É curioso como algumas bandas não alcançam sucesso com um single até sair um remix que começa a dar nas vistas, tendo sido esse o caso dos Simian, banda britânica composta por quatro elementos, dos quais James Ford e James Shaw faziam parte, e que viram o seu tema “Never Be Alone” ganhar tração graças ao tratamento feito por Xavier de Rosnay e Gaspard Augé em 2003. Foi com esta remistura — que mais tarde viria a ser renomeado de “We Are Your Friends” — que a dupla francesa Justice cimentou o seu nome na cena electrónica e que assegurava contrato com a Ed Banger Records, label de Pedro Winter aka Busy P, nome conhecido da noite Parisiense e antigo manager de Daft Punk. Quanto aos Simian, não gozaram da mesma cena, tendo o grupo terminado pouco tempo depois, o que acabou por originar outro projeto de renome, os Simian Mobile Disco.
Mas passando à frente: era 2007 quando saiu o disco † [lê-se Cross, mas nas plataformas de streaming foi registado como Justice], primeiro longa-duração de Justice, um álbum que marcou uma geração e que ainda hoje soa tão avant-garde como no dia em que foi editado — seja pela fusão de elementos disco, rock e eletrónica, ou pelas técnicas de produção envolvendo dezenas de samples e micro-samples, onde foram buscar kicks, snares, vocais, strings, entre outras coisas, de nomes como Britney Spears, 50 Cent, Slipknot ou Queen, e até mesmo trechos de temas de The Brothers Johnson, Goblin ou David Shire. A dupla chamava o conceito de uma “opera-disco”. Pessoalmente considero-o ser um disco do caraças!
Dezassete anos depois, recebemos o quarto LP dos Justice, intitulado de Hyperdrama, um nome que faz jus ao seu conteúdo, onde elementos de rave, hardcore techno, disco e um pouco de sonoridades típicas de uma banda sonora são exploradas ao limite, sempre acompanhadas de um baixo contagiante, umas tarolas pesadas e melodias coloridas. Um álbum repleto de contribuições de peso por nomes como Kevin Parker de Tame Impala, Connan Mockasin, Thundercat, Miguel, The Flints e RIMON, ao longo de treze temas que compõem esta viagem pelas paisagens sónicas de Justice.
A dupla tinha presença marcada para o segundo dia do Primavera Sound Porto, mas viu a sua atuação cancelada devido a um problema no palco, que acabou por ficar inativo ao longo de todo o dia. Não houve atuação, mas assegurei uma entrevista com Xavier e Gaspard, que falaram sobre o disco, a sua criação, as parcerias, entre outras coisas.
Passados oito anos desde Woman, estão agora de volta com Hyperdrama, talvez o maior espaço de tempo que levaram entre discos. Ouvi numa entrevista que trabalharam neste por um pouco mais de tempo do que o habitual…
[Xavier de Rosnay] Sim, mas não foi assim muito mais tempo, foram uns três anos e meio — de junho de 2020 a novembro de 2023.
Quando estavam a produzir para o primeiro álbum, o Cross — que completou agora dezassete anos —, usavam muito mais micro-sampling. Na realidade, utilizavam muito mais sampling do que usam atualmente… Agora vocês tocam muito mais instrumentos, e ouvi também que usaram loops para começar a produção de algumas das faixas, certo? Parece que o vosso método de produzir música mudou muito… Sentem que hoje em dia é mais fácil colocar as vossas ideias e o que têm em mente numa faixa comparado a quando estavam a gravar o Cross?
[X] Não… Na realidade, o método não mudou muito, porque mesmo no nosso primeiro álbum sempre começávamos qualquer música tocando — como sempre começamos — no piano e no baixo, e depois estamos apenas a repassar os sons. E ainda hoje fazemos a mesma coisa, escrevemos cada música tocando em instrumentos. Então o método não mudou muito.
Neste álbum, vocês têm uma música que foi inspirada por uma faixa do artista Jeremy chamada “Go With The Flow”, certo? Um disco de gabber…
[X] Sim, foi!
Vocês estavam a ouvir muito mais discos de gabber, coisas das compilações Thunderdome? Sei que vocês costumavam tocar muitos discos de electro e de disco, então parece que algumas das influências foram um pouco para um lado mais pesado, como techno hardcore e coisas do género…
[X] Não é que seja uma grande influência, é só porque já faz uns dez anos que andamos a tocar algum techno hardcore e gabber quando fazemos DJ set — e nós não fazemos muitos DJ sets, fazemos tipo duas ou três vezes por ano. Mas isso é tipo… Quando começámos a fazer DJ sets com esse tipo de música, sentimos que a energia era muito mais tangível para nós, e muito excitante — é uma música muito excitante porque é rápida, é brutal, e adoramos isso. E a estética disso também é muito mais remota do resto das coisas que ouvimos, percebes? Ouvimos principalmente música dos anos 70 — mas não podíamos evitar, estávamos empolgados com isso, e achámos que seria divertido fazer algo usando esses sons e essa estética no contexto da música a que estamos mais habituados. E foi divertido ter esses stabs que se conseguem reconhecer — podes ouvi-los, por exemplo, em “Generator”, “One Night/All Night” ou “Afterimage” —, mas no final essas músicas também são muito melancólicas, há algo bonito nelas, quase sexy — o que não é a primeira coisa que penso quando penso em techno hardcore [risos]. E isso é… Na verdade, estávamos apenas a misturar coisas que adoramos, que é o que sempre fizemos.
Uma das coisas neste álbum que é um pouco diferente dos outros é que este é o primeiro álbum em que têm as participações escritas na tracklist — nos outros vocês tinham vocalistas convidados, mas não apareciam creditados…
[X] A cena é essa: elas não estão escritas no álbum, mas se tiveres o vinil, e se olhares para ele [para o gatefold], dentro tem todas as coisas escritas, as participações todas.
Sendo que este é o primeiro disco em que vocês tiveram, digamos, nomes maiores a colaborar convosco — como o Kevin Parker, Connan Mockasin, Miguel, Thundercat, e também The Flints e Rimon —, como foi o processo de decidir com quem iam trabalhar numa faixa específica? Chegaram a trabalhar com mais pessoas e algumas não deram certo, então decidiram experimentar com outro artista? Como é que esse processo se desenvolveu?
[X] Não… Tipo, todas essas pessoas, nós pedimos para participar porque gostamos do que elas fazem, e sentimos que as músicas que estávamos a fazer poderiam funcionar com elas. Então, por exemplo, quando começámos a “Neverender”, pensámos que poderia funcionar para o Kevin [Parker], até porque estamos familiarizados com a sua música há muito tempo — já há pelo menos uns quinze anos que pensámos que a voz dele poderia funcionar, mas na altura simplesmente não tínhamos a música que poderia fazer isso acontecer. E claro, depois tentas e nunca sabes se vai funcionar. Tentámos algumas músicas com pessoas e descobrimos que não funcionava — ainda gostamos da música, ainda os adoramos, mas às vezes simplesmente não acontece, percebes? Às vezes acontecem algumas coisas pelas quais não esperavas. Por exemplo, na “One Night/All Night” não esperávamos que o Kevin cantasse, mas simplesmente aconteceu, porque estávamos no estúdio a trabalhar na “Neverender” e, então, quando ele ouviu a faixa disse-nos: “Oh… Consigo ouvir algo nisto, vamos tentar algo!” Portanto, existem sempre coisas que planeamos, mas estamos sempre abertos, claro, para acontecerem coisas inesperadas.
Ficaram surpresos pela colaboracão com o Thundercat? Já sabemos que ele é um baixista incrível e que também tem uma ótima voz, mas em “The End” acho que ele fez uma das suas melhores interpretações vocais!
[X] Achas que sim?! Obrigado!
Como foi quando viram a música a se estabelecer?
[X] Foi ótimo, mas ao mesmo tempo foi muito casual. Fizemos essa música na sala de estar, nós três, nem foi no estúdio. Colocámos o microfone e o gravador na mesa de jantar, e estávamos apenas os três juntos a fazer música. Mas foi ótimo, com todos esses cantores. Vê-los a trabalhar foi muito impressionante, todos têm métodos diferentes. E o Thundercat, claro, como ele tem um background de jazz, imaginávamos que ele ia improvisar, e foi isso que aconteceu. E sabes, por exemplo, trabalhar com o Kevin — pela nossa experiência, não querendo dizer que é sempre assim — foi à base de falar muito, trocar muitas ideias, e ele depois ia pensar em algo, ficava em silêncio por algumas horas e depois quando tinha a ideia ele voltava e dava-nos o feedback dessa ideia. O Thundercat era mais tipo: “Ok, vamos a isso!” Ele começava logo a cantar, pronto para gravar.
[Gaspard Augé] Ele foi muito rápido com a escrita das letras. Ele tinha uma espécie de fluxo interminável de ideias, e nós apenas estávamos a dar algumas indicações, do tipo: “Gostamos mais desta palavra porque soa melhor.” Ou: “Gostamos mais desta linha.” Mas ele sabia perfeitamente para onde estava a ir, e isso é o que tornou a colaboração interessante. Com todos eles, apenas o facto de estarmos juntos na mesma sala — exceto com o Connan Mockasin que estava na Nova Zelândia — e podermos interagir no momento, e podermos aperfeiçoar tudo com eles na mesma sala. Mas sim, com o Thundercat foi um processo muito rápido, e também foi muito divertido poder estar “na mesma banda” por uns momentos.
Como estavam a dizer, trabalharam com artistas muito distintos e tiveram experiências diferentes com todos eles. Isso deu-vos outra perspetiva sobre a produção musical, na forma como gravam uma faixa, ou apenas uma visão diferente de como começar uma base para uma música?
[X] Sabes… Todos temos um método, e não importa realmente se foi com o Thundercat ou o Morgan Phalen — que estava a cantar nos nossos álbuns anteriormente —, porque são todos singulares, eles vão ter maneiras diferentes de fazer as coisas… E todas as maneiras são bastante inspiradoras. Nós não valorizamos o método do Thundercat ou o método do Kevin acima do método do RIMON ou dos The Flints. O facto de serem maiores ou mais conhecidos, não muda muito as coisas. Ao fim do dia, quando estamos a trabalhar na música, somos apenas três ou quatro indivíduos numa sala, e a noção de popularidade, ou qualquer outra coisa, desaparece muito rapidamente — estamos todos aqui para fazer música, e eles sabiam que estavam aqui para estar no nosso álbum, então estamos todos a trabalhar para a mesma coisa, é como estar numa banda com outra pessoa.
Não era realmente sobre a popularidade ou sobre trabalhar com alguém famoso, era mais sobre trabalhar com alguém com uma ética de trabalho muito diferente…
[X] Ah, sim, claro. É só que, quando é uma colaboração para o nosso próprio álbum, obviamente é mais fácil ter o controlo, mas às vezes acontece que, quando estás a trabalhar no projeto de outra pessoa, não tens a decisão final. Então sim, essa é a principal diferença.
A falar sobre a faixa “Dear Alan”, é uma referência a Alan Braxe, certo?
[X] Sim. É sim!
Podemos considerar que vocês são grandes fãs do Alan Braxe, porque praticamente desde o início da carreira sempre demostraram muito amor e apoio ao trabalho dele e também ao seu parceiro, o Fred Falke. Esta faixa realmente tem aquele feeling do Alan Braxe, mas ao mesmo tempo não, pois é claramente uma faixa dos Justice. Como começaram a trabalhar neste tema? Foi desde logo decidido que seria uma homenagem ao Alan, ou o tema simplesmente começou a soar um pouco a um som que ele poderia fazer, e vocês apenas colocaram a tal referência?
[X] Não, na verdade é porque o tema é baseado num sample de Chris Rainbow chamado “Dear Brian”, que era uma faixa que ele fez como referência a Brian Wilson [dos Beach Boys], e quando tivemos que encontrar um nome para a faixa, pensámos: “Podíamos dizer ‘olá’ ao Alan Braxe!” Mas, mesmo musicalmente, a única ligação é aquele sample vocal, que poderia soar remotamente como Alan Braxe, mas o resto não soa nada como ele, é realmente apenas o nome!
[G] Sim, não é realmente um tributo musical, era apenas para dizer “olá” a ele [risos].
Uma coisa que vocês têm feito com este álbum, que antes não faziam tanto, é o de promover o vosso trabalho com remixes exclusivos, como o da “Afterimage” que lançaram pela Amazon Music, e o flexi disc exclusivo da Tsugi com o remix da “Incognito”. Neste caso, o remix da “Afterimage” é um pouco diferente do vosso trabalho habitual, é o som de Justice mas em velocidade máxima, quase como um som de metal. Como é que começaram a trabalhar nesta versão? Já estavam a planear uma versão ao vivo para tocar, ou apenas começaram a trabalhar numa remistura casual da vossa própria faixa?
[X] Tipo, a “Afterimage”, a “One Night/All Night” e algumas outras músicas, nós começámos a trabalhar nelas como faixas de techno hardcore, e depois fizemos um pitch down. Então esse remix é, basicamente, um pouco como soava a versão original da “Afterimage”. Faz sentido?
Hum… Interessante!
[X] Tipo esta faixa: o remix é como começámos a faixa, e depois baixámos o pitch, fizemos os acordes e chamámos o Rimon para cantar nela. O mesmo se passou com a “One Night/All Night”, então este remix é quase como a demo, apenas aprimorámos para que soasse “maior”, tivesse aquele som um pouco mais cheio e tudo mais. E esse remix é também a versão que tocamos ao vivo, então quando fores ver os Justice ao vivo, quando começares a ouvir a “Afterimage”, ela vai soar um pouco assim.
O mesmo se passou com a “Incognito” então?
[X] Sim, exatamente!
Quando eu estava a ouvir o remix da “Incognito2 pela primeira vez, imediatamente lembrei-me de uma faixa que vocês tocaram no vosso BBC Radio 1 Essential Mix em 2007, um tema que na altura eu nunca tinha ouvido antes, uma faixa dos TC Crew…
[X] Sim, a “Once Bitten”! Muito bem…
Então realmente incorporaram alguns elementos da faixa?
[X] Sim, absolutamente!
Agora sou eu que dou pitch down na conversa, e aproveito para vos fazer uma pergunta mais descontraída, mas que eu realmente tinha curiosidade em saber: Xavier, qual consideras ser a faixa que mais soa ao Gaspard na discografia dos Justice?
[X] Hum, deixa-me pensar… É muito difícil, porque tipo, todas as nossas músicas foram trabalhadas por nós os dois! Espera… Hum… Talvez a “Let There Be Light”, porque ela é, na verdade, uma das músicas dos Justice que foi desenvolvida a partir de uma demo do Gaspard, produzida antes de começarmos a trabalhar nela juntos.
Posso-te fazer a mesma pergunta Gaspard? Qual a faixa que consideras ser a que mais soa ao Xavier na discografia dos Justice?
[G] Acho que a música mais Xavier dos Justice é a “Waters of Nazareth”. Para mim, foi realmente uma bela ideia de produção, entre outras!
Seria justo dizer que tu és a parte mais dramática e melódica dos Justice, e o Xavier a parte mais brutal e mais crua dos Justice?
[G] Não… Seria uma forma demasiado simples de pôr as coisas. Diria que é totalmente diferente! [risos]
[X] A “Let There Be Light” é um bom exemplo, porque era bastante brutal e era uma ideia do Gaspard. Então tipo, não é assim tão simples…
Eu estava a perguntar isso por causa do álbum a solo do Gaspard, o Escapades, que foi lançado em 2021 e foi um disco muito mais melódico, quase como que uma banda sonora às vezes. Mas também tinha aquele toque à Jeff Lynne, dos Electric Light Orchestra. Ele é também uma grande referência para o teu trabalho?
[G] Ah, sim. Apesar de que atualmente é mais pelo meu visual do que pela música [risos]. Mas nós os dois adoramos ELO, e nós os dois adoramos bandas sonoras de filmes também. Mas era mais para fazer algo um pouco diferente, mais afastado dos Justice, então não faria sentido fazer algo na mesma linha, apesar de, obviamente, poderes ouvir algumas semelhanças. Mas foi apenas um projeto em que estava a tentar afastar-me da música “funcional” — e obviamente nós não estamos a tentar fazer música “funcional” como Justice, mas era mais em reação ao cenário musical em geral, não nos importamos muito com a “funcionalidade” em geral, até porque às vezes pode ser dançante e um pouco pop, mas há sempre algo que está ali para incomodar ou para surpreender o ouvinte… Mas a maioria das coisas é para causar um efeito mais emocional.
[X] Mas é só porque pertencem a diferentes tipos de emoções. Tipo, nós temos uma ideia muito específica do que é Justice, e quando trabalhamos em músicas juntos, às vezes fazemos algo muito bom só que depois sentimos que não pertence a Justice. Tipo, há muitas músicas no Escapades do Gaspard, que eu já conheço há vários anos, ideias que surgiram e sentimos que eram muito boas, mas simplesmente não pertenciam ao projeto que são os Justice. E há tantas outras coisas que poderiam ser boas, que poderíamos fazer, mas que simplesmente são algo muito diferente. Então era: claro que há a questão da “funcionalidade” e tudo mais, mas realmente há um certo tipo de emoções na música que sabemos exatamente o que são, e quando as fazemos sabemos que as temos, mas quando não as temos, sabemos imediatamente também.
Para terminar: o que é Justice? Como é que definem o projeto Justice?
[X] Justice é a mesma coisa agora que era há vinte anos, é… [longa pausa] Para mim é um projeto melancholic power disco!
Ainda beijam a cruz antes dos concertos?
[X] Não… Já não! [risos]