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Fotografia: Geraldo Ferreira
Publicado a: 19/10/2024

O artista apresentou ao vivo o seu mais recente trabalho.

João Maia Ferreira no B.Leza: a transparência artística numa noite de lua cheia

Fotografia: Geraldo Ferreira
Publicado a: 19/10/2024

Foi em noite de lua cheia que João Maia Ferreira reuniu os fiéis no B.Leza, em Lisboa, para apresentar O Lobo Um Dia Irá Comer A Lua, o seu segundo álbum a solo, mas o primeiro assumindo o seu nome verdadeiro, deixando para trás a persona de benji price

Já muito se escreveu, sobretudo nas páginas do Rimas e Batidas, sobre essa metamorfose artística que tem como origem uma série de inquietações, mas acima de tudo a paternidade do artista para recapitular a matéria, talvez valha a pena ler uma entrevista conduzida no Verão de 2023, aquando do último lançamento de benji price; mas também a entrevista feita agora após a edição do álbum, e o respectivo escrutínio faixa-a-faixa.

O novo disco, O Lobo Um Dia Irá Comer A Lua, parte de um rap palavroso e melódico para se imiscuir de outras sonoridades e estéticas. O nu-disco e a electrónica francesa serviram de inspirações base para João Maia Ferreira moldar um trabalho de 14 faixas dançáveis, onde os grooves se entrelaçam com as suas vozes cantadas, numa estética néon reforçada pelo ambiente clubbing e pelo som dos sintetizadores.

A expectativa já era grande para ver como é que estas novas canções se iriam comportar em palco e é certamente um daqueles casos em que a obra só sai reforçada depois de assistirmos a uma performance live, dada a pertinência dos arranjos. A banda composta por Alex Bastos (bateria), Fred Severo (baixo), Will Brockman (guitarra) e Rui Paiva (teclados) interpretou os instrumentais orquestrados por João Maia Ferreira e companhia (tendo sido um álbum relativamente colaborativo) da melhor forma, dando corpo e alma àqueles beats, materializando-os perante a plateia.

São temas que parecem ter sido feitos para serem tocados ao vivo, que ganham uma outra dimensão sonora em palco graças à espontaneidade característica dos instrumentos. À frente dos instrumentistas, João Maia Ferreira revelou-se sólido, hiper-focado, muito seguro a cantar as letras muitas delas íntimas e vulneráveis, com muitas palavras e nuances melódicas distintas. 

Este é um disco marcado pela auto-aceitação do seu autor, por se assumir verdadeiramente sem máscaras nem artifícios, e essa sua pele encaixa-lhe muito bem a honestidade de cada tema ou de cada intervenção em palco é notória. Foi ver um artista a ser transparente em palco, sem reservas nem receios, por mais que, a um nível profundo, possam existir naturais inseguranças.

Todas as canções do disco (e nem mais uma) foram tocadas no B.Leza, num alinhamento que trocou a ordem das faixas em relação ao álbum, também para ir gerindo as participações dos convidados. Nem todos os que entram no álbum puderam estar presentes, mas Mike El Nite, xtinto, Alex D’Alva e João Não cumpriram a sua parte e vieram interpretar os respectivos versos, acrescentando valor e diferentes cores à performance.

Tal como é habitual na apresentação oficial de um álbum, o público, diverso e bem composto, estava particularmente receptivo e entusiasmado, acolhendo calorosamente nos seus braços a música lúcida e a postura humilde de João Maia Ferreira. Os singles, mais rodados, acabaram por representar picos ao longo do concerto “Gárgulas”, “Impala”, “Diz-me Como” e “Credo” mereceram esse destaque. Mas faixas como “Baú” ou “Mandrágora” também não ficaram muito atrás.

Para concluir, nada melhor do que a primeira e mais representativa canção do disco: “Ser Como Sou”. Explicando que tinha feito aquele álbum e toda esta transição artística para ser uma pessoa melhor, de quem o seu filho se possa orgulhar, João Maia Ferreira encerrou com chave de ouro uma actuação consistente e sem máculas, cumprindo exactamente aquilo a que se tinha proposto. Todos os que ao longo dos anos se mantiveram ligados à sua música, mesmo quando o carismático pseudónimo artístico se evaporou, estarão hoje orgulhosos da jornada construída até aqui. E parece-nos que o filho Akira só tem motivos para sentir o mesmo do pai.


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