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Fotografia: Cat David
Publicado a: 13/07/2020

Um retrato que é, na verdade, uma chamada para a acção.

Keso: “A Sinceramente Porto acabou por ser o que a Ministra da Cultura queria fazer com aquele milhão”

Fotografia: Cat David
Publicado a: 13/07/2020

A epopeia de Keso chegou a um dos momentos mais importantes: a sua edição. Desde Março que o autor de O Revólver Entre as Flores e KSX2016 vinha a apresentar dois temas por semana de Sinceramente Porto, a sua compilação/fotografia “da identidade do rap portuense”. Produzida pelo próprio, o artista recrutou 37 personagens desta comunidade, a maioria MCs da velha e da nova escola de hip hop do Porto.

Tentando perceber todas as nuances deste “expositor de nomes interessantes”, enviámos a KS Xaval umas perguntas de after match sobre um projecto que é tanta coisa ao mesmo tempo: um retrato de família, uma crítica contemporânea à evolução da cidade, um bombardeiro político mas também, como disse Ricardo Farinha no seu ponto-de-vista, “comida de conforto”.



Referiste que a compilação exposta no Sinceramente Porto “abre uma porta do passado, do presente e do futuro”. Enquanto mentor e olhando para o produto acabado, que músicas achas que representam mais imediatamente o Porto que querias “fotografar”?

O Porto que eu queria “fotografar” é o Porto de agora. Não houve uma procura de determinada característica estilística de um certo tempo aquando do convite a qualquer um dos artistas. Mas julgo que é notório que o tema dos Enigma é um exemplar de referência a um disco muito identitário como o 1º Assalto do Mundo e Expeão. Talvez seja o único vincadamente referencial.

E que músicas escolherias para aliciar públicos jovens e não-conhecedores a ouvir esta comunidade?

Todas. É como uma prescrição, há uma medicação específica para cada paciente, e a Sinceramente Porto é uma farmácia.

Não há mulheres nesta colectânea de MCs e músicos. Que motivos locais é que achas que desinteressaram e, eventualmente, afastaram mulheres do rap portuense?

Não há muitas mulheres no rap nacional e o Porto não é excepção. De qualquer forma, fiz dois convites, aceites, mas que acabaram por não se concretizar.

Ponderas continuar a desenvolver o projecto nos recentes estúdios da Paga-lhe o Quarto ?

Claro. O estúdio da Paga-lhe o Quarto (POQ) servirá para continuar a desenvolver todos os projectos da plataforma. Para acolher novos artistas, novas ideias e gerar novos conteúdos. Foi um passo muito importante e aguardo, enquanto não terminam as obras, para meter mãos à matéria. Sinto que o que criamos é de uma responsabilidade enorme e que há muita gente interessada em trabalhar com a POQ, para além dos residentes.

A arte que anda a “acompanhar” este lançamento tem alguma intenção politizada ou é somente uma ferramenta de marketing? O nome do álbum é uma indirecta para alguém?

O que se tem visto na rua não é arte, é publicidade. Publicidade pura e dura à moda de quem não tem problemas em pintar as paredes dos outros. De quem conhece tão bem as ruas que escolhe pontos estratégicos para nela expor o que faz. É como escolher uma parede para dar um bomb.

Já em relação às leituras que podemos fazer dos SPs, é evidente que não sou parvo e há algumas mensagens que podem ser sub-entendidas. Uma, é a utilização da palavra “Sinceramente” como expressão de desapontamento. Os tempos que vivemos antes da pandemia estavam a deixar os já poucos cidadãos do Porto de cabelos em pé. Os despejos, o preço das rendas, o alojamento local, a imposição da hotelaria e da precariedade laboral, etc. por aí fora — Serralves e Casa da Música a colocar a cerejita. Outra, é utilizar a mensagem como um aviso. Do género: “Atenção que há locais a fazerem o que lhes apetece nestas ruas (ruas que são deles por direito afectivo e moral)”.

O SP não teve um lançamento justo por causa do isolamento. O concerto inicialmente programado no Hard Club foi desmarcado. Pensas substituí-lo de algum forma?

O SP não se fez nem se fará de um lançamento ou concerto. É um evento contínuo na medida em que envolveu tanta gente durante tanto tempo e continuará a envolver-nos nos seus ecos. A pandemia, na realidade, acabou por ser “benéfica”. Com tão pouca coisa a acontecer, para além do mediatismo do número de infectados, foi a catalisadora para centrar a atenção em todos os lançamentos. De um dia para o outro passamos a ter 100 pessoas a assistir ao lançamento de um tema. Geraram-se focos de discussão célere. Criaram-se expectativas e cumpriram-se com as expectativas ao fim de dois meses consecutivos a entreter tema a tema. A Sinceramente Porto acabou por ser, na realidade, o que a Ministra da Cultura queria fazer com aquele milhão (estou a brincar, a POQ não tinha um milhão).

Em suma, o lançamento foi justo, muito acima das expectativas, e o concerto de apresentação virá a acontecer um pouco mais à frente.


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