Já não são raras as noites abafadas na cidade de Braga. Será a sua disposição geográfica ou a nossa própria disposição — parece cada vez mais quente este lugar. Chegados ao edifício do gnration, vemos que há um bar no pátio da alimentação e está a funcionar. Meia dúzia de passos à frente percebemos que o concerto desta noite aconteceria no “pátio quebrado” do espaço bracarense.
Na realidade, para quem não conhece, o gnration tem três pátios. Um, o primeiro e mais pequeno para quem entra no edifício, onde, por norma, funciona o que é de cafetaria e alimentação; um lá ao fundo, grande e com umas escadas férreas; por último, haverá este onde foi o concerto de quinta-feira, 4 de Julho. Central ao edifico, parece rectangular mas não é. Tem a forma de uma peça de tétris e parece um papel que alguém amarrotou com o carinho de um origami e o deixou desta forma. Serve bem assim. Deixa quem assiste a um espetáculo neste espaço a sensação de estar num anfiteatro, sem realmente estar. É uma vivência maravilhosa, desde que nos saibamos tornar confortáveis com o lugar.
E assim estavam umas centenas de pessoas, dos cinco aos incontáveis anos de idade. Este concerto tinha atraído gente de todas as gerações capazes de respirar. E deu-se o início aguardado entusiasticamente por parte desta diversa plateia.
“This Is Not a Folk Song”, da autoria de Bruno Pernadas abria o cosmos melódico da noite. Haveria muito mais post-rock que jazz nesta música e Carlos Bica mostrou-se, fossemos nós ficar admirados, bem à altura de uma viagem fora das valências orbitais do género no qual se tornou célebre. O tema, esse, estava bastante mutado da sua versão original e surpreendia quem achava que tinha vindo ao gnration para escutar jazz puro e duro.
“Vale”, desta vez uma composição de Carlos Bica, trazia-nos os segredos do contrabaixo e da sua majestosa madeira. Para o abafado da noite e um céu que ficava entre o verde e o negro, esta oração melódica desprendia-nos do local em milhares de pensamentos. Num deles, cruzei-me com a banda sonora de The Straight Story, de Lynch e com a composição de Angelo Badalamenti. Não por aproximações de composição, antes pelo despertar de sentimentos.
No culminar destas duas músicas fomos apresentados à banda. O trompetista luso-brasileiro Gileno Santana, a fazer lembrar o melhor dos instrumentistas dos trópicos em toda a sua essência, e a brilhante Héloise Lefebvre foram os dois músicos que transformaram em quinteto o trio original de Carlos Bica, Bruno Pernadas e Mário Costa, a pronúncia do Norte na percussão do jazz português. Esta particularidade do trio-quinteto é um dos muitos milagres possíveis quando acontecem residências artísticas, como esta, consequência do convite do gnration no contexto da programática do Julho é de Jazz.
Héloise Lefebvre, um ser de figura simples, que arrebata este mundo e o próximo quando decide tocar de forma a parecer fácil melodias dignas de deuses. Em “Ant Dance”, de Mário Costa, deu-se a primeira intervenção da instrumentista da noite que nos fez esquecer, por momentos, que no palco estavam mais pessoas geniais. Não seria a única vez, pois aconteceu também em “Banda Sonora Para Uma Espera” e “Spiritual Something”, ambas composições de Pernadas das quais ela se apossou, no melhor termo da palavra. Esta parisiense com Berlim na bagagem, que trilhou várias colaborações com Carlos Bica, tem de ser olhada com a atenção devida, pois daqui sairá algo de muito bom para a história da música.
Como escrito anteriormente, no palco estavam outras personagens geniais para além Héloise, e dali assoberbaram músicas como “Sweet Jalapeño”, “Não Estás Aqui Por Acaso”, “Lucky” (que escutámos ser tocada há menos de um ano no encore de Carlos Bica no Thetatro Circo), “11:11”, “Whale Rider” e ainda tivemos direito a “Paris” como encore deste espetáculo. Para além do bom-humor e cumplicidade do trio-quinteto houve espaço para o exercício de desempenho musical de excelência, neste gigante e extenso concerto.
Um desafio, teste de resistência para as particularidades físicas de cada um, no peculiar pátio quebrado do gnration ao qual ninguém deu parte fraca numa noite singular. Bem hajam as residências artísticas, os arquitetos, as pessoas que vêm a concertos e quem os programa, pois fica sedimentada, para além do arrepio natural da cultura, a qualidade do que se presta a ser público em tempos em que o fácil e vazio é ode às novas gerações.