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Fotografia: Adriano Ferreira Borges / index
Publicado a: 21/05/2024

Indispensável ao desafio filosófico das novas realidades.

index’24: uma ode à coexistência

Fotografia: Adriano Ferreira Borges / index
Publicado a: 21/05/2024

A Bienal da Arte e Tecnologia index, parte integral do plano de ação enquanto Cidade Criativa da UNESCO no domínio da Media Arts, aconteceu na cidade de Braga entre os dias 9 e 19 de Maio, com a bênção temática conceptual da coexistência. Acresceu, este ano de 2024, integrar-se no programa das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Tendo como ponto de partida um ponto de vista singular da relação entre a Arte e Tecnologia, assentando-se nos eixos programáticos Performance – Pensamento – Exposição – Mediação, como nos disse Luis Fernandes numa curta conversa: “Foi uma programação a oito mãos” — o próprio em conjunto com Liliana Coutinho, Maria Pestana e Sara Borges.

“O conceito de Coexistência serviu-nos como a procura do estabelecer relações entre a tecnologia, democracia e a liberdade, onde a primeira servia de alimento e tensão das duas últimas,” continuou o director artístico do festival. “Olhamos para a tecnologia como elemento disruptor dos tempos em que vivemos e também para o seu potencial enquanto instrumento ao serviço da democracia, da liberdade, da ética e do respeito pelo humano e pelo não–humano.”

O evento abriu ao público com uma visita guiada pela programática expositiva sob a premissa da cidadania como projeto em expansão. Uma aproximação às recentes conquistas de igualdade de direitos e, apesar de essenciais, à sua fragilidade perante o mundo real e digital, onde simultaneamente crescem sem qualquer timidez fações extremistas nacionalistas e religiosas, fazendo de movimentos como o feminismo ou Black Lives Matter exemplos salutares de resistência, como forma de sedimentação e expansão da cidadania.

Apesar de meio século de liberdade, a mesma não deixa de ser um território ideológico imaturo e constantemente ameaçado, como já o referimos atrás, dado à experimentação desafiante da sensibilidade e imaginação como práticas de resistência e de uma revolução ideológica que se caduca e renova à velocidade da constante mutação digital e, por consequência, forma de posicionamento singular perante o coletivo.

Caminhamos pela necessidade de inverter os signos de opressão e essa força só a conseguiremos com o desenho de táticas de maior inclusão através da cidadania e na luta pela indiferença instalada perante um sistema de uma falsa segurança, dentro de sistemas de uma suposta democracia onde o impensável acontece diante da nossa incapacidade de mudar; onde o sistema opressor se mantém impune fazendo de nós parte da resistência e, ao mesmo tempo, parte da permissão.

Nada mais apropriado que esta inclusão nas Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974. É dentro desta mágica programação que destacamos a Ilha de Ascensão de Jonas Staal; o arquivo da empresa de extração de diamantes, de Alexa Szekeres e Remi Kuforiji; ou o espaço de propaganda online DISNOVATION.ORG, entre muitos outros que podem ser consultados, ainda, no programa da bienal.



A primeira noite de espetáculos e performances, que na bienal se dividiram entre as salas do Theatro Circo e a blackbox do gnration, abria com Ryoji Ikeda. Com cinquenta e sete anos, este artista audiovisual, nipónico e residente em Paris, trouxe à cidade de Braga ultratronics. Marcaria aqui a programática da index o ponto de partida a querer fazer questão de não deixar ninguém indiferente. Temos de referir que apesar de trabalhar há mais de uma década, esta sala e o seu sistema de som não nos deixam de surpreender. Sem ter sido alvo de qualquer reforço, já se tinha mostrado bastante musculada no espetáculo de Swans que cobrimos a 20 de Fevereiro último, com Ikeda os limites qualitativos em todo o seu espectro sonoro foram testados e conquistados. 

Ryoji Ikeda traz na bagagem uma maturidade de contensão balizada entre os limites do que é o nosso conhecimento tecnológico e humano e do espectro auditivo e usa-o com uma mestria singular. Artista de uma electrónica progressiva, arquitetou desde o primeiro momento um monumento chamado ultratronics. As primeiras músicas, ausentes de melodia, alicerçaram-se num minimalismo rítmico de ruídos que, de forma conjuntiva, nos prendiam numa teia hipnótica, quase abusiva de uma tensão medular. 

Tema após tema, cresciam a complexidade gráfica e musical que assistíamos e, sem qualquer aviso, havia a melodia que não se fazia rogar entre territórios desconhecidos até para os ouvidos mais habituados da música eletrónica. Teremos cometido o pecado capital de reconhecer “Love Missile F1-11”, dos Sigue Sigue Sputnik, num determinado momento a meio do concerto — talvez o mais dançável, provavelmente. Isso só acrescenta a capacidade de reinvenção do ser humano mesmo nas coisas mais simples, tornando-as belas e únicas a cada momento — um pensamento que podemos acoplar à temática da index.



O segundo dia trazia-nos Lawrence Abu Hamdan, cuja arte sonora podemos chamar de intervenção política. Esqueçamos a contensão da arte como veículo apolítico de mensagem. Lawrence traz-nos à sala do Theatro Circo os céus de Beirute e, por consequência, do Líbano. Esta performance onde a imagem de diversos caças e seus sons abafam propositadamente as palavras, induz-nos um vetor de stress, intencional, para tentarmos perceber a sua mensagem.

A performance começou com um soturno som de motores. Inicialmente, nada indiciava o que se iria passar. Vemos um céu e uma voz, imperceptível, que diz qualquer coisa numa língua que ainda não identificámos — seria libanês, percebemos logo a seguir. Lawrence Abu entra em palco e começa por nos relatar as centenas de violações do espaço aéreo do Libano. Estas violações levadas a cabo por aviação militar de um outro Estado, são contínuas, propositadas e impunes. 

Serve o céu do Líbano para recreio dos “exercícios” deste Estado. Estes dados são obtidos, por Lawrence Abu, na biblioteca digital da ONU. O Estado prevaricador é Israel. Os dados são interrompidos a Agosto de 2020, altura da explosão no porto de Beirut. “Acidente” que até liga uma empresa do Norte de Portugal ao sulfato de Amónio, provável causa logística da explosão. E retomam as violações. E voltam a interromper-se por altura de um acidente ecológico num dos maiores lagos do Líbano, que nada teria a ver com a largada de dois objetos não identificados no mesmo, por parte da tal aviação militar.

Um outro detalhe é-nos partilhado por Lawrence, sobre um estudo que remonta ao pós Segunda Guerra Mundial, à cidade de Ramstein, que servia de “recreio” à força aérea Norte Americana ainda presente no local. Esse mesmo estudo experiencial terá sido interrompido e levado a outro local, Israel, onde foi concluído com a morte de uma das pessoas envolvidas. 

Isto para nos ilucidar que os sons dos aviões militares provocam no ser humano descargas de adrenalina constantes. Também, que a sua repetição induz stress através de terror ao ponto de ser fatal. E voltamos aos valores gastos, aos milhares de violações constantes, onde há um povo vítima — o povo libanês.

Fica uma frase no ar: “Nunca ouves o tiro que te mata.” 

Acaba com o dia em que os céus do Libano ficaram em silêncio. A paz há muito não experienciada não seria maculada, não fosse coincidir com a data do início dos ataques ao Estado da Palestina, na Faixa de Gaza.



O terceiro dia trouxe-nos ASBU, uma narrativa da criação de um ecossistema mítico e cosmogónico e da sua violência para além no humano por SYNSPECIES, a dupla constituída por Elias Merino e Tadej Droljc, com direito aos mitos e superstições e a toda a imaginação especulativa que nos é — e lhes é — permitida.

Toda a semana seguinte decorreu num ciclo intenso de visitas orientadas e a programática do pensamento, onde, de forma constante, tivemos conversas com personalidades intrinsecamente ligada à temática da bienal. Seriam os capítulos finais que nos traziam de regresso às performances.

A Orquestra de Dispositivos Eletrónicos e a Berklee College of Music de Valencia — músicos da cidade de Braga e alunos do estabelecimento de ensino espanhol, respectivamente —, juntaram-se numa aventura de quatro capítulos e fizeram-nos descer ao pequeno auditório do Theatro Circo, onde se respirava a descoberta e criação colectiva pelo somatório da individualidade. É com indelével importância que estas iniciativas marcam as vidas e mudam rumos de quem nelas participa, e uma vez mais a cidadania.

No dia seguinte rumámos à blackbox para assistirmos a dois espetáculos. Um da produtora Evita Manji e a dupla dsmtfctn, que nos transportaram a um ambiente experimental de RPG, com interatividade do público em diversos momentos do espetáculo através dos telemóveis. Uma viagem pelo purgatório existencial de Waluigi, transversal a todos nós seres com consciência.

Encerrar-se-iam as festividades com intenso concerto de Kode9, que nos trouxe o seu trabalho Escapology, também ele interventivo, com a diferença da batuta ser mais ocidentalizada e premiar-nos com a vertente lúdica de um imaginário de uma realidade alternativa, onde nos roubamos à nossa realidade por uma melhor, supostamente. Seria a sua energética proposta e intensidade visual que encerrariam a index, num ambiente a pedir por continuidade.

A Bienal da Arte e Tecnologia, voltará! Como a própria natureza de existência indica, daqui a dois anos. A nosso ver, é indispensável ao desafio filosófico das novas realidades, efémeras e mutadoras, da nossa existência, que se tornou volátil, imensamente maior e mais difícil de entender e absorver. É quase um momento académico nas nossas vidas e nas de quem escolhe visitar e ser parte integrante, ainda como público, da bienal.


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