Os Lavoisier despedem-se de Aí com um concerto no Teatro Taborda, em Lisboa, já amanhã, dia 5 de Outubro. Os ingressos estão à venda por 12,84€ euros.
Roberto Afonso (guitarra, baixo e voz) e Patrícia Relvas (voz e percussão) deram corpo às canções de Aí para um lançamento que aconteceu em Março de 2022. Igual a si mesma, a dupla voltou a descolar-se de um qualquer rótulo em específico, abordando o momento da criação de acordo com as vontades que surgiam na hora de expressar a sua arte. O sucessor de Viagem a um Reino Maravilhoso (2019) encapsula, por isso, diferentes estéticas musicais, e ao longo das suas 11 faixas passa por fases que vão desde a folk e da música tradicional portuguesa ao rock e à tropicália.
Recuar agora até ao disco lançado há um par de anos significa para este duo um fim de ciclo, que será celebrado ao vivo juntamente ao lado do público que o acompanha. Ém conversa com o Rimas e Batidas, os dois músicos antecipam o espectáculo de amanhã e deixam desde logo a ideia de há um novo capítulo a iniciar-se em seguida, através da edição do seu próximo registo de longa-duração que prevêem dar a conhecer já no ano que se segue.
O palco e o estúdio são dimensões paralelas, umas vezes comunicantes, outras nem por isso. No vosso caso particular, que modos criativos diferenciados activam na hora de tocar ao vivo?
São realmente duas dimensões paralelas, que temos vindo a respeitar de acordo com o seu próprio potencial. Existem momentos no palco que não seriam realistas em estúdio e trabalhos em estúdio que não almejam um palco. Mas como músico é um privilégio teres os dois mundos, abrindo as várias portas que cada um deles te possibilita. Aquando a hora de tocar ao vivo, não diríamos que há um modo diferenciado ou criativo para preparar um concerto, existe sim, muito ensaio de modo a relativizar todas as adversidades que possam aparecer, porque uma vez fora do conforto da tua sala de ensaio, tudo muda e ainda bem. Para além disso, existe a responsabilidade de nunca desrespeitar o tempo, de quem se dignou a “arriscar a sua vida”, para estar naquele momento a agraciar-nos generosamente com a sua presença.
O Teatro Taborda onde agora se vão apresentar foi, há várias (muitas) décadas, estúdio onde a Valentim de Carvalho, pelas mãos do engenheiro de som Hugo Ribeiro, gravou históricos discos de Amália Rodrigues ou Alfredo Marceneiro. Acreditam que este espaço retém ecos dessas presenças? Gostam de tocar com fantasmas em palco?
Existe um respeito enorme da nossa parte, por quem originou e registou ecos, que ainda hoje podem ser escutados e apreciados. Lavoisier tem seguido o seu percurso muito atento ao trabalho de grandes figuras, que “assombram” a nossa memória e a nossa capacidade de criar, sombras que possibilitam um chão que tentas habitar com alguma gravidade. As paredes dos espaços, tal como as fitas magnéticas usadas para gravação, podem conter alguns componentes químicos semelhantes, e por essa mesma razão funcionarem como armazenadores de som. Se quimicamente até pode ser provado que determinados espaços podem reter ecos de presenças passadas, espiritualmente não temos dúvidas nenhumas. E sim, gostamos muito de tocar com fantasmas em palco.
As apresentações ao vivo dos Lavoisier são raras. É desígnio ou acidente?
Estamos em crer que essa afirmação possa estar incorrecta ou ser injusta, a partir do momento que a nossa maior subsistência como músicos passa pelas actuações ao vivo. Agora, se o contexto da afirmação for sobre as apresentações de Lavoisier em Lisboa, e essas serem raras, então aí podemos anuir, concluindo que não é desígnio. Desde o início de Lavoisier que acreditamos que o papel do músico é estar com as pessoas, criando ambientes que reconhecemos de uma ancestralidade que nos é transversal. Toda a humanidade se formou e cresceu a ouvir histórias dentro de uma casa, ou à volta de uma fogueira, e a música não mais será do que um veículo que procura agregar pessoas, trazendo-as de volta para uma comunhão que existe, também, na forma de concerto. Não queremos com isto dizer que tudo isso supere a solitude do acto de criação, fundamental ao ADN de um músico, apenas afirmamos que são duas faces de uma mesma moeda. Mas voltando ao início da tua pergunta, que confessamos ter-nos provocado alguma inquietação, a verdade é que queremos tocar muito mais ao vivo do que aquilo que tocamos, e que essa fome será sempre difícil de saciar. Sabemos porém que existem alguns factores que não nos possibilitam que essa realidade seja uma constante, e que esses mesmos factores muitas vezes não dependem exclusivamente de nós. Ainda assim também acreditamos que o papel do músico hoje em dia atravessa vários planos, que vão para além de um palco; tens, por exemplo, as residências artísticas, ou trabalhos com a comunidade, que podendo ou não traduzir-se numa apresentação ao vivo, a verdade é que todo o processo e o estar, com pessoas de âmbitos e lógicas diferentes da tua, fazem-te crescer tremendamente como artista e como pessoa.
O que vai estar em palco nesta apresentação, no que a instrumentação e recursos humanos diz respeito?
O álbum Aí foi de longe o trabalho que teve mais colaborações e mais pessoas diferentes a tocar connosco ao vivo. Na apresentação do mesmo, em Março de 2022, no Teatro da Trindade, tínhamos uma comitiva com mais de 30 pessoas, desde músicos, técnicos e produção, mas desta vez estaremos somente como duo, com guitarra, vozes, electrónicas e alguma percussão. Fora do palco estarão conosco o Cid Saldanha no som, e o Luis Moreira na luz. A produção ficará a cargo da Ao Sul do Mundo.
A vossa música vai-se transformando em palco? A experiência ao vivo altera de alguma forma aquilo que se pensou ter fixado definitivamente em estúdio? Ou as canções têm existências dinâmicas?
As canções claramente têm existências dinâmicas, e por isso são um organismo vivo em constante mutação. Gostamos muito de nos rever na visão que o Fausto um dia expôs numa entrevista acerca das suas canções. Dizia ele, que um autor de canções se assemelha a um pintor, que diante da sua obra aparentemente “concluída”, este pode repeti-la com mais pinceladas e outros pormenores, que a elevarão para um patamar perto da perfeição, já que nessa mesma repetição nada do que foi feito para trás se perderá, e que a busca pela perfeição apenas nos tornará melhores na arte que praticamos. Na nossa maneira de lidar com a canção, acontece muitas vezes experimentá-la ao vivo, antes de a gravarmos, para perceber que nuances nos escaparam no conforto do estúdio. Existe uma verdade em palco que desnuda muita arrogância/pretensões ou até mesmo medos e inseguranças que fazem a canção respirar de outra maneira. Será também importante realçar que cada concerto é diferente porque o público também difere, havendo uma sinergia criada naquele momento que pode ou não provocar unicidade, e que decerto jamais se voltará a repetir.
Que reportório vão tocar no Teatro Taborda? Há novos arranjos, alguma novidade que nos queiram revelar?
Para este concerto iremos apresentar na íntegra o álbum que lançámos em 2022 chamado Aí, terminando um ciclo para que outro se inicie. Como foi um álbum pensado e executado com muitas colaborações, o formato duo terá arranjos diferentes. Mas com certeza haverá espaço para mais temas, que iremos partilhar de outros trabalhos antigos e coisas novas.
A vossa música faz-se de muitas músicas e já se mencionou o fado, o rock, o tropicalismo, o jazz, a música erudita e a folk como coordenadas possíveis por onde as vossas canções passam. Têm colocado mais ingredientes nesse vosso particular cozinhado?
Os estilos que decidimos usar para vestir uma canção ou qualquer performance ao vivo existem para melhor servir o propósito de contar uma história. Se houver algum ingrediente que nos apeteça experimentar, para que melhor sejamos entendidos na transmissão de uma ideia, então nada nos fará privar desse sentido. Ainda assim, existe uma espécie de protocolo mercantil que se a tua música tiver só um estilo, esta chegará mais facilmente às pessoas. Vindos de âmbitos artísticos, tivemos a sorte de nos rodear por pessoas, músicos e até mesmo livros que nos fizeram distanciar de respostas óbvias à velha questão “mas qual é o vosso estilo mesmo?” ou “então o que é que vocês tocam?”. Através dos tropicalistas dos anos 70 e do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, presente na ideologia da semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, cedo pudemos concluir que o futuro da arte e da música não passaria por catalogar ou encaixotar, mas sim pelo encontro e digestão de várias culturas. A Liberdade que tu tens hoje de poder juntar nuances de um canto sufi, ou uma canção popular portuguesa, com guitarras eléctricas inundadas em distorção, mais programação de elementos electrónicos que são usadas depois de gravares uma viola da terra, e que tudo isto sintetizado possa soar como uma voz que mais tarde “harmonizarás” com a tua, não pode nem deve ser catalogado, mas sim experimentado e celebrado apenas como arte.
O comunicado que dá conta da realização deste espectáculo refere que o mesmo representa o encerramento de um ciclo. Podem levantar o véu sobre o que vem aí a seguir?
Sim, podemos adiantar que estamos a trabalhar com músicos multi-instrumentistas e com poetas contemporâneos, para a concepção do próximo álbum que sairá no próximo ano.