Cantora carismática da cena de hip hop em Espanha, K1ZA é também símbolo de um movimento gigante que cresce no feminino. Como visita o nosso país já este sábado, 25 de Maio, no contexto da programação dos 25 anos da NAAM, em Barroselas, aproveitámos para falar com ela e começar a perceber os segredos, a arte, ou a magia em volta dela e desse movimento.
Para isso, temos de fazer uma breve introdução ao que nos propusemos. Sento-me, abro o PC e começo a escrever, a preparar a entrevista que me deixou mais curioso nos últimos meses. Há cerca de um ano, entre buscas por novas sonoridades, apareceu-me o nome K1ZA, e logo se destacaram as letras e a forma de as libertar. Desperta a curiosidade sobre o que estava ali e, de imediato, aprofundei as buscas em todas as ferramentas acessíveis. Descobri que não estava a lidar com um caso isolado e tantos outros nomes começavam a surgir… Levantou-se de imediato a questão: como é que não se ouve nada disto em Portugal?
Um número elevado de artistas estava a evidenciar algo. Se o hip hop feminino em Espanha não está mais forte, estará, pelo menos, ao mesmo nível do masculino. Não estamos a falar de uma “guerra”, apenas de uma indústria cultural, por norma, maioritariamente dominada pelo sexo masculino. Agora a linguagem é diferente, e sem grande esforço encontramos Tribade, Elane, Santa Salut, Anier, Lia Kali, Sofia Gabanna, Ultra, Las Ninyas del Corro, MC KEA e tantas, tantas outras.
Assim nos propusemos estudar, de forma humilde e sincera, este que podemos considerar, um incrível fenómeno rap em feminino. Temos de recuar a 10 de Setembro de 1984 onde, reza a lenda, no programa da TVE Un, dos, tres… responda otra vez se apresentaram pela primeira vez em território espanhol os Break Machine. Com uma média de espectadores a rondar os 22 milhões, o programa, líder de audiências introduziu em todas as casas espanholas o hip hop, sem contar com as casas portuguesas que viam a TVE… E pronto, cansados da saturação da música disco da época, na segunda-feira a seguir o hip hop estava presente em toda a Espanha e a evolução de toda a cultura urbana seguiu, da forma possível, uma vez que não havia redes sociais nem Internet, o que chegava dos EUA através de filmes e videoclipes. Muito à semelhança de Portugal, saídos de uma ditadura, havia uma sede de cultura, e a que chegava com mais força seria a que tinha mais poder económico.
Daí até aos dias de hoje, quase quatro décadas depois, o rap em Espanha é outro. E se na altura havia o nome de Sonia Cuevas a marcar a presença do feminino, hoje há tantos outros que fazem do país um excelente exemplo de força e união entre as artistas. Assim, propusemo-nos a este trabalho e escrevemos o primeiro capítulo com K1ZA.
Gostava que começasses por dizer ao público português quais foram as tuas origens, o que te atraiu para o rap?
Pois, comecei primeiro a tocar instrumentos. Piano e depois guitarra. E aí, nessa altura, tive um grupo de música, mais de rock e tal. Depois disso comecei a escrever a solo e comecei a fazer rap.
Isso com que idade?
Comecei a tocar música com cinco anos e a escrever com doze.
E introduziste-te ao rap com…?
Ao rap com dezasseis.
E como te atraiu?
Não sei… Por YouTube, comecei por ver vídeos e comecei a escrever mais esse tipo de música.
Este nome, K1ZA, que significa? Como nasceu?
Isso… É uma história que nunca revelo, entre um amigo e eu. Foram eles, os meus amigos, que me puseram.
Pois assim ficará em segredo. E o hip hop/rap ajudou-te a expressar as tuas próprias histórias, ou são ficção?
Sim! Ou seja, as minhas letras são inspiradas na minha vida e ajudaram-me muito a ressalvar-me e a expressar-me.
Que desafios específicos enfrentaste como artista de hip hop aí em Espanha?
Hum… Não sei se tive muitos desafios. O mais difícil é mesmo a indústria musical. Há muitos artistas e muitos festivais e é muito difícil que te vejam, sabes? Mas, em geral, correu bem, pouco a pouco.
Quando escreves, como já disseste, é pessoal. Tentas com as tuas letras passar alguma coisa aos teus fãs, a quem te segue?
Não. Eu escrevo para mim, escrevo o que tenho dentro, mas também é verdade que as pessoas se sentem ajudadas, porque se identificam. Mas eu não escrevo a pensar nisso.
Esta cena que acontece no hip hop em Espanha, com todas estas artistas — Tribade, Elane, Anier e tantas outras. Em tantos anos, nunca vi um movimento feminino tão forte como este de que tu fazes parte em Espanha. Daí o meu interesse de falar convosco e tentar perceber o que deu origem a esta força feminina toda. Daí esta pergunta: como vês o papel da mulher na Indústria musical e que mudanças gostarias de ver, se é que são necessárias, uma vez que já falámos atrás que foi correndo tudo bem?
Sim, agora mesmo eu percebo que o papel das mulheres está ao mesmo nível do masculino. Há um grupo muito forte e muito grande e estamos consolidadas. Não é como há uns anos atrás, e gostaria que continuasse a ser sempre assim, sabes? Que todas levássemos por este caminho e que é muito importante. Por exemplo, ontem estivemos todas juntas, porque cantavam algumas e sempre vamos a tudo juntas, apoiamo-nos, e sinto isto como sendo algo muito importante e não vejo outros artistas a fazê-lo.
Foi isso que nos despertou a curiosidade! Essa união, esse movimento, e perceber como aconteceu, estudá-lo. Porque foi isso que vos destacou. É essa a minha vontade, desde que vos descobri à cerca de um ano. Agora vai acontecer um concerto pequenino em Portugal, dia 25 em Barroselas, e o que eu vou comentando com quem vai, é que agora vamos ver K1ZA num concerto pequenino, mas quando a virmos da próxima vez será num grande festival!
Oxalá!
Sim, porque reconheço muita qualidade no teu trabalho. E por falar em trabalho, quais os planos para o futuro de K1ZA?
Os meus planos, para já, serão lançar um disco longa-duração este ano e fazer concertos — depois do lançamento do disco faremos uma tour.
Este disco é o primeiro?
Sim! Lancei EPs e singles, este será a primeiro longa-duração.
Voltando ao que tu escreves e à riqueza das tuas letras. Já sabemos que abordas os teus assuntos pessoais. Sai-te tudo de coração, ou pensas em estruturar em partes? Como é que acontece esse processo?
Eu não sou de estruturar muito. Vou escrevendo o que me vem à cabeça e já está. Escrevo tudo de um tiro, logo a seguir faço uma pequena revisão da letra, mas não escrevo a pensar “vou fazer uma canção sobre isto, ou aquilo.” É somente o que me sai.
Queres destacar duas músicas, para que quem te está a conhecer possa escutar as músicas que te digam mais?
Duas das minhas canções, dizes… Pois, te diria “El Contrato” e “Cada Vez Que Mientes”.
Pronto, já temos um ponto de partida para o teu universo. Aprofundando a vossa união entre artistas de hip hop: vocês vão aos espetáculos umas das outras, andam sempre juntas, mas, simultaneamente, vocês têm editoras/produtoras diferentes, certo?
Sim.
Como é que isto funciona? Como é que o fazem acontecer? É a amizade que vos mantém em contacto?
Sim, no final, somos todas amigas. Então alguém diz: “Olá. Eu tenho um concerto, vêm!” Ou há um festival e vamos todas. Não tanto as produtoras e os managers. É mais entre nós, falando entre nós.
Entendo, e sois todas da mesma zona?
Não, de todo. Quase todas são de Barcelona e outros locais, e eu sou de Madrid. Mas pronto, apanhamos comboios, qualquer coisa, deslocamo-nos para nos encontrarmos e já está.
Toda esta força do hip hop feminino, deve-se tudo à amizade?
Deixa ver… Pois, eu acho que tudo começou com pessoas como as Tribade, que fizeram muitos esforços para nos juntar a todas. Eu, por exemplo, a primeira vez que subi a um palco foi porque Tribade me convidou — “Anda connosco!” E pronto, a partir daí fui e conheci outras mulheres do meio que acabaram também por me convidar a seguir caminho com elas, e no final formou-se uma rede. No final acaba por ser isso, figuras importantes como Tribade, que fazem um esforço tremendo para nos juntar a todas.
Que mudanças gostaria de ver acontecer nesta indústria para os artistas de hip hop?
Não sei, se calhar que nos festivais não fossem sempre os mesmos artistas, que houvesse um pouco mais de eco a artistas mais pequenos e… Não sei, se calhar o governo podia ajudar um pouco os artistas a fazer música, pois acaba por ser bastante caro — estúdio, produtores, videoclipes. Acaba por ser muito caro, sabes?
Achas que a indústria do hip hop espanhola vai ter algum impacto além fronteiras, ou achas que ficará circunscrita a território nacional?
A ver. Eu acho que todo o movimento de rap é bastante potente, seja em Espanha ou México, e conseguem ter impacto no estrangeiro. Mesmo nos países em que a indústria musical de rap não é tão forte, acaba por ser influenciado pelo nosso exemplo e a inspirar-se, o que ajuda a crescer.
E o vosso grupo, de Espanha, mais ou menos restrito, está a crescer? Vão aparecendo mais pessoas na cena do rap feminino em Espanha?
Sim, sim, sim! Cresce a cada momento. A cada duas por três, saem artistas novas. Por exemplo, ontem estivemos com uma artista — Faenna — que cresceu muito. Há coisa de uns meses lançou-se e já está em festivais, em todo o lado, e cresceu muito e muito rápido.
Agora, concluindo a entrevista, queres deixar alguma mensagem, algo teu, do teu percurso, da tua vida, no que tu acreditaste e em que te inspiraste para chegar até aqui? Neste caso, esta pergunta é mais pessoal e para as pessoas que te vão ler, seguir, as potenciais cantoras de rap de Portugal que ainda não saíram do casulo por algum receio, uma vez que tu és jovem, estudante finalista de medicina e já uma figura carismática no rap de Espanha?
Pois… Eu lhes digo que na minha vida passei por coisas muito difíceis, que me levaram a escrever, e temos de pegar nessas coisas todas e transformá-las em algo positivo, e no meu caso foi a música. A mim, ao princípio também me dava vergonha e receio, mas no final é uma coisa bonita. Se nasceste para o fazer, pois então tens de colocar em prática e animar toda a gente que o quer também. Se no caso forem mulheres numa indústria muito masculina, pois abram caminho, porque no final os tempos vão mudando e as mulheres também têm o seu eco.
E tu sentiste essa dificuldade?
Não. Em Espanha já abriram esse caminho há muito. Temos exemplos como as Tribade, que trilharam o caminho antes e para nós, mulheres. Já é muito normal veres mulheres assumir um palco. Para elas não foi simples, foi muito difícil, mas para nós já é muito mais normal graças a elas.
Vais tocar aqui, em Portugal, dia 25. Trazes alguma surpresa preparada para o público português?
Sim, sim, sim! Faremos um espetáculo especial, porque é a nossa primeira vez em Portugal, e vamos mudar tudo o que normalmente fazemos para que seja um espetáculo muito divertido.