Do kraut ao industrial electrónico, com a veia do amor a latejar, surge o trio MAQUINA., que por todo o país conquista corações e enche salas e festivais. De um boom inesperado, zarparam em direcção ao sucesso como se timidamente a vontade de tocar se tornasse em algo muito maior. E tornou.
Por isso, no Clube Recreativo da Mouraria, juntámo-nos para conversar com Tomás Brito (baixo), Halison Peres (bateria, voz e letras) e João Cavalheiro (guitarra) sobre música e amor, e sobre as tours que ficam para trás e que ainda estão por vir, num caminho que se faz rápido, mas sempre com os pés em terra.
Vamos começar pelo início dos inícios: como é que passámos dos NÃO! até aos MAQUINA.?
[Halison] Foi o que sobrou, na verdade.
[João] Foi a ausência do resto dos membros de NÃO! que depois fez com que nós os três estivéssemos reunidos no estúdio como fazíamos com NÃO! , a jammar e a passar tempo juntos, e acabámos por ficar nós os três. E de jams apareceram músicas e depois começámos a levar as coisas mais a sério.
[Halison] Mas no começo era mesmo só para passar tempo juntos. A gente já tocava juntos há algum tempo, mas era mais por diversão.
[Tomás] Era o recreio.
[Halison] Eu sempre falo nessa cena: a gente nunca entrou no estúdio tipo “’bora fazer uma banda para tocar ao vivo”, e isso foi uma chapada de luva branca, porque às vezes as coisas vêm de onde menos esperas. Como estar a tocar em certas bandas e estás bué focado em querer fazer algo e a banda não está a levar a sério…
[Tomás] A banda que não é banda.
[Halison] A banda que não é banda é que começa a dar certo.
Sem compromisso.
[Halison] E você fala assim de fórmulas que a gente cria na nossa cabeça e que as coisas só dão certo assim e não… não há fórmulas. E acredito que há bandas que funcionam assim, mas para mim foi mesmo um aprendizado, de pensar que tudo o que são conceitos de como fazer uma banda se desconstruíram com MAQUINA, na verdade.
Então será que é do amor e da amizade se faz a música?
[Tomás] Exactamente! [Risos]
[Halison] Com a MAQUINA., sim.
E se o amor acabar?
[Halison] Há sempre amor.
[João] Há sempre amor.
[Halison] Mas o amor não acaba porque a gente conversa bastante, para estimular. É como uma relação, não é? A gente fala que quer crescer um bocado em comunicação…
[João] … É tudo. É verdade, é verdade.
[Tomás] Se não houver amor, não há banda, mas isso não vai acontecer, porque o amor vai prevalecer.
Vamos acreditar no amor, não é?
[Tomás] Claro.
[Halison] É como o João e a cena dos discos, ele coloca um EL de Endless Love.
[João] Eu assino sempre com um coraçãozinho e um EL.
Portanto os gajos da jarda são pelo amor?
[Halison] Claro que sim.
[João] Muito românticos e apaixonados.
[Halison] A gente tem esse canal… e para, tipo, catalisar alguma coisa devia ser isso.
[João] E é fixe haver uma banda de que as pessoas gostem e que consiga ser mais acessível e mostrar que as coisas não são assim tão difíceis se houver essa cumplicidade.
E enquanto o amor vinga, temos um novo álbum. Querem falar sobre ele?
[Halison] A gente lançou no dia 5 de Abril e foi junto com o concerto na Holanda, que foi também o primeiro dessa tour com A Place To Bury Strangers, então foi engraçado. Cada privilégio, não é? Lançar um álbum e já estar com eles na estrada. E o álbum foi super bem recebido pelas pessoas… Mais do que se calhar estava à espera.
[João] Até porque depois daquele primeiro álbum, que teve uma recepção incrível, há sempre o receio de fazer o segundo álbum.
[Halison] Você já ouviu falar da maldição do segundo álbum?
Claro.
[Halison] E existe a maldição do segundo álbum. Já não me lembro onde é que eu li isso, mas eles comentaram isso. Mas foi positivo, especialmente depois de apresentar ele na estrada a gente começou a acompanhar um bocado mais o impacto e a ter uma noção de como o pessoal reage.
[Tomás] Já estávamos a tocar algumas músicas há algum tempo, por isso já tínhamos alguma ideia de como iria ser recebido depois.
[Halison] Você faz uma música em estúdio, mas se não apresenta ao vivo nunca sabe mesmo como aquilo se vai desenrolar ao vivo.
[João] Mas antes de o lançarmos o pessoal já estava a reagir bem. E achámos que ia ser a medalha de prata, porque o primeiro álbum já tinha sido o álbum de ouro, mas foi o contrário até.
Foi o álbum de platina.
[João] Há muita gente que vê uma boa evolução de MAQUINA., que não ficámos para trás. Pegámos nas texturas e na linguagem do primeiro, mas está um bocadinho mais maduro.
[Halison] Eu gostei quando o pessoal descreveu isso. É bom porque tu sabes que não paraste. Sim, ’tou crescendo! [Risos]. Sentes que estás a pegar no que fizeste e a evoluir, não estás parado no tempo. E é bom ouvir esse feedback. Mas deve haver gente a passar mal, “foda-se, as músicas não acabam nunca…” [Risos]
E foi através do concerto no Musicbox com A Place To Bury Strangers que surgiu a entrada na Fuzz Club Records?
[Halison] Não. Foi um bocado antes. A Fuzz Club, na verdade, foi ajuda de alguns amigos, que já tinham contacto com o pessoal da editora e que ouviram a gente e associaram logo — “’bora tentar colocar esse pessoal em contacto com eles”
[João] Foi um amigo falar de nós, foi outro amigo falar de nós, depois eles ouviram… juntaram-se todos e gerou-se o interesse.
Foi um networking natural?
[João] Ya, foi.
[Halison] Tipo, há um dia que estava com o Tomás e vejo que nos começaram a seguir.
[Tomás] Ou que tinham comprado o disco no Bandcamp, e ficámos logo “a Fuzz Club comprou o disco! Que se está a passar?”
[Halison] E depois percebes um pouco de como funciona a indústria. Desde que eles compraram o disco até vir falar com a gente, até ao primeiro passo mais sólido. Quanto tempo a gente ficou: “A gente está na Fuzz Club ou não está? Está ou não está?”
[Tomás] Acho que só agora depois do gig é que ficou mesmo oficial.
[João] Porque o concerto agora no festival [da editora, em Eindhoven] foi quase… não foi um teste, mas um “deixa lá ver se o hype corresponde”.
Então assentaram?
[João] Agora fazemos parte da família.
E como é que está a ser este salto?
[Tomás] É insane. Acho que estamos todos a processar ainda um bocado… Também não é o foco principal com que nós estamos.
[Halison] Acho que não é o que a gente tem, mas o que a gente quer alcançar ainda. Ter os pés no chão é fixe, falar o que está a acontecer também é bom para ter alguma noção e se sentir um bocado valorizado também, e é importante falar do que está a acontecer para também não sair viajando.
[João] E não nos levarmos muito a sério. Tipo, o nosso ego não crescer só porque agora enchemos salas ou porque estamos na Fuzz Club, que é uma label internacional… É isso que o Halison disse: manter os pés na terra e aproveitar também, porque são muitas coisas boas que estão a acontecer.
[Halison] Principalmente o momento em que acontece. É sempre melhor estar no presente do que estar atrás ou à frente. Claro que há muita coisa que a gente almeja que está lá na frente, mas é o momento que prepara a gente para o que vem. O ano passado foi um ano assim… bué intenso em termos de concertos. Tocar mesmo ao vivo 50 concertos durante o ano todo.
50?
[João] 53. Mas ele disse 50 porque três foram em Espanha, talvez.
50 só em Portugal?
[João] O pessoal acha que não, mas Portugal tem muitos festivais pequeninos que ninguém conhece ou venues… Porque se concentram muito nos festivais grandes ou mainstream, mas Portugal não é só isso.
[Halison] Eu acho que a gente também se colocou em situações em que a gente disse que sim para… tudo. Todos os concertos que nos ofereceram o ano passado, a gente foi… foi de cabeça. Ninguém falava alto, mas acho que todo o mundo queria a mesma coisa, então era bué fácil. A Pointlist perguntava-nos se queríamos tocar e, às vezes, mesmo sabendo as condiçoes… SIM!
[João] Let’s go, ‘bora dizer que não vamos trabalhar! [Risos]
[Halison] E os sacrifícios que eu acho que no final pagou. Eram finais de semana em que deixávamos de trabalhar para tocar, mas todo o mundo prefere tocar do que estar a trabalhar. Claro que isso é o que faz a gente se sustentar para continuar a fazer a MAQUINA. andar. Mas mesmo assim, olhando para trás, dá para perceber, se calhar, o porquê de ser tão rápido esse percurso: porque a gente estava lá em todos os sítios que a gente podia, por mais pequenos que parecessem, por mais longe que estivessem… Na verdade, você nunca sabe quando vai abrir uma porta nova. Em alguns sítios com 15 pessoas podem ter uma pessoa que te leva para outro sítio. Como em Famalicão. Estavam tipo 40 pessoas? Mas uma delas era o André do Amplifest e agora vamos lá tocar.
[Tomás] E começas a juntar uma crowd. Porque quando estás a tocar em Braga não estão só 30 pessoas em Braga, porque estão 30 pessoas de Famalicão também. O pessoal movimenta-se muito.
[Halison] Em Viana do Castelo estavam 10 pessoas e duas delas vieram lá de cima, de Paredes de Coura, para ver o nosso concerto no Musicbox. Trouxeram até uma bola de queijo Limiano, porque sabem que eu curtia, eu falei disso. E eles pegaram! Eu adoro queijo Limiano, é bueda bom! E os gajos trouxeram uma bola e vieram lá de cima…
E o queijo sobreviveu à viagem?
[Halison] Chegou. Chegou um bocadinho molinho, mas ‘tá bom. Mas às vezes quando eu abro o Excel de 2024, fico a olhar a aba do 2023… os sítios que a gente já tocou. E cada pin no mapa.
Mas os concertos, apesar de serem muitos, são também muito intensos. Há sempre crowdsurf, há pessoal a invadir o palco e vocês a dizer “sim, sim, por favor, deixem invadir à vontade”…
[Halison] Please… Dancem com a gente! Mas isso no começo não foi bem assim, acho que o pessoal estava tentando entender o que a gente estava a fazer.
[Tomás] Mas acho que houve sempre uma energia do nosso lado que acabou por ser contagiante. Uma coisa que não é feita, acho que faz parte de nós, do que já passávamos juntos já e da pica que tiramos disso. Às vezes não preciso mais nada sem ser nós os três para canalizar tudo, e isso transmite-se, e o resto do pessoal repara que há uma química e uma vontade de estar ali a fazer aquilo.
[Halison] É tão bom quando você vai num concerto e vê que os músicos estão mesmo a curtir e que não é show off.
[João] Estamos os três na bolha e o pessoal também entra na nossa.
[Halison] É bue fixe. Mas no começo eu reparava. Se calhar, na primeira, segunda música o pessoal ainda estava perceber o som, se calhar a colocar a gente em algum sítio tipo: “Eles tocam post-punk? Eles tocam kraut? Eles tocam techno? O que é que é isso?” E chega ali algum momento em “que se foda, vou dançar!” E às vezes o pessoal quando começava a dançar… Depois já mexia a cabeça, batendo o pezinho… Então, se está batendo o pezinho é porque já está funcionando… [Risos] Era engraçado esse processo, até que chegou a um ponto, se calhar do Zigurfest para a frente, em que começaram a conhecer mais a gente.
[Tomás] Já sabiam para o que vinham logo desde a primeira música.
[Halison] Houve um impacto, e desde logo na primeira música o pessoal já começava a enlouquecer e tu a ficar tipo “uaaau”.
[João] O pessoal já conhece as basslines…
[Halison] Já começam a cantar com a boca!
[João] Acho que temos uma mais-valia. O nosso som é muito orgânico e dá para entrar assim num transe… não é uma coisa muito de estrutura, então as pessoas conseguem dançar e não precisam de dançar de uma forma específica ao ritmo, é um bocado aberto para as pessoas serem criativas a movimentarem o seu corpo.
Entrarem na sua bolha a partir da vossa bolha.
[João] Sim!
[Halison] Sentir que tomaram alguma droga sem terem tomado…
High on MAQUINA.
[João] Exactamente.
[Tomás] Adrenalina só.
E se tivessem de fazer um top 3 dos 53 concertos?
[Tomás] Acho que o Zigur. O Zigur foi um.
[Halison] Mas a gente vai ter de falar de Coura…
[Tomás] Coura, sim… Coura é aquele óbvio. Quase que nem vale a pena colocar no top, porque…
[Halison] … Já é top.
[João] Coura está no top, porque era um sonho que ninguém precisava de partilhar, mas que era real…
[Tomás] Não só por ter sido Coura, mas por ter sido tão rápido, e como aconteceu e às horas em que aconteceu.
[João] Nós tivemos uma slot que mais nenhuma banda tem. E mais bandas mereciam tocar à meia-noite no Palco Secundário. E foi bué recompensador ouvir dizer que fomos dos melhores concertos daquele ano e nós nem estávamos no line up. E 30 anos de Coura!
[Halison] E também um bocado a cena de terem colocado a nossa banda num horário em que não há muitas bandas portuguesas a tocar. Mas isso serve de lição, para o pessoal aqui começar a valorizar as bandas também nos festivais com esse âmbito mais internacional e dar a conhecer bandas portuguesas em horários nobres.
[João] Porque é que as bandas portuguesas vão abrir às seis ou sete da tarde quando ninguém está lá durante o dia?
[Halison] Acho que essa parte também foi bué importante. E depois ali começas também a perceber qual é a abertura para outros festivais tanto dentro como fora. E do Paredes de Coura ir tocar no Monkey Week, em Sevilha — e isso também esteve um pouco ligado —, e apresentar a cena em Espanha e perceber que o segundo país que mais escuta depois de Portugal é Espanha, e isso geograficamente está certo.
[Tomás] Mas não está no top 3.
[Halison] Eu gostei muito do das Damas.
[Tomás] Ou o de Fafe.
[Halison] Mas o do Salgado Faz Anos eu curti bué…
[Tomás] Nos Maus Hábitos! Também estava a pensar nesse.
[João] E a Supernova.
[Tomás] São bués, é impossível! [Risos]
E vem aí alguma tour?
[Tomás] A tour acabou agora. Agora estamos a descansar da tour, mas vamos estar a tocar aqui.
[Halison] Vamos tocar todos os finais de semana até Outubro e depois a gente está preparando uma tour também lá para fora até Dezembro. Nesta tour que terminámos agora a gente fez sete países. A gente começou na Holanda, Alemanha, Itália, Suíça, França, Espanha, Portugal, a gente voltou para Espanha e agora estamos aqui. A gente deu um concerto em França e depois começámos com A Place To Bury Strangers e aí foram três semanas com eles.
[João] Foi incrível estar todos os dias com eles.
Eles partiram guitarras todos os dias?
[Tomás] TODOS os dias. Acho que houve um dia em que não, em San Sebastian. Até fui perguntar ao Oli.
[João] Às vezes eles não partem ao meio, ficam com lascas…
[Halison] E antes de começar o soundcheck ele está lá a colar as guitarras com os grampos. Lembro-me de estar a falar com ele e ele pegar numa lasca de madeira, meter cola e enfiar aquela lasca, e apertar e meter mais cola… [Risos] É verdade. Mas para explicar melhor, essa tour foi a convite dos A Place To Bury Strangers, essa tour não estava escrita no script deste ano e a gente aceitou, sabendo que ia ser um bocado tough. Mas é tudo ou nada. Quantas vezes és convidado para tocar com uma banda que adoras? Quando a gente tocou com eles no Musicbox estivemos no dia anterior a jantar com eles no Clandestino.
[Tomás] Tivemos um dia para criar bond.
[Halison] O bond é mais amizade do que profissional.
Voltámos ao amor.
[João] Criámos esse amor, então eles convidaram-nos, e como o Halison disse, as condições não eram as melhores. Íamos sozinhos numa carrinha à parte, tudo por nós, e não com os melhores cachês de sempre, mas não podíamos dizer que não…
[Halison] Desde a parte de encontrar uma carrinha, arranjar o dinheiro necessário, preparar toda a logística…
[Tomás] Arranjar sítios para dormir… Mas foi bué bom estar com A Place To Bury Strangers, como também foi crazy tocar para salas cheias. A primeira vez que vais lá fora… Tu não estás à espera, estás a tocar para muita gente.
[Halison] Mas para nós, lançando o segundo álbum e saindo com uma tour lá fora foi um privilégio, poder tocar para salas cheias, algumas esgotadas mesmo, e abrir o concerto e receber bué amor depois e ter o pessoal bué interessado na nossa música. E mesmo os momentos mais duros…
[João] São esses que vão para o livro. E mesmo nesses momentos maus, a âncora que nós tivemos foi mesmo “ok, ao menos estamos juntos”.