José James é um incansável estudante da grande música negra norte-americana, um artista que no seu percurso tem usado o jazz como ponto de partida para entender toda uma cultura que, nos seus olhos, se estende dos clássicos John Coltrane e Miles Davis, de Billie Holiday e Nina Simone, de Alice Coltrane e Marvin Gaye até às bem mais modernas figuras de Prince, J Dilla, The Roots ou Erykah Badu, influências que nunca escondeu. Em 1978, o seu novo álbum, aborda dois lados de uma mesma cultura, a que na música celebrou e protestou, a que apenas quis dançar e a que ergueu braços no ar exigindo a mudança. É essa a visão que esta noite apresenta na Casa da Música, no Porto, num espectáculo que se prevê intenso, quando o país de onde chega, os Estados Unidos da América, está prestes a ir a votos.
1978, o ponto de partida
“A música sempre foi uma forma de expressão livre para mim. E agora, com este novo projeto, intitulado 1978, estou a explorar a fusão de estilos que caracterizaram o final dos anos 70, um período particularmente significativo para mim, pois foi o ano em que nasci. Para mim, o final dos anos 70 representou uma era de transição e fusão de géneros. A música disco fazia toda uma nação mover-se, o funk em plena evolução com o James Brown a afirmar a sua negritude e os Funkadelic a adicionarem loucura ao groove, e o hip hop começava a dar os primeiros passos, saindo dos bairros para o mundo. Artistas como Quincy Jones, Donald Byrd, Herbie Hancock, Earth, Wind & Fire e até Prince começaram a incorporar esses elementos, criando um som muito orgânico, com músicos a gravarem juntos numa mesma sala. A essência que quis captar no meu álbum reflete essa autenticidade, quis mesmo que a música resultasse desse olhar olhos nos olhos, que a fita captasse aquele sentimento que só acontece quando todos se alinham numa mesma vibração.”
A origem da inspiração
“O meu pai, também músico, expôs-me a todo esse universo sonoro, com muitos discos muito variados que se escutavam lá em casa. Cresci em Minneapolis, onde a cena funk de Prince e The Time era bastante influente, mas também havia uma forte presença de reggae, rock e jazz de fusão. Além disso, a coleção de discos da minha mãe também era incrível e igualmente diversa. Ouvíamos de tudo, desde Ohio Players até Stravinsky, de Stylistics até Duke Ellington, o que certamente contribuiu para a diversidade dos meus gostos musicais.”
Olhar pessoal sobre o mundo
“Este álbum é, sem dúvida, o meu trabalho mais pessoal, mais íntimo e mais profundo. Foram cinco anos dedicados à sua criação, com muito trabalho, muitas dúvidas e muitas experiências pelo meio. Cresci a apenas três quarteirões do local onde George Floyd foi assassinado, o que tornou este projeto particularmente pessoal. A canção ’38th in Chicago’ é uma homenagem a ele, enquanto ‘For Trayvon’ aborda as injustiças sociais que ainda pesam sobre as nossas comunidades. Para mim, os anos 70 sempre integraram a celebração e a política, e foi essa dupla intenção que quis transmitir neste disco. O lado A do álbum é mais romântico e festivo, inspirado por artistas como Marvin Gaye, Michael Jackson e Rick James. O lado B, por sua vez, é mais político e abrangente.”
A banda
“A banda que me acompanhou neste projeto foi essencial para o resultado final. Gravámos tudo ao vivo, utilizando fitas de duas polegadas, num estúdio muito bom em Woodstock. Procurei aquele som natural, com a tensão e autenticidade que vêm do facto de não podermos cometer erros. Misturámos essa sonoridade genuína dos anos 70 com um toque moderno, inspirado em batidas de J Dilla, com aquele soluçar tão especial. Penso que o resultado final reflete exatamente aquilo que eu procurava.”
A influência do esteta Leon Ware
“Leon Ware foi uma alma extraordinária, e ensinou-me muito sobre a interseção entre o jazz e o R&B, sobretudo no trabalho que fez ao lado de Marvin Gaye. Ele começava as suas composições com as congas, e essa conexão afro-latina era uma das suas fundações, uma das marcas distintivas da música que criava. A música de Ware, tal como a de Marvin Gaye, também trazia sempre uma vulnerabilidade masculina, algo que considero profundamente importante.”
Ser de Minneapolis
“Minneapolis é uma cidade fantástica a muitos níveis, mas a repressão policial aqui é uma realidade inescapável. Tenho que dizer que cresci com esse medo, tendo sido abordado pela polícia várias vezes a partir da adolescência. A morte de George Floyd, que aconteceu a pouca distância da casa da minha mãe, teve um impacto profundo em mim. A minha primeira reação foi de raiva, como aconteceu com muitas outras pessoas. No entanto, após reflexão, senti a necessidade de criar algo que pudesse inspirar mudanças e ações. A música ‘For Trayvon’ nasceu desse impulso. É uma forma de cantar a necessidade de mudança. Por exemplo, em algumas entrevistas para meios de comunicação europeus, percebi que muitas pessoas desconheciam o nome Trayvon Martin, o que me fez compreender a amplitude do trabalho que ainda há por fazer em termos de consciencialização global. Esta é uma questão mundial, não apenas americana.”
O presente momento político
“A América que Trump quer não é a América em que eu quero ver a minha filha crescer. Enquanto artista, tenho o direito e o dever de expressar uma vontade de mudança. E é isso que tento fazer. Pela minha filha e por todas as crianças que crescem neste momento sem que saibamos exactamente como vai ser o futuro que lhes legamos.”