Depois de um takeover do Terreiro do Paço, o Iminente voltou a organizar uma edição de bolso do festival dedicado à música e arte urbana. Desta vez, uma imensa multidão encheu os jardins do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, no Campo Grande, para assistir às performances e descobrir as instalações artísticas. O Rimas e Batidas esteve em reportagem no primeiro dia de festival.
O pontapé de partida deu-se com a actuação de Violeta Azevedo junto do pavilhão branco. A flautista transversal orquestra paisagens sonoras contemplativas, produzindo um ambient etéreo que nos faz viajar por universos sonoros abstractos, onde o seu instrumento clássico se envolve em texturas electrónicas alimentadas por pedais. É música de vanguarda, um processo exploratório exigente para ouvidos menos testados. Mas os horizontes sónicos atingidos coincidiram bem com o cenário natural e verde de onde brotavam estas sementes auditivas.
Rumámos pela primeira vez ao palco principal, o Palco Museu, para assistirmos a algo no extremo oposto do espectro musical. Cíntia interpretava as últimas faixas do seu alinhamento, num concerto caloroso, de batidas quentes e suadas, voz melosa a condizer, e uma crueza na performance que evoca a sua autenticidade. A artista tem lançado alguns singles ao longo do ano e aproveitou para os apresentar ao vivo, entrelaçados com alguns dos seus temas mais emblemáticos, como o êxito “Grana”.
Seguir-se-ia, na nossa agenda, um longo conjunto de actuações programadas pela associação Chelas é o Sítio. Vários dos tons que compõem a paleta do rap feito em Chelas, da melodia de Cjay Pharrell ao crioulo abrasivo de Gohu G, passando por uma série de outros convidados, foram apresentados em palco perante uma multidão diversa e ecléctica que, em muitos casos, certamente não está habituada a deparar-se com estas coordenadas da cultura hip hop.
Ao unir as diferentes zonas de Chelas e ao proporcionar oportunidades a estes artistas de mostrarem o seu trabalho num circuito mais alargado, a associação está certamente a conduzir um trabalho meritório — mas foi ainda mais além ao integrar outros nomes, que não pertencem a Chelas mas que também fazem parte do rap e merecem mais visibilidade. A “guerreira da fé” Mynda Guevara e o já veterano Kosmo Da Gun, que também trouxe na manga um trunfo chamado King Bigs, só contribuíram para acrescentar ainda mais a este conjunto de performances que se foram seguindo, de forma muito espontânea, umas atrás das outras, reforçando uma série de representatividades.
Talvez tivesse faltado um certo fio condutor que guiasse os concertos e os tornasse todos num único espectáculo — como a presença de um host — mas compreende-se a falta de meios ou os desafios que seriam necessários ultrapassar para elevar um conjunto de performances a um espectáculo por uma só noite.
Chelas mantinha-se em cima do palco assim que Sam The Kid se colocou atrás da cabine enquanto DJ. O astro do rap luso apresentou-se com um set feito à sua imagem; ou, melhor, ao seu som. Passou vários dos seus maiores êxitos, bem como temas que produziu para amigos como Regula ou Boss AC, intercalando-os com algumas faixas internacionais mas dando sempre prioridade às rimas e batidas made in Portugal.
Destaque, claro, para as diversas ocasiões em que trocou o instrumental original por outro, usando vozes acappella a que só alguém como Sam The Kid teria acesso, proporcionando assim ao público uma experiência verdadeiramente diferenciada, que não é possível encontrar noutro DJ set. Também não faltou, como seria de esperar, a sua mais recente faixa, a enérgica e fresca “Correria”, uma parceria artística estabelecida com DJ Vibe.
DJ Big acabou por fazer um set separado, apostando em hits mais contemporâneos, de Travis Scott a Plutonio, incorporando inclusive elementos da música brasileira ou africana de expressão portuguesa, aquecendo a pista para os Dealema.
Há cinco anos que o grupo portuense não tocava em Lisboa. A última vez foi, precisamente, num Festival Iminente — quando este acontecia no Panorâmico do Monsanto. A caminho dos 30 anos de carreira, o colectivo onde militam Mundo Segundo, Maze, Fuse, Expeão e DJ Guze mostrou ser uma máquina bem oleada, fazendo jus à expressão que alude ao vinho da sua cidade Invicta.
A química continua a ser inegável e, no meio da multidão, sentia-se uma fome pelos clássicos dealemáticos que compõem um legado influente e que marcou de forma significativa o panorama nacional do rap. Temas como “Escola dos 90”, “Sala 101”, “Infiéis (Ninguém Teme)”, “Bom Dia” ou “Nada Dura Para Sempre” foram entoados e aclamados pela plateia, que não cedeu mesmo quando as gotas da chuva se intensificaram.
Os Dealema passaram também por uma série de faixas dos respectivos percursos a solo, desde o êxito “Brilhantes Diamantes” cantado por Maze ao “Bairro” de Expeão, passando pela “Provavelmente” de Fuse. Foi um concerto muito seguro, fruto da experiência, em que o calor do público parece ter surpreendido positivamente uma banda veterana, já menos habituada à euforia de palco própria da juventude. O melhor de tudo é que fizeram questão de anunciar que têm estado a trabalhar em músicas novas, 11 anos após o lançamento do último disco, e que vem aí um novo álbum para acrescentar ao currículo. Tal como ficou comprovado no Iminente, há uma legião de fiéis que aguarda e anseia por esse momento.
Em jeito de reflexão, e a julgar pelo primeiro de dois dias de festival, o Iminente conseguiu superar a edição do Terreiro do Paço — um local tão central e de passagem que torna qualquer evento impessoal e desprovido de essência. Entre árvores, estátuas e pavões, o festival fez lembrar quando, no início de tudo, transformou os jardins de Oeiras, ocupando um espaço interessante (e infelizmente desconhecido para muitos) da cidade. As residências artísticas, que resultaram em instalações site-specific e inéditas, são certamente uma mais-valia. Os projectos sociais e artísticos que o Iminente promove ao longo de todo o ano são fulcrais para um trabalho de continuidade que rompe com a superficialidade típica do formato de festival. Mas o Museu de Lisboa – Palácio Pimenta tem muitas limitações e isso terá gerado problemas de produção, de comunicação, de falta de abrigo para a chuva e possivelmente até de segurança.
O desinvestimento é notório, o muito acarinhado Iminente mantém-se como uma sombra daquilo que já foi — e tal é até assumido pela própria organização, uma vez que posicionou as últimas duas edições como takeover e não como anos regulares do festival — e urge repensar seriamente a matriz do festival, desde a escala (que já foi muito maior) ao sítio, até à própria ligação com a Câmara Municipal de Lisboa.
É paradoxal que um festival de contraculturas só possa existir graças ao orçamento e suporte do poder político; e isso diz muito das (poucas) oportunidades que o sistema capitalista neo-liberal deixou a uma cidade culturalmente fervilhante como Lisboa. Como sempre, é nas margens que estas e outras contraculturas nascem e se desenvolvem; e se o Iminente quiser ser um agente mais activo e não somente um palco para essas margens, se desejar realmente fazer parte desse ecossistema e reflectir essas comunidades, ampliando todos esses movimentos uma vez por ano num evento bem oleado, possivelmente terá de se desprender de uma série de amarras — algo que talvez nem sequer seja viável — para redefinir o seu rumo. Oxalá.