uma fase em que começou a lançar esporadicamente, e também via a Lauryn Hill assim. Ia lançando, depois desapareceu, e também sempre tive essa visão. Então, quando acabei a mixtape, não tinha assim uma grande urgência em fazer outro projecto. Ia escrevendo músicas e lançando algumas para as ruas, porque o mercado não estava estabelecido. Não havia a cena de teres de lançar, não havia muito essa preocupação. Então foi uma cena muito natural. Eu tinha umas quantas músicas e depois surgiu-me a ideia do “Krónicas”, de fazer a música toda em i’s. E assim começou o conceito de aquelas Krónicas poderem ser mais do que uma música. Poderia dar um álbum, poderia criar um conceito bonito em volta daquela ideia e daquele tema, construindo um álbum com várias histórias.
O que é que te levou a quereres mergulhar mais a fundo nesse tema? O que te atraiu neste conceito para quereres desenvolver um álbum em torno dele?
O meu rap sempre foi muito de contar histórias. Minhas ou dos meus pares. É o estilo de rap que sempre fiz e que sei fazer. Então fazia-me todo o sentido documentar essas histórias, e dar este nome de Krónicas, que é o que no fundo são… Não são Krónicas de “gangsters”, são de “guerreiros”, mas quem nos via de fora poderia chamar-nos gangsters, chungas ou mitras. No fundo, éramos só guerreiros. Todos tínhamos as nossas histórias e a ideia era explorar as nossas vivências e dar-lhe um nome mais bonito que pudesse chamar a atenção. Mas, no fundo, não deixávamos de ser nós — uns que estudavam, outros que não, uns que em tenra idade já estavam em problemas com a justiça e estavam presos, outros que acabaram por morrer novos, outros que conseguiram dar a volta por cima e estavam a lutar para estudar, ou que conseguiram carreiras no desporto, outros que tentavam o rap. Eram as nossas Krónicas de Guerreiros, nada de gangsters.
Tinhas que idade, quando começaste a escrever a maior parte das letras?
Tinha 20 anos. Quando saiu a Niggativo, tinha 19, que devo ter escrito a partir dos 17. Tive oportunidade de gravar e gravei logo tudo de seguida. Depois, entre os 20 e os 21, escrevi o Krónicas. Se bem que alguns sons já tinha meio estruturados e depois dei-lhes uma nova roupagem.
O teu discurso tem a ver com visibilização, sobre documentar estas histórias, sobre dar voz a estas pessoas até para que as vivências não se percam… O álbum também tem essa raiz. Já tinhas essa visão de que estas histórias importavam e que não estavam a ficar registadas em lado nenhum?
Sim, já tenho essa visão há muito tempo. Hoje, com outra maturidade, até lhe consigo chamar uma preocupação. Existe essa urgência de dar caras e nomes às histórias, e de apresentar quem é quem, porque com o tempo muita coisa vai ficando para trás. E não sinto a necessidade de ficar apegado ao passado, mas há coisas que devem ser faladas e mostradas, para dar alguma legitimidade às pessoas, mas também para valorizar algumas lutas, para dar algum exemplo a quem vem por aí, para mostrar que isto nem sempre foi assim, que nem sempre foi tão fácil, ou bom, ou mau… Que existe toda uma história por trás. Mesmo a Niggativo já tocava nesses temas. O Krónicas acaba por ser uma extensão da mixtape.
Mas num trabalho mais maduro.
Ya, mas acaba por tocar nos mesmos temas. No Niggativo fantasiei um pouco mais, porque era mais novo e inspirava-me muito mais nos rappers e queria ser mais poeta, não sei, romantizava mais as coisas, e o Krónicas é bem mais cru. E na altura em que o fiz, trabalhei os primeiros vídeos com o Hugo Moura, um grande fotógrafo, e ele já era muito à frente e na altura já partilhava com ele a ideia de fazer um documentário do Krónicas. Foi algo muito inspirado no MV Bill, o rapper brasileiro que fez a trilogia do Falcão — o documentário, o álbum e o livro. Também sempre quis fazer isso. Tenho o álbum, agora tenho um livro, falta o documentário.
Exacto. Mas perguntava-te aquilo até para perceber se sentias que as pessoas e as histórias deste lugar não passavam… E estavas a comentar que poderiam ser vistos como gangsters mas que na verdade o que querias transmitir era que eram guerreiros, porque havia essas percepções e certamente que as sentias. A ideia era contar estas histórias e pô-las de outra perspectiva? Lançá-las para o mundo, porque talvez não existissem outras plataformas de visibilização destas comunidades? Claro que isso já estava a acontecer no rap, no geral, mas se calhar sentias essa necessidade também na tua zona e na tua bolha em concreto.
Eu tive a sorte ou o privilégio de nunca estar só fechado no bairro. Sempre andei por muitas zonas, bairros e não só, e quando comecei a fazer estrada… Que foi bem antes do Krónicas, já com o Niggativo fazia estrada, porque eu comecei por acompanhar o MC Ary. Ele já andava num circuito fixe, então comecei a viajar pelo país muito cedo, mesmo antes de começar a pensar ter uma carreira como rapper. E consegui ver muita coisa e lidar com muitas pessoas e essa ideia ficou cada vez mais forte: as pessoas não sabem das nossas histórias.
E, mesmo para ti, é aquele clichê de que é preciso sair da ilha para ver a ilha, como dizia José Saramago.
Exactamente. Ao mesmo tempo comecei a perceber que é bilateral. Eles não conhecem as nossas histórias, mas nós também não conhecemos as deles. Porque também comecei a lidar com pessoal da faculdade e eu também tinha o meu preconceito com eles [risos]. Lembro-me de uma vez estar numa festa em Lisboa, na casa de uma amiga minha, e ela era de uma melhor classe social. Até foi numa das torres ali no Oriente, uns prédios novos, e foi muito fixe. Mas sentia-me um bocado deslocado ali. E estava lá um tabuleiro de xadrez e eu jogava bem. Era uma festa com pessoal da faculdade, eles estavam lá a jogar todos craques e eu meti-me no jogo. E por acaso ganhei. E eles ficaram mesmo surpreendidos, porque eu era chunga máximo naquela altura [risos]. Dali começou uma conversa, porque eles ficaram surpreendidos de eu jogar xadrez. Ou seja, eles tinham-me tirado a pinta, eu tinha tirado a deles, e no fundo nem eu conhecia as histórias deles nem eles conheciam as minhas. Isto para dizer que, a partir do momento em que começa a haver uma maior visibilidade, e isso já começa a haver hoje com as redes sociais, que acabam por aproximar o pessoal… Quebra-se um pouco aquela barreira. Começas a mostrar a tua história, que tu não és só aquilo que vestes ou aquilo que dizes, e que não és só o que cantas… Quando a tua história, as tuas raízes, tudo o que está por trás daquilo que és hoje, começa a ser demonstrado, principalmente quando falamos deste contexto social, as pessoas começam a ganhar outra empatia. Criam-se mais pontes, derrubam-se muros. Eu acredito muito nisso.
E no momento em que essa história específica aconteceu, havia uma maior separação entre realidades sociais e o rap estava muito ligado à tua realidade. Hoje em dia, a coisa é muito diferente, porque o rap — não todo, mas no geral — se tornou mainstream e isso, mais as redes sociais, os videoclipes que se tornaram comuns, etc., ajudou a aproximar classes sociais diferentes… O rap, que veio de baixo, tem hoje um público de todas as classes sociais. Se calhar essas barreiras quebraram-se. Sentes que essas distâncias foram encurtadas também por causa do rap?
Não só por causa do rap, mas antigamente as distâncias eram muito maiores. Era muito mais difícil chegares a um público ou mesmo a uma pessoa de uma classe social diferente. No rap, era muito difícil tocares… Lembro-me da primeira vez que toquei no Musicbox, que foi com o Ary, em 2009 ou 2010, e não era normal. Não era toda a gente que ia lá tocar. Era difícil conseguires uma data ali. Tinhas que ter bons contactos e tinham mesmo que te dar aquela confiança. Quem diz o Musicbox diz outras casas. Hoje em dia não há uma semana na noite de Lisboa em que não haja um rapper a tocar. Mesmo enquanto rappers, antigamente tínhamos mais a preocupação de cantar para os nossos. Era um rap um bocado fechado. Era para todos, mas eu falava de nós aqui. Hoje, quem está dentro do mercado, já tem a preocupação de fazer músicas que vão abranger uma população geral, já não é só aquele nicho. Agora, muitas histórias foram contadas no rap. Por exemplo, lembro-me de ir ao lançamento do Árvore Kriminal do Halloween na Galeria Zé dos Bois e estava à espera de chegar lá e ver um tipo de público, e afinal não… Afinal tinha montes de pessoas da faculdade, mas que se identificavam com o que ele cantava. E isso é muito interessante, porque ele conseguiu através do rap quebrar alguns muros e aproximar as pessoas. E outros rappers fizeram isso. O rap tem sido um veículo importante nessa comunhão.
Isso também fez com que o rap deixasse de estar tão ligado ao teu contexto social, porque começou a ser feito por outro tipo de pessoas e a ser ouvido noutro tipo de contextos, muito mais do que antes. Isso fez com que se transformasse, por outro lado também há miúdos de classe média alta a aproximarem-se do estilo, na forma de vestir, de falar, que para eles nem sequer era natural, porque é que o que eles consomem, e parece que o que vem de baixo por vezes também tem algo cativante que conquista as pessoas.
Tem um certo glamour. E é positivo. O que me entristece às vezes, e talvez seja uma coisa mais nacional, porque o país é pequeno… Sinto que o rap evoluiu muito, há muitas vertentes diferentes. Podes fazer trap, uma coisa mais de festa, podes ter uma cena interventiva, há espaço para tudo. Acaba é por não haver plataforma para tudo. É mais difícil. O mercado é pequeno, tendencioso e parece haver um monopólio sobre as coisas. Mas a nível cultural somos muito mais ricos hoje do que éramos há 15 anos. Porque há 15 anos fazias rap de intervenção, rap street, eras mesmo amante do hip hop ou ponto… Não havia muito espaço para trazeres outras temáticas. Hoje isso já existe, e musicalmente podes ser mais elaborado, podes ter alguém a cantar, podes tocar com banda… Eu toquei muito com banda e não era assim tão bem-visto. Fazíamos concertos em acústico e sinto que se as minhas letras não fossem tão cruas e eu nem mostrasse aquela realidade… Se eu estivesse a cantar cenas mais românticas acho que o people do rap não me teria abraçado tão bem. Ainda havia uns certos preconceitos e evoluímos bastante. Deixámos de ser uma arma de intervenção, que durante algum tempo fomos, e hoje somos um veículo cultural mais rico, mais amplo.
Voltando ao Krónicas de G’z, como é que se desenrolou o processo criativo? Já tinhas letras que depois juntaste a beats que foste recolhendo? Escreveste para alguns instrumentais específicos?
Aconteceu das duas formas. Eu já tinha muitas letras e fui encontrando beats que casavam bem com as letras, e houve muitos beats que me deram ou que eu criei em conjunto com algum produtor e depois escrevi por cima. Na altura, escrevia muito. Mas, além disso, vivia muito. Vivia bué intensamente. E sentia muito essa necessidade para depois escrever. E tinha uma rotina super intensa, vivia muito, estava em muitas zonas, fazia muitas cenas.
E era algo que fazias conscientemente para alimentar a escrita?
Sim, sabia que a estava a alimentar, nunca fui aquele rapper de parar para escrever. “Hoje vou escrever duas horas”. Agora sei que foi um erro, deveria ter tido essa disciplina, mas eu preferia estar a viver e a viver e depois quando chegava escrevia a música de seguida, porque estava a transbordar. O processo era muito esse. Então às vezes não podia esperar pelo processo de ir ao estúdio e pegar num beat. Ia escrevendo. A música do “Krónicas”, que é toda acabada em i’s, tinha muitas versões, com as palavras em sítios diferentes, ou outras palavras… Até que depois fui a estúdio, construímos o beat, e ficou aquela versão final.
Onde gravaste o álbum?
Gravei no estúdio do Xeg. Houve dois ou três sons, e o “Krónicas” é um deles, que não gravei lá. Porque eu já tinha gravado, tentei regravar, mas não tinha a mesma entrega. Então preferi manter a versão antiga. E se ouvires bem vais sentir uma diferença na qualidade. Mas o álbum foi quase todo gravado e misturado pelo Xeg.
Como se deu essa ligação com ele?
Foi muito fixe, porque eu tinha um amigo meu que fazia as backs do Xeg, era o Mad Douglas. É um grande amante do rap, chegou a fazer alguns sons, nós éramos amigos, eu queria gravar e estava à procura de um sítio e ele sempre a dizer-me que me tinha de apresentar ao Xeg. E eu sempre a medo. Isso é outra coisa: antigamente, as distâncias eram muito maiores. Eu olhava para o Sam, o Xeg, o Chullage, o Valete… Chegar ao pé deles era uma cena. Hoje sinto que é mais fácil, talvez também pelas redes sociais. Mas ele mostrou os meus sons mais antigos ao Xeg e ele curtiu. Então, fui lá conhecer o Xeg, supostamente tinha que falar com ele, não é? Fomos jantar fora, mas eu não dizia nada [risos]. Estávamos só a conversar, sobre o Benfica e não sei quê, mas não dizia nada do rap. E o meu amigo é que depois disse: “Ele queria falar contigo…” E o Xeg já estava a par, claro. E eu disse: “É isso, queria fazer…” E o Xeg: “Ya, já ouvi os teus sons, boa cena, vamos marcar um estúdio”. Fomos e correu muito bem, por acaso tivemos grande química e ficámos amigos até hoje.
E como foi o processo de recolha de beats? Foi contactares o pessoal que conhecias e perceberes quem é que poderia ceder instrumentais?
Foi o normal. Eu ia a uma festa cantar, o pessoal vinha: “Muito fixe, tenho lá uns beats, queres vir?” Tenho beats do Manifes70, do Charlie, que estava a começar. Na altura acho que era no MSN e ele ia falando com o pessoal e ia enviando beats. E um dia quis-me encontrar com ele, o Charlie ia ter com o Lofty para gravarem uma coisa para o projecto de rádio que depois foi para a Hip Hop Sou Eu, e encontrei-me com ele na estação do Cacém e fui com ele. Fomos conversando bué, fomos a casa do Lofty onde ele gravava a cena, e correu muito bem. Ele passou-me alguns beats e um dos meus preferidos do álbum é dele, o “Quem Vê Caras Não Vê Corações”.
E tens mais beats de quem?
Tenho do Raheem, um gajo de Cascais que veio viver aqui para perto na altura. Ele fez o beat do “Krónicas”, do “Bonnie Parker”, e estivemos juntos a fazer os instrumentais, eu dizia-lhe mais ou menos o que eu queria. Com o Manifes70 também funcionava super bem assim, e passávamos muitas tardes lá na Zona J, onde ele morava.
Sonicamente, de que estavas à procura? Que direcções é que davas?
Eu curtia de ter coisas mais orgânicas, até porque tocava com banda. O Ary tinha banda, eu cantava as backs e tocava sempre dois ou três sons meus com a banda. Quando começaram a querer contratar-me, eu levava praticamente a banda do Ary. Depois, naturalmente, algum pessoal foi saindo, outro foi entrando, comecei a montar a minha banda. Inclusive o Ary tornou-se o guitarrista.
Ou seja, já tinhas essa componente mais orgânica na tua performance e querias mantê-lo.
Exacto, inspirava-me muito pelas cenas dos The Roots, Erykah Badu… Tentava muito ir por aí. Mas deixava o processo criativo dos beats mais para o produtor. Curtia muito era sentir o feeling. Era mais isso do que procurar bangers ou o que fosse. Só queria uma cama perfeita para deitar a minha história por cima.
E tem a ver com o que também dizias há pouco, que não havia propriamente uma perspectiva de profissionalização, então estavas só focado no que musicalmente mais fazia sentido para ti. Mesmo que já fizesses estrada.
Sim, nunca pensei nisso. Uma vez até dei um concerto, estava lá um programa da RTP2, e a jornalista no final veio entrevistar-me e perguntava isso mesmo: “Qual é a perspectiva futura?” E lembro-me bem dessa resposta, de que me arrependo bué, porque disse: “Eu estou aqui hoje mas quando isto acabar acabou”. Era muito assim. Estou aqui agora, a minha missão é esta por agora, mas quando acabar, acabou. Não havia mesmo essa perspectiva.
Mas ao mesmo tempo significa que tinhas os pés assentes na terra.
Ya, mas se calhar se tivesse pensado de outra forma, talvez pudesse ter resultado. Talvez pudesse ter ido atrás para profissionalizar as minhas cenas. A geração que veio a seguir à minha já foi completamente diferente. Como o Bispo…
Também encontraram circunstâncias mais favoráveis.
Sim, e já conseguiam olhar para cima e verem alguns exemplos de pessoal que estava a fazer. Nós olhávamos para cima e não víamos ninguém. Tinhas os Da Weasel e o Boss AC. Noutra escala, tinhas o Valete, o Sam e o Chullage. Mas para nós era quase impossível. Era como estares a jogar na rua, olhares para o Luís Figo e pensares que também vais estar lá… É claro que quem acredita batalha, mas era quase impossível.
E sentiste logo um impacto quando o álbum saiu? Ou foi algo muito gradual e lento?
Por acaso senti logo. Mandei fazer mil cópias do álbum e eu não era propriamente conhecido. Depois, mais tarde, percebi que não era normal mandar-se fazer mil cópias. Então estava muito confiante. Não tinha noção nenhuma do mercado, mas na minha cabeça sabia as pessoas que ouviam a minha música…
Também já tocavas, vendias nos concertos.
É muito difícil dizer isto, porque na altura não sentia o pulsar das redes sociais. Mas na estrada sentia que as pessoas estavam à espera, o pessoal pedia-me. Era uma altura em que a tua cara não girava assim tanto, mas mesmo assim via que as pessoas me conheciam e identificavam-se com a música. Também estive uns dias em Espinho e gravei lá duas músicas, uma a solo e outra com o Ary. E o pessoal de lá curtiu bué, então também tinha deixado lá uma semente. Sentia que as pessoas estavam à espera. E as mil cópias voaram e mandei fazer mais 250. O CD esteve nas lojas e tudo. Cada concerto que dava, iam logo alguns.
Houve um antes e um depois do álbum, para ti.
Houve. Na altura do álbum também trabalhei com o Guti o Espanhol, dos La Dupla, que foi meu manager e ajudou-me muito a profissionalizar a cena. Ele teve um papel muito importante nisso. E ajudou a pôr o CD nos sítios certos, a tocar onde dava para tocar na altura, mas que fossem cenas com qualidade…
E aqui na zona, como é que sentes que foi recebido?
Antes de o álbum sair, eu tinha a música do “Krónicas” em casa, no computador…
E já mostravas as músicas aqui ao pessoal antes de saírem?
Não, não. No Niggativo sim, mas quando foi para o Krónicas, quando percebi que aquilo iria ser um álbum, quis guardar tudo, ninguém ouvia. Mas tinha lá no computador. E na minha casa sempre entrou bué pessoal, os meus amigos, amigos do meu irmão, ia lá muita gente. E uma vez estava em casa, e havia um café lá à frente, e comecei a ouvir um carro a tocar bué alto. Comecei a ouvir e era o “Krónicas”. “Isto é o meu som… Não pode, é impossível.” [Risos] Então houve um gajo que foi lá a casa com uma pen e tinha sacado os sons e o pessoal já andava a ouvir [risos]. Sentia mesmo o orgulho. Cheguei a tocar no Alentejo e no Algarve e o pessoal organizava-se todo e iam em dois carros. A qualquer lado que fosse tocar, o pessoal ia e enchia ali as primeiras filas e cantava comigo. Foram bons tempos.
E começaste a sentir que o impacto era cada vez menos regional? Lá está, foste tocar ao Alentejo e ao Algarve, também tinhas essa semente, como disseste, no Norte. Sentiste que o disco também chegou a esses sítios? Que nem tinham um movimento hip hop tão activo, com tanta gente.
Sim, e não era tão fácil chegar lá. Mas sinto que sim. É claro que, saindo de Lisboa — sobretudo da Linha de Sintra, da Linha de Cascais e da Margem Sul — cada vez menos pessoas me conheciam. Mas havia sempre uma ou outra que já sabia as músicas. Mas eu sentia que quem não conhecia mas ia lá e ouvia gostava. E no final até acabavam por comprar um álbum. Apesar de ser sempre um nicho, nunca ter sido um público muito grande, mas o pessoal abraçou bué e foram muito fiéis, até hoje.
Mas, para a realidade da altura, estavas numa escala bastante considerável para o nível de visibilidade que tinhas.
Sim, tenho essa noção. Aquilo foi para a FNAC da Madeira e chegou a esgotar lá.
E porque é que resolveste celebrar agora com este concerto, passada uma dúzia de anos?
Queria ter feito aos 10 anos, já era algo em que pensava há muito tempo. Quando fez uma década, tínhamos acabado de sair dos confinamentos, da Covid-19, estava um bocado complicado, e durante a pandemia meti-me na produção do livro. Então as duas coisas chocaram e preferi andar com o livro para a frente. Agora, aos 12 anos, acho que é uma boa altura. Não celebrei os 10, mas celebro os 12.
E saiu em 2012.
E o concerto será dia 12, para celebrar os 12 anos de um álbum que saiu em 2012. Não foi pensado, mas é engraçado.
Vais tocar o álbum todo, vais também incluir outras faixas?
Também vou tocar outros sons, sim, mas tudo mais daquela altura. Vai ser com DJ, mas haverá alguns convidados.
E estás ansioso por tocar aquelas músicas ao vivo outra vez?
Estou ansioso e já não toco há muito tempo, para aí há uns quatro anos. E estou a preparar o concerto com muito carinho e estou com uma expectativa fixe para ver como é que as pessoas vão receber a cena, porque haverá surpresas, momentos diferentes, mas a ideia é mesmo dar uma prenda às pessoas que me acompanharam ao longo destes anos e celebrar com elas. Quero que seja um concerto especial.
Quando te entrevistei no ano passado a propósito do livro, também abordámos o facto de já não estares tão activo na música. Sentes que isto também serve um bocadinho para te motivar para fazeres mais coisas na área da música? Ou nem por isso? É só celebrar o álbum que foi um marco e vais continuar como tens estado nos últimos tempos?
O meu intuito inicial foi mesmo esse: dar uma prenda a quem me tem acompanhado estes anos todos. Porque essa pergunta é recorrente, o pessoal pergunta sempre quando é que lanço mais coisas. É bom, porque demonstra carinho e apreço; mas eu com os meus fantasmas é que às vezes me custa um bocado. Mas confesso que me tem despertado essa vontade, de voltar a fazer rap, voltar a escrever, procurar instrumentais e ser criativo nessa área. Se vai acontecer ou não, não sei, mas tenho sentido essa vontade.
E de certeza que gostas mesmo de palco, porque tiveste muito essa experiência durante vários anos.
Sempre gostei muito de palco, mais até do que de estúdio. Tenho saudades. E tocar no Musicbox é uma cena fixe, é uma casa pela qual tenho um carinho especial. Toquei lá algumas vezes. Também fiz lá um spoken-word há pouco tempo e gosto muito daquele espaço.
E vês-te a apostar cada vez mais no spoken-word?
É algo de que gosto muito de fazer. Mas não… São cenas pontuais. O livro em si foi algo pontual. Tenho o desejo de voltar a escrever algo no futuro, mas não para já. Mas que seja algo mais elaborado, um romance, ficção, se calhar. Eu gostava. Sobre o spoken-word, gosto muito da ideia de tertúlias, cenas pequenas e intimistas. Mas não sei se existe espaço para isso. Os nichos em Portugal são muito pequenos mesmo.