Oitavo álbum de uma das mais singulares discografias que o hip hop underground gerou na última década. Capitão num quartel de bombeiros de Brooklyn, Kaseem Ryan cresceu no bairro de Brownsville e por aí se mantém, de pés fincados na única realidade que conhece. Como o próprio admite em “Sad to Say”, “had a hard life/ sad to say I know some glad to hear it”.
Tendo em conta que Descendants of Cain, o álbum do ano passado, demorou quatro longos anos a suceder ao incrível Honor Killed The Samurai (pelo meio houve ainda o projecto Hermit and The Recluse com Animoss), o novíssimo A Martyr’s Reward é uma mais do que bem-vinda surpresa. Esta (algo relativa…) urgência pode ter sido gerada pelo confinamento, mas a verdade é que olhando para a vida – ou pelo menos para a “aura” – de Ka, depressa se conclui que este é um artista que tem vivido em isolamento, facto, aliás, claramente espelhado nos títulos dos seus últimos trabalhos: o samurai, o eremita, o recluso, o mártir e até a bíblica referência a Caim são figuras solitárias, espectrais, que vivem sobretudo dentro das suas próprias cabeças, carregando o peso da honra, da culpa, do sacrifício e da redenção num mundo perdido noutros labirintos.
Há dois pilares no lado formal da arte de Ka: a voz e o seu singular flow e as molduras instrumentais que elege para dispor as suas rimas. Sobre a voz: há um tom declamatório e confessional que distingue Ka de praticamente todos os outros rappers, como se não fosse o som gerado pelas suas cordas vocais, antes o pensamento aquilo que escutamos gravado nestes trabalhos. Se fizerem uma novela gráfica inspirada na carreira de Ka, as suas rimas terão que surgir por cima da cabeça no balão que indica pensamento, com as bolinhas em vez da seta que codifica fala.
E depois há a extraordinária música que acompanha esses introspectivos discursos. Habituado a coleccionar matéria harmónica em obras de gente tão díspar quanto Yusef Lateef, Wishbone Ash, Bo Hansson, Osanna, The Three Degrees, Buffy Sainte-Marie, Black Sabbath, Arthur Conley, Buddy Miles ou Clarence Carter e Brook Benton, Kaseem Ryan não esconde a sua predilecção pelo “som” dos anos 70, quando o ar existente nos estúdios impregnava as gravações de uma dimensão espectral muito particular, repleta de poeira harmónica que de facto parece capaz de envolver a voz de Ka como uma manta de veludo aural. Neste álbum, arranca-se com blues “ry-cooderiano”, avança-se sobre figuras circulares de piano, fragmentos orquestrais, cadências psicadélicas geradas por órgãos e electricidade épica subtraída ao que soam a bandas sonoras de obscuros policiais italianos (vulgo library music). Ausentes continuam as baterias mais vincadas, com o ritmo a ser mais sugerido do que claramente pronunciado, estética drumless que Ka aperfeiçoou até se tornar uma marca identitária.
E para lá dos pilares formais, há o incontornável monólito poético, erguido a partir de significantes palavras com que Ka molda as suas reflexões sobre o mundo. E o mundo que vê, o mundo da brutalidade policial, de cidades esventradas pelos efeitos do capitalismo, de miséria e crime, de violência, é obviamente obscuro, agreste. E isso inspira-lhes as palavras, fundas.
Logo no primeiro tema, o sample que se ouve traz uma garantia: “Everything I tell you today up here/ Imma show it to you in black and white!”. E depois, o artista cumpre a promessa, discorrendo ao longo de 13 temas sobre a vida que se desenrola diante dos seus olhos, explicando que rimou para sobreviver – “Its a pity we large in the city of dodge, but not dodging/ Some slung bars to become stars, I did it to stop starving” –; expondo-se até ao tutano – “Happy I’m here to tell my story, the saddest fact / They stole my youth wish I had it back” –; elegendo a sua real família – “Got brothers that’s not blood, they’re brothers cause they bled with me” –; ou, por exemplo, oferecendo a mais poética visão sobre a relação da sua comunidade com as autoridades – “Cops got us under microscopes to make sure we cells/ Know my first vitamin was iron, but I just wanted to be 12”.
Há um único convidado no álbum, o fantástico Navy Blue, outro nome que tem imposto uma presença no lado menos exposto da cultura, outro artesão das rimas que busca a elevação da arte, bem mais do que o amplo reconhecimento. Juntos, Ka e Blue partilham “We Living / Martyr”, tema-chave neste alinhamento em que o convidado entra logo a pés juntos quando exclama: “Through false attempts a thousand times I try to pick apart my self/ repent /My only god, its all for size, no taking sides when it take common/ sense”. Ao que Ka, responde, voltando a criticar as forças que comandam a autoridade: “I’m still mad they badges made they hate groups nobler/ They change they disposition claim position then dispose of ya’”. Não há santos aqui. Apenas mártires.
Ka tem uma relação íntima com as palavras, sem a menor sombra de dúvida, mas a sua real arte resulta da combinação de um conjunto de características singulares – a sua voz, a sua entrega, a sua ideia de beatmaking, as ideias que lhe alimentam o discurso, a sua recusa em entregar-se ao “jogo”. Tudo somado, no final o que temos é um guerreiro solitário, empenhado na boa luta, a que toma as agruras e as transforma em fontes de resistência. Ka é a voz da consciência que todos precisamos de escutar.