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Fotografia: André Delhaye
Publicado a: 02/04/2025

Um (re)encontro com (a) história, semeando o futuro.

Lucinda Childs Dance Company em Serralves: a importância dos Works in Silence

Fotografia: André Delhaye
Publicado a: 02/04/2025

Estávamos alertados para a importância do momento. Escrevia Cláudia Galhós, no Expresso, haver “um arco histórico de mais de 60 anos de criação para dança da pioneira do pós-modernismo, Lucinda Childs, que se apresenta no Porto”; também Gonçalo Frota em igual medida avisava, no Ípsilon, que “a cidade [do Porto] recebe este fim-de-semana [29 e 30 de Março] as primeiras e as últimas obras de uma das mais importantes coreógrafas da história da dança.” Quem nos avisa nossa/o amiga/o é, verdade.

Estamos em pertinente propósito de focar parte do programa do passado domingo, em Serralves, num além de todo o programa trazido ao Porto, com Four New Works — “Actus”, “Geranium ’64”, “Timeline” e “Distant Figure” — no palco do Teatro Rivoli como mostra das novas obras de 2024 da Lucinda Childs Dance Company. Isto pela pertinência, pelo seminal significado linguístico nas artes, além das performativas, no campo da música, do som. Precisamente na temporada que marca 50 anos de existência, apresentou um programa nos antípodas desse arco histórico como criadora, com Early Works, sete importantes peças desses fulgurantes tempos, entre 1963 e 1979, criações nessa seminal Nova Iorque de então.

Childs é um nome cimeiro no que às artes da dança de vanguarda diz respeito. Lembrava em conversa, sincera e simples na leveza do ser-se, que tudo se tornou claro no dia em que teve uma aula magistral, e única, com Merce Cunningham. Não foi preciso outro momento. Foi aí que percebeu o que tinha dentro de si, como Childs coreógrafa a traçar qual o seu caminho na dança — o dela e o da história da dança contemporânea, estamos hoje em plena noção de o afirmar. Mas nesse dia não foi só tocada pela mestria de Cunningham, na mesma sala estavam John Cage e Robert Rauschenberg. Ou seja, de uma assentada Childs era irreversivelmente emaranhada na arte, quer seja da dança, da música e da pintura. E como na melhor das respostas que se pode ter, enquanto criadora face à influência, daí trouxe um seu eu autoral. Childs viria desde então a desenvolver um corpo de trabalho numa linguagem de cariz minimal, “reconhecível na estrutura complexa e abstracta das suas peças e no vocabulário empregue, de movimento restrito”, como referem as palavras de apresentação da folha de sala em Serralves.

Ter acesso a um pedaço da história retomada pela própria criadora é de facto um acto generoso e tornado imperdível. Apenas o MoMa – Museum of Modern Art teve este rasgo até hoje (em 2018), a que agora se junta Serralves neste programa conjunto com o Rivoli – Teatro Municipal do Porto. Esta possibilidade, com tamanho encontro, faz história com a própria história. Em Early Works incluem-se os Works in Silence (peças coreográficas dançadas no silêncio) — “Particular Reel”, “Calico Mingling”, “Reclining Rondo” e “Radical Course”. São a expressão já tão precoce desse fundamental radicalismo na linguagem dos corpos sobre os linóleos idealizada por Childs. E assentam num princípio que interpretamos de um outro herdado de Cage. Childs confessa nessa conversa pública, no pós-acto performativo, que a ideia de assume nothing é um fim de princípio, é génese. Fonte recorrente e justamente basilar nestas suas primeiras obras. Importava-lhe — ainda importa, estamos em crer — algo de conjunto, como diz. Assume uma linguagem que traduz um novo conceito na dança justamente nas suas palavras, mantidas prístinas, com uma prática da rua para o campo das artes performativas que incluem movimentos pedestres. A que acrescenta dimensão quando refere a importância de uma ideia de “movement of women — evolve to minimal”, como descritores da sua linguagem. 

Circular, semi-circular, idas e voltas, movimentos cíclicos, como padrões geométricos e matemáticos. Estamos na sala 11 do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, um nada a expor, assumindo esse desejado vazio — cheira a tinta fresca. Mas há um público para receber “Pastime” (1963) dançado por Sharon Milanese. Ondula e vibra o soalho à passagem, há um rigor no tempo e no modo, mecanismo certeiro. É um excerto da peça e que dá aso certeiro para um trio de dançarinos Kate Dorn, Matt Pardo, Caitlin Scranton e Milanese de volta para “Calingo Mingling” (1973). E começa a dança dos contratempos, dos conta-ritmos, fechamos os olhos para ver melhor, e sentir a expressão sonora do dançar, é uma precisa mesa de mistura a operar, num acústico ser, sem microfones a operar, que interpretamos de conexão inequívoca ao que Steve Reich havia inscrito tão perto desse tempo com Drumming (1971). Luz natural, som natural, nada a mais do que aqui surge no sentido orgânico para estes Works in Silence. Mas aqui os bongos e as marimbas de Reich são na vez os pés e o fluxo dos corpos sobre o ar e chão a trazer a sincopada textura dos ritmos. Entra em cena, saída no meio de nós (público presente), Lucinda Childs para interpretar Childs na (re)criação do seu eu em “Particular Reel” (1973). Talvez o momento mais esclarecedor do programa, já não se trata do fascínio de ver dançar a criadora, como a sua leveza coolness de 85 anos, mas antes entendendo bem a raíz elementar desta nova linguagem de então trazida ao hoje, aqui e agora. Como citava Frota na entrevista concedida ao Ípsilon: “No final dos anos 70, as pessoas achavam que a repetição significava estarmos sempre a fazer a mesma coisa.” E remata: “Agora, sabem olhar além disso”. É tão justo que esta peça se chame assim mesmo, “Particular Reel”.

A apresentação dos três corpos, de pose em pose escultórica com “Reclining Rondo” (1975), mostram uma interpretação como esculturas que se vão alternando em posições — 18 movimentos. Interpretação a cargo de Mark Burke, Kyle Gerry e Lonnie Poupard Jr., para uma frase feita de movimentos repetidos 12 vezes, mapeando um espaço. Há aqui uns alvores do breakdancing da cultura hip hop, estamos em tese disso mesmo. Mais uma vez o silêncio é um assumir do nada como princípio, que se preenche pelo fazer, pelo dançar. Mas nesta dança de corpos em mutações reclinadas, proto-estáticas, há tempos de silencio e tempos de fluxo sonoro. Como que um processo de samplagem sobre a folha em branco. Sincronia absoluta, respeito pelo ritmo do tempo. Exímio rigor coreográfico sonoro, ouve-se o silêncio e conta-se o tempo da sincronia para o voltar a ouvir no tempo certo. Final das peças silenciosas de Childs com “Radial Courses” (1976). Corolário da multiplicidade dos elementos minimais. Tornada maior pela diversidade dos movimentos e consequentes sonoplastias em tempo real, despoletadas uma vez mais pelo fluxo dos corpos. Dançada em sucessivas repetições, com fugas recorrentes, nunca perdendo o rigor do tempo, uma e uma vez mais — o lugar da dança e da contra-dança na medida do ritmo e dos contra-ritmos. E isto tudo fruindo-se de olhos fechados faria igualmente pleno sentido, mas aí teríamos que chamar-lhe outra linguagem, mas em que a génese é a mesma. 

E se na ligação à música Childs se conecta de pronto a Cage e mais tarde a Philip Glass, como pontos de entrada na música da suas coreografias, “é a música que dá início a tudo”, como refere a Frota na já mencionada entrevista. Contudo, vivida a experiência, esclarece-se que neste conjunto de peças apresentadas em Works in Silence, é uma ideia de “no princípio era a música”, mas onde é a dança que a faz surgir, e não o que mais em voga se estabeleceu como a dança que responde ao estímulo do som. Há aqui uma antologia poética e sonora, um pedaço de história que esclarece de forma radical onde pode habitar a composição sonora em tempo real. E mais do que uma evocação do passado celebrada neste presente, como tentou rematar Lucinda Childs nessa conversa junto a Cristina Grande, Maria José Fonseca e a todos nós, rejeitando em delicada harmonia a sua glorificação, aponta às novas gerações de coreógrafos a importância do seguinte: se Cunningham foi portal para Childs, também Childs assim o é para tantos(as) mais. Atente-se numa realidade muito perto de nós, no tempo e no espaço, ao trabalho de criação de uma PULSAR – Companhia do Corpo. Isto é a expressão e sementeira do futuro a dar frutos já neste presente. A esse propósito recenseámos a passagem de “Corpo do Tempo” de Marco Santos, dança como fonte do som. Primordial e funcional, uma metodologia de trabalho frutífera, vinda desse legado de Childs a demonstrar a sua importância no futuro. 


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