No passado dia 25 de Maio, K1ZA estreou-se nos palcos portugueses. Planeava-se uma maravilhosa tarde de primavera, com direito a churrasco e festa antes dos espetáculos da noite. Pelo menos era isto que a NAAM Barroselas planeava na sexta edição de programação na celebração dos seus 25 anos.
Então, sem aviso nem previsão, abateu-se uma chuva que de capricho se tornou copiosa, transformando a primaveril tarde num úmbrio amortalhar de espíritos e vontades. O churrasco aconteceu a meia chuva e meio abrigo, mas as pessoas, essas, perderam a vontade de sair para a festa com tanto cuidado preparada. Infelizmente.
Obviamente, isso refletiu-se no afluir de gente à hora dos concertos e, não fora a vontade de umas poucas dezenas de pessoas, parecíamos isolados do mundo em Barroselas. Ânimos e resiliência ao alto, que esta gente anda aqui há 25 anos e nunca do rosto lhes saiu o sorriso, e melhor ainda quando Maria Roque, de MaZela, comentou que ao menos a chuva condizia com o espírito de algumas das músicas que trazia para o palco.
O projeto MaZela, de Maria Roque na voz e guitarra e Alexandre Mendes na segunda guitarra, abriu a noite com sons nostálgicos de uma vida por acontecer num tempo que já aconteceu. MaZela, que são vencedores, de fresco, da vigésima oitava edição do Festival Termómetro, foram a mais serena musicalidade da noite que, para além da tamisada voz de onde cresciam letras em forma de história e orvalho, tinha a guitarra de Alexandre a marcar o embalar melódico de crescendos com a genética do pós-rock impressa, detalhe de ourives em tão belo concerto.
Após um intervalo de onde se sentia a adrenalina da curiosidade a despertar, Jorge Lopez Rodriguez, o DJ de K1ZA, assumia o palco começando o segundo espetáculo. Aos primeiros sons mostrou uma agilidade que antevia o som portentoso que aí vinha. E K1ZA entrou. Logo, naquele instante, aquela mulher de nome Carmen, que durante toda a tarde, conviveu com as pessoas que iam frequentando o recinto da diNAAMo de forma próxima e humilde, fez com que o palco se tornasse pequeno com a sua presença. Seres destes têm o dom de transformar qualquer sala, palco ou recinto no seu universo particular.
“Sacramento” abriu as cerimónias da noite, purificando e santificando os presentes com a frase “Eh con la desesperación que trae a um ateo a la iglesia”, e durante mais de uma hora esta forma alternativa de diva dos novos tempos fez-nos esquecer a chuva e o frio que insistiam em fazer-se sentir. Despejou “Elegante” — “Estoy sonando potente / Estoy haciendo que ballen” — e nada podia ser mais verdade. Havia calor, havia ritmo e, sobretudo, havia o render-se perante uma rapper tão valorosa.
“Dias Tristes”, “Cobarde”, Agua y Tiza”, “Tormenta”, “Tantra” e “Intenciones” desfilavam no espetáculo com tal energia e intensidade, obliterando os normais altos e baixos de qualquer concerto, pois só havia as rotações ao máximo e os corações ao rubro. “Cuida a tus demónios” foi a primeira moeda de troca que o público, apesar de parco, tinha para K1ZA, acompanhando na letra. Apesar de ser o primeiro concerto, não é uma total estranha ao nosso país. Ainda estávamos a meio do concerto.
Depois de quinze canções, “Contrato” encerraria um concerto que de tanto parecia tão pouco. Era o pronuncio do final e de querermos ver isto outra vez que nos deixava numa euforia confusa e, para isso, K1ZA e Jorge traziam um momento de techno para descomprimir da jarda que foram “Volver a verte”, “Cada vez que mientes”, “Time Zone”, Tiembla el Suelo” e “Cero Negativo”. Um concerto titânico e bem merecido a todos os presentes e aos guerreiros de aço da organização.
Esta noite em que a mulher era a figura central do palco teve ainda tempo para um after assumido num “duelo” por Marta Abreu e Mar. A primeira com uma prestação soberba de rock alternativo e a segunda com os hits rockeiros de outros tempos, criavam uma dualidade de admiração e despertar de sorrisos e vontade de beber mais um copo.
Aprendemos que MaZela chegará onde quiser no futuro próximo da história da música portuguesa; K1ZA dificilmente a veremos tão próxima de nós, com a certeza de que qualquer palco será pequeno ante talento tão único; e que a chuva ainda desanima os portugueses.